Maior demissão da empresa desde a pandemia elimina 3,3 mil vagas, enxuga a estrutura corporativa e revela a ameaça que pode transformar o aplicativo em algo muito diferente
A Uber anunciou a demissão de aproximadamente 3.300 funcionários, naquele que será seu maior corte de pessoal desde o auge da pandemia de Covid-19. O número representa cerca de 10% de toda a força de trabalho corporativa da empresa e faz parte de uma profunda reorganização para preparar a companhia para uma transformação que pode atingir justamente o coração de seu negócio: os veículos autônomos.
O anúncio ocorreu nesta quarta-feira, 2 de setembro de 2026, e foi comunicado aos funcionários pelo CEO Dara Khosrowshahi. Segundo informações divulgadas pela Reuters e publicadas pela CNN Brasil, a Uber tinha aproximadamente 34 mil funcionários no mundo ao fim do ano passado.
Diferentemente do que aconteceu em várias gigantes de tecnologia nos últimos meses, a companhia afirma que os cortes não estão sendo provocados diretamente pela inteligência artificial.
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O motivo apresentado pela empresa envolve uma combinação de redução da burocracia interna, aumento da velocidade na tomada de decisões e preparação para um mercado no qual carros poderão realizar corridas sem qualquer motorista atrás do volante.
Uber quer eliminar camadas de chefia e deixar estrutura mais enxuta
Uma das principais mudanças acontecerá justamente dentro da estrutura administrativa.
A empresa pretende reduzir em 20% o número de funcionários posicionados sete ou mais níveis hierárquicos abaixo do CEO. Além disso, equipes formadas por gestores com apenas um ou dois subordinados diretos serão reduzidas aproximadamente pela metade.
Na prática, a Uber quer eliminar parte das camadas intermediárias de gestão que surgiram durante anos de expansão acelerada.
Segundo Khosrowshahi, uma estrutura menor deverá permitir responsabilidades mais claras, decisões rápidas e uma concentração maior dos funcionários no desenvolvimento de produtos, em vez de processos de coordenação interna. A economia obtida com a reorganização deverá ser direcionada novamente para crescimento e inovação.
O movimento não surgiu de forma isolada.
Em junho, o Click Petróleo e Gás já havia mostrado uma reestruturação anterior da Uber, quando a companhia promoveu cortes que atingiram principalmente áreas de recursos humanos e recrutamento. Veja a reorganização anterior da Uber no CPG
O anúncio desta semana amplia consideravelmente esse processo.
Robotáxis colocaram um novo problema na mesa da Uber
Por trás da reorganização existe uma disputa tecnológica que pode redefinir o transporte urbano durante os próximos anos.
Durante mais de uma década, a Uber construiu seu modelo conectando passageiros a motoristas através de uma plataforma digital. Com o avanço dos robotáxis, entretanto, esse modelo começa a enfrentar uma mudança estrutural.
Empresas como Waymo e Tesla vêm aumentando os investimentos em veículos capazes de transportar passageiros sem motoristas humanos.
A Waymo já mantém uma relação comercial com a Uber em algumas cidades norte-americanas, como Austin e Atlanta, mas também começou a expandir suas operações para outros mercados de forma independente.
Esse cenário cria uma situação delicada para a Uber.
Se empresas proprietárias das tecnologias autônomas começarem a operar diretamente grandes frotas de robotáxis, o aplicativo poderá enfrentar concorrentes que controlam simultaneamente o software, os veículos e a operação das corridas.
Por isso, a Uber não pretende assistir à transformação de longe.
Mais de US$ 10 bilhões estão na estratégia de veículos autônomos
A companhia planeja investir mais de US$ 10 bilhões em robotáxis nos próximos anos, apoiando empresas responsáveis pelo desenvolvimento de sistemas autônomos e tentando posicionar seu aplicativo como uma espécie de grande marketplace global para corridas sem motorista.
Essa mudança ajuda a explicar por que a Uber considera necessária uma força de trabalho diferente daquela utilizada durante a expansão tradicional do aplicativo.
Uma operação baseada principalmente em motoristas humanos exige equipes voltadas para suporte, relacionamento, recrutamento, segurança e inúmeros processos operacionais.
