A marca que virou sinônimo de molho de soja no Brasil completa 85 anos faturando perto de R$ 400 milhões, com fábrica ampliada e uma patente de fermentação que ela quer levar ao mundo
O shoyu Sakura, presente em quase toda mesa e cozinha de restaurante do país, nasceu pequeno em uma vila da zona leste de São Paulo e hoje domina três de cada quatro frascos vendidos no Brasil. A marca chega aos 85 anos como líder absoluta de um mercado que ela mesma ajudou a criar.
O shoyu Sakura é fabricado pela Sakura Nakaya Alimentos, fundada em 1940 por um imigrante japonês na Vila Carrão. A empresa deve fechar 2025 com cerca de R$ 400 milhões de receita, detém 75% do mercado de shoyu no país e acaba de concluir uma ampliação de fábrica de US$ 31 milhões, mirando multiplicar suas exportações na próxima década.
De uma casa na Vila Carrão, em 1940
A história começa com a família Nakaya, que desembarcou no Brasil em 13 de maio de 1932. Oito anos depois, em 2 de outubro de 1940, Suekichi Nakaya fundou a empresa na Vila Carrão, na zona leste de São Paulo, no mesmo endereço onde a sede funciona até hoje.
-
Tarcísio coloca na mesa plano para ressuscitar ferrovia colossal com 223 km, ligar 13 cidades, transportar 32 mil passageiros e 600 contêineres por dia e criar trem turístico entre cidades em apenas 2h20.
-
Túnel de Água Negra vai rasgar os Andes com 14 km de travessia subterrânea a mais de 4 mil metros de altitude e pode mudar a rota de cargas entre Atlântico e Pacífico
-
Com quase dois séculos de história, empresa mais antiga em operação no Brasil aposta em escala 4×3, Wi-Fi subterrâneo e operação remota: “Somos uma startup de 192 anos”
-
Empresa da China chega ao Brasil para disputar com Mercado Pago, Stone, PagBank e promete revolucionar o mercado com manufatura local, tecnologia própria e soluções inteligentes para automação e pagamentos.
O que era uma produção artesanal de molho de soja foi se profissionalizando ao longo de décadas. Segundo a Times Brasil, parceira da CNBC, o comando passou para Renato Nakaya, filho do fundador, que assumiu em 1984 e hoje preside o conselho. A continuidade familiar é parte central da identidade da marca, e ajuda a explicar a consistência da empresa ao longo de quatro gerações de consumidores.
Como o shoyu Sakura chegou a 75% do mercado
O número que define o tamanho da empresa é a fatia de mercado. De acordo com a Times Brasil, o shoyu Sakura responde por 75% de todo o molho de soja vendido no Brasil, uma dominância rara no mercado de molho de soja e em qualquer categoria de alimento. Na prática, a marca virou sinônimo do próprio produto, como acontece com poucas no varejo nacional.
Essa liderança não se limita ao shoyu. A companhia é a maior produtora de molho de soja e de missô da América Latina, lidera o mercado de molhos líquidos e ainda é a maior fabricante de molho de pimenta do Brasil. Ser líder em várias categorias ao mesmo tempo é o que dá poder de negociação com o varejo, garantindo presença em prateleiras de norte a sul.
R$ 400 milhões e uma fábrica ampliada em Boituva
O fôlego financeiro acompanha o domínio de mercado. A empresa deve crescer cerca de 5% e fechar 2025 perto de R$ 400 milhões de receita, de acordo com reportagem do Mercado & Consumo, publicada às vésperas do aniversário de 85 anos.
Para sustentar o crescimento, a Sakura investiu US$ 31 milhões, cerca de R$ 170,5 milhões, na ampliação da fábrica de Boituva, no interior paulista. A obra, iniciada havia dois anos, foi concluída em dezembro de 2024 e adicionou capacidade para mais 200 mil litros de shoyu por mês. A nova unidade foi projetada para gastar menos água e eliminar o uso de combustíveis fósseis na produção.
Uma patente internacional de fermentação

O trunfo tecnológico da empresa atende pelo nome de Shoyu Kin. Lançado em 2020, o produto rendeu à companhia uma patente internacional ligada ao processo de fermentação, algo incomum para uma fabricante de alimentos da América Latina.
Esse detalhe importa porque fermentação é exatamente o que separa um molho de soja medíocre de um bom. Dominar e patentear um método próprio dá à marca um diferencial difícil de copiar e, principalmente, um argumento de venda no exterior, onde o shoyu de qualidade é valorizado e disputado por marcas asiáticas tradicionais.
Muito além do molho de soja
Quem associa a empresa apenas ao shoyu desconhece o tamanho do portfólio. Desde 1973, a companhia opera a marca Kenko, que reúne molhos para salada, conservas, ketchup e mostarda, ampliando a presença da empresa para muito além da cozinha asiática.
No total, o catálogo passa de 320 temperos e molhos diferentes, e a produção de missô sozinha chega a 60 toneladas por mês. Essa diversificação é o que protege o faturamento, porque dilui a dependência de um único produto e permite à marca ocupar várias prateleiras do mesmo supermercado.
50 mil garrafas e 350 mil sachês por dia

A escala industrial impressiona quando se olham os números diários. Ainda segundo a Times Brasil, só a matriz em São Paulo envasa cerca de 50 mil garrafas e 350 mil sachês por dia, um ritmo que exige uma cadeia de matéria-prima igualmente robusta.
Para alimentar essa produção, a fábrica consome aproximadamente 115 toneladas de soja e 60 toneladas de milho por mês. Tudo isso chega ao consumidor por uma malha de distribuição que cobre cerca de 620 mil pontos de venda no Brasil. É essa capilaridade que transforