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Empresa que perfura petróleo furou 6 quilômetros de rocha no Colorado em apenas 18 dias — mas desta vez não queria óleo, queria o calor infinito que existe dentro da Terra a 300 graus Celsius

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 20/04/2026 às 18:15
Plataforma de perfuração da Occidental Petroleum no Colorado ao entardecer
Oxy usou plataforma de petróleo para furar 6 km no Colorado em 18 dias — mas desta vez buscava calor, não óleo
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Empresa que perfura petróleo furou 6 quilômetros de rocha no Colorado em apenas 18 dias — mas desta vez não queria óleo, queria o calor infinito que existe dentro da Terra

A Occidental Petroleum, uma das maiores petroleiras dos Estados Unidos, decidiu usar suas plataformas de perfuração para algo que ninguém esperava. Em vez de buscar petróleo, ela furou dois poços de 6 quilômetros de profundidade para extrair calor da rocha — energia geotérmica limpa e praticamente infinita.

O projeto se chama GLADE — sigla para Geothermal Limitless Approach to Drilling Efficiencies — e foi financiado com uma bolsa de US$ 9 milhões do Departamento de Energia dos Estados Unidos.

Um dos poços foi perfurado em apenas 18 dias. É uma das perfurações geotérmicas mais rápidas já realizadas nos EUA.

6 quilômetros de profundidade: o que existe lá embaixo

A 6 quilômetros da superfície, a temperatura da rocha chega a aproximadamente 300 graus Celsius.

Para ter uma ideia, isso é quase o dobro da temperatura necessária para ferver água. É calor suficiente para gerar eletricidade sem queimar nenhum combustível.

Dos 6 quilômetros perfurados, 2,7 km foram através de rocha granítica — uma das mais duras do planeta.

A perfuração aconteceu na Bacia Denver-Julesburg, no condado de Weld, ao sul da cidade de Greeley, no Colorado. A região é conhecida por sua produção de petróleo e gás — ironia do destino para um projeto de energia limpa.

As operações começaram em abril de 2025, e ambos os poços foram concluídos em menos de seis semanas.

O plano original previa 60 dias por poço. A equipe da Oxy fez em menos da metade do tempo.

Broca cortando rocha granítica a 6 km

Por que uma empresa de petróleo está furando para buscar calor limpo

A resposta é simples: expertise.

A Oxy perfura poços profundos há décadas. Tem plataformas, equipes treinadas, cadeias de suprimento e conhecimento técnico que poucas empresas no mundo possuem.

Toda essa infraestrutura que a indústria do petróleo construiu ao longo de um século pode ser reutilizada — desta vez, para extrair energia limpa.

O investigador principal do projeto, Darien G. O’Brien, da Occidental Petroleum, coordena uma equipe que inclui parceiros de peso:

  • Los Alamos National Laboratory
  • National Renewable Energy Laboratory
  • Colorado School of Mines
  • Texas A&M University
  • Louisiana State University

O projeto usa tecnologias que a indústria de petróleo já domina, mas adaptadas para calor: ferramentas de fundo de poço de alta temperatura, sistemas de refrigeração e análise em tempo real baseada em nuvem.

A meta é aumentar a velocidade de perfuração em mais de 25% em relação aos métodos geotérmicos convencionais.

O dado que pode mudar tudo: geotermia em locais onde ninguém procurava

Tradicionalmente, energia geotérmica só é viável em regiões vulcânicas — Islândia, Nova Zelândia, oeste dos EUA.

O projeto GLADE quer mudar isso.

Se a Oxy provar que é possível extrair calor de bacias sedimentares — o mesmo tipo de formação rochosa onde se encontra petróleo — a energia geotérmica pode se tornar viável em locais que nunca foram considerados.

Isso “desbloquearia novas geografias” para a geotermia, segundo relatórios do Departamento de Energia. Bacias sedimentares existem em praticamente todos os continentes.

No Brasil, por exemplo, bacias como a do Paraná, do Parnaíba e de Santos poderiam teoricamente ser candidatas — se a tecnologia se provar economicamente viável.

Como a perfuração de petróleo é diferente da geotérmica — e por que a Oxy tem vantagem

A geotermia convencional depende de reservatórios naturais de água quente, geralmente a menos de 3 a 4 quilômetros de profundidade.

O GLADE vai além. Perfura até 6 km, onde a rocha é seca e quente. A ideia é injetar água por um poço, fazê-la circular pela rocha aquecida e extraí-la pelo outro poço — já transformada em vapor a 300°C.

É como usar a Terra como uma caldeira natural de energia infinita.

A velocidade da Oxy também impressiona. Enquanto poços geotérmicos profundos convencionais levam meses para serem perfurados, a equipe da Oxy completou um em 18 dias — aplicando técnicas de perfuração direcional que a indústria do petróleo aperfeiçoou ao longo de décadas.

Usina geotérmica com vapor

Uma usina piloto de 2,2 megawatts — e o que vem depois

Se os testes de circulação de fluido entre os dois poços forem bem-sucedidos, o próximo passo é construir uma usina piloto de 2,2 megawatts.

Não é muito — bastaria para abastecer uma pequena comunidade ou uma operação industrial. Para comparação, uma turbina eólica moderna gera entre 2 e 3 MW. Mas a diferença é que a geotermia funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano, sem depender de vento.

Mas o objetivo do GLADE não é gerar eletricidade em escala. É provar o conceito.

Se funcionar, a Oxy e outras petroleiras poderiam replicar o modelo em centenas de bacias sedimentares ao redor do mundo, usando infraestrutura que já existe.

A ironia é evidente: a mesma indústria que mais contribuiu para as mudanças climáticas pode ter a chave para uma fonte de energia limpa e infinita.

Corte geológico mostrando perfuração de 6 km

Porém, ainda é cedo para comemorar

O projeto GLADE é experimental. A Oxy não divulgou resultados técnicos detalhados. A análise dos dados está em andamento com parceiros acadêmicos e laboratórios federais.

A estimulação rochosa necessária para criar caminhos entre os poços envolve técnicas similares ao fraturamento hidráulico — o controverso fracking. Isso pode gerar oposição de comunidades locais e ambientalistas.

O custo real de produção de eletricidade geotérmica profunda ainda é desconhecido. A bolsa do DOE de US$ 9 milhões cobriu apenas a perfuração. A usina piloto, a infraestrutura de superfície e a operação contínua exigirão investimentos adicionais.

Porém, a velocidade de 18 dias para 6 km de perfuração é um marco. Se o custo cair o suficiente, a energia geotérmica profunda pode se tornar a próxima grande disrupção no setor energético.

A geotermia atende hoje menos de 1% da demanda global de eletricidade. A humanidade, como dizem os cientistas, “mal arranhou a superfície” do potencial que existe sob nossos pés.

Até lá, a pergunta permanece: será que o calor infinito da Terra vai finalmente substituir o petróleo que a Oxy perfurou durante um século?

Se uma empresa de petróleo provou que pode extrair calor limpo da Terra em 18 dias, o que impede as outras de fazer o mesmo — a tecnologia ou a vontade?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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