Um ecossistema formado por veículos autônomos pode alterar profundamente essa estrutura.
Isso não significa, porém, que os 3.300 desligamentos anunciados correspondam a motoristas parceiros. Os cortes divulgados atingem o quadro de funcionários corporativos da Uber.
No Brasil, a própria plataforma também continua realizando mudanças no relacionamento com os motoristas. Recentemente, o CPG mostrou que a empresa passou a testar um sistema de assinatura para motoristas em 12 cidades brasileiras, substituindo em determinadas situações a tradicional taxa percentual por uma cobrança fixa. Entenda o novo modelo testado pela Uber com motoristas brasileiros
Trabalho totalmente remoto também praticamente desaparece
A reestruturação terá reflexos inclusive na maneira como os funcionários trabalham.
A Uber pretende limitar as funções completamente remotas a aproximadamente 1% de seus empregados.
A política predominante continuará exigindo presença física no escritório durante três dias por semana, reforçando uma tendência de grandes companhias de tecnologia de reduzir posições totalmente remotas depois da expansão desse modelo durante a pandemia.
A empresa também deverá concentrar parte maior de seus trabalhadores em centros considerados estratégicos.
Essas mudanças mostram que o corte anunciado vai além da simples eliminação de milhares de vagas. A companhia está redesenhando a própria estrutura para operar com menos níveis administrativos e mais recursos direcionados às tecnologias que considera decisivas para os próximos anos.
Maior corte da Uber desde 2020
A dimensão da decisão fica ainda mais evidente quando comparada ao histórico recente da companhia.
Em maio de 2020, com as cidades praticamente paralisadas pela Covid-19 e a demanda por transporte despencando, a Uber eliminou aproximadamente 6.700 empregos, o equivalente a quase um quarto de seu quadro naquele momento.
Desde então, nenhum corte realizado pela companhia havia alcançado a dimensão dos 3.300 desligamentos anunciados agora.
O cenário também ocorre em meio a uma onda mais ampla de reorganizações no setor tecnológico.
A reportagem utilizada como fonte registra que o Layoffs.fyi contabilizava mais de 123 mil demissões em quase 390 empresas de tecnologia em 2026 até o momento da publicação.
O CPG já vinha acompanhando essa transformação. Um levantamento publicado anteriormente mostrou como gigantes de tecnologia vêm reduzindo quadros enquanto direcionam recursos para inteligência artificial, automação e infraestrutura tecnológica. Veja como as demissões vêm atingindo gigantes da tecnologia
Existe, entretanto, uma diferença importante no caso da Uber.
Uber diz que inteligência artificial não é responsável pelos cortes
Embora inteligência artificial, automação e redução de custos estejam diretamente relacionadas às recentes demissões realizadas por diversas empresas, Dara Khosrowshahi evitou colocar a IA como responsável pelos desligamentos da Uber.
A companhia enfrenta inclusive custos elevados associados ao uso dessas tecnologias, mas apresenta a reorganização principalmente como uma maneira de simplificar sua estrutura e preparar o negócio para a próxima etapa do transporte autônomo.
Essa diferença chama atenção justamente porque diversas companhias passaram a utilizar a inteligência artificial como explicação para reduções de pessoal.
Uma reportagem publicada anteriormente pelo CPG mostrou uma pesquisa na qual 59% das empresas consultadas admitiram utilizar a IA como argumento para justificar cortes, enquanto somente uma parcela muito menor dizia ter substituído completamente funções humanas pela tecnologia. Leia a análise sobre IA e demissões publicada pelo CPG
No caso da Uber, o movimento parece apontar para uma transformação ainda mais profunda.
A empresa que revolucionou o transporte ao colocar milhões de motoristas conectados a um aplicativo agora precisa descobrir qual será seu papel em um mundo no qual parte desses carros poderá circular sem motorista algum.
E os 3.300 cortes anunciados nesta semana podem ser um dos primeiros sinais visíveis dessa nova fase.
Fonte externa: Reuters, via CNN Brasil. Confira a reportagem utilizada como referência
