A aposta se apoia num dado científico concreto: um mapeamento conduzido pela agência atômica da ONU com 13 países confirmou grandes reservas de boa qualidade sob o Sahel. O plano de seis anos prevê ainda 788 hectares de irrigação e 80 comitês de água locais, mas esbarra em alertas sobre superexploração e na difícil verificação independente dos números oficiais.
Burkina Faso lançou um projeto de US$ 145 milhões para reabilitar 35 barragens e perfurar poços profundos em busca de água subterrânea armazenada há milênios sob o solo árido do Sahel. O plano, de seis anos, é apresentado pelo governo do capitão Ibrahim Traoré como um caminho rumo à chamada soberania hídrica, ou seja, a capacidade de o país garantir o próprio abastecimento de água sem depender de financiamento e de sistemas externos.
Aprovada pelo Conselho de Ministros em 2025, a iniciativa é descrita pelo governo como uma resposta direta à crise hídrica do país, agravada pelas mudanças climáticas, pela desertificação e por padrões de chuva cada vez mais imprevisíveis. Burkina Faso é uma nação sem litoral, propensa à seca, onde mais de 80% da população depende da agricultura e da pecuária, mas que historicamente convive com a falta de água potável confiável, sobretudo nas áreas rurais.
O que prevê o projeto hídrico
Segundo o governo burquinês, o projeto reúne um conjunto de ações que vão além de simplesmente abrir poços. Entre as metas anunciadas estão a reabilitação de 35 grandes barragens, muitas construídas décadas atrás e deterioradas por anos de abandono, além do desenvolvimento ou restauração de cerca de 788 hectares de terras irrigadas, com técnicas modernas que permitiriam o cultivo durante todo o ano, e não apenas na temporada de chuvas.
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O plano também prevê reabastecer 15 reservatórios estratégicos, criar 15 novos tanques de piscicultura para ampliar a produção de proteína, restaurar 5.000 hectares de terras degradadas para combater a desertificação e instalar 80 comitês comunitários de água. Esses comitês são pensados para que a gestão do recurso fique nas mãos das populações locais, e não de estruturas distantes, e há ainda a proposta de um fundo nacional de água para financiar projetos futuros.
A ciência por trás da água escondida
O ponto mais sólido dessa história está na ciência, e não na retórica política. A existência de grandes reservas de água sob o Sahel foi confirmada por um amplo trabalho da Agência Internacional de Energia Atômica, a AIEA, vinculada à ONU. Entre 2012 e 2017, a agência treinou e equipou cientistas de 13 países africanos, incluindo Burkina Faso, para mapear as águas subterrâneas usando técnicas isotópicas baseadas em tecnologia nuclear.
Publicado em maio de 2017, o estudo analisou cinco grandes sistemas aquíferos transfronteiriços, entre eles o sistema Liptako-Gourma-Alto Volta, que fica justamente sob Burkina Faso, além das bacias do Lago Chade, Senegalo-Mauritana, Taoudeni e do sistema Iullemeden. A conclusão foi animadora: há grandes quantidades de água de boa qualidade, própria para consumo humano, com poluição ainda limitada. É importante destacar, porém, que esse mapeamento é fruto de uma cooperação internacional e dos 13 países, e não uma descoberta do atual governo de Burkina Faso.
Água e soberania: a leitura política
Ibrahim Traoré, capitão do exército que chegou ao poder por meio de um golpe em setembro de 2022, faz questão de vincular o projeto hídrico a um discurso mais amplo de soberania nacional. A ideia central, defendida pelo governo, é que um país não constrói independência apenas com discursos, mas com infraestrutura própria, e que a água é a base para garantir segurança alimentar sem depender de ajuda externa ou de empréstimos com condições impostas de fora.
Esse projeto se insere em uma estratégia maior. O governo afirma ter lançado uma ofensiva agrícola, com distribuição de tratores e bombas de água, e chegou a anunciar que o país teria alcançado a autossuficiência alimentar e colhido recordes de cereais. Vale a ressalva, no entanto, de que boa parte desses números vem de fontes oficiais e ainda carece de verificação independente, em parte por causa das restrições à imprensa e do fechamento do espaço político no país, o que recomenda tratá-los como alegações do governo, e não como fatos plenamente comprovados.
Os riscos e desafios do plano
Por mais promissor que pareça, o projeto enfrenta obstáculos reais que merecem atenção. O primeiro é a escala: os 788 hectares de irrigação a serem restaurados representam apenas uma fração do potencial agrícola do país, que tem milhares de hectares ainda sem aproveitamento. Ou seja, o investimento é relevante, mas está longe de resolver sozinho o déficit hídrico de Burkina Faso.
Há também um alerta técnico importante: a água subterrânea não é infinita. O próprio hidrólogo da AIEA responsável pelo estudo advertiu que os governos precisam proteger esse recurso da poluição e da superexploração, porque a situação pode mudar rapidamente. O caso do Grande Rio Artificial da Líbia, que retira água de aquíferos do deserto e já dá sinais de esgotamento, serve de exemplo de que bombear água fóssil sem manejo cuidadoso pode comprometer as reservas para as próximas gerações.
Governança e estabilidade em xeque
Outro desafio está na governança. Estudos sobre sistemas de irrigação geridos por comunidades em Burkina Faso já apontaram problemas persistentes, como desperdício de água e baixa produtividade, mostrando que construir a infraestrutura é apenas parte do caminho. Sem instituições sólidas e bem administradas, mesmo barragens e poços novos podem não entregar os resultados esperados ao longo do tempo.
Por fim, há a questão da estabilidade política. O governo de Traoré já enfrentou tentativas de golpe, dissolveu partidos e restringiu a liberdade de imprensa, o que levanta dúvidas sobre a continuidade de projetos de longo prazo num cenário de poder concentrado. Tudo isso ocorre em meio a insurgências que deslocaram mais de um milhão de pessoas no país, tornando o ambiente ainda mais frágil para a execução de obras que dependem de anos de continuidade.
O projeto hídrico de Burkina Faso é um exemplo fascinante de como ciência, infraestrutura e política se entrelaçam. De um lado, há um fato concreto e comprovado: existe muita água de boa qualidade sob o Sahel, mapeada por uma agência internacional. De outro, há um governo que decidiu agir sobre esse conhecimento, mas cujos resultados ainda precisam ser confirmados de forma independente e cuja sustentabilidade depende de manejo cuidadoso e de estabilidade. Mais do que celebrar ou desacreditar, o caso convida a acompanhar com atenção um dos experimentos de desenvolvimento mais ousados da África hoje.
E você, o que acha dessa aposta de Burkina Faso em buscar água nas profundezas do deserto para tentar garantir sua soberania hídrica? Acredita que projetos assim podem transformar regiões áridas ou os desafios são grandes demais? Deixe seu comentário, conte o que pensa sobre o tema e compartilhe a matéria com quem se interessa por água, África e desenvolvimento sustentável.


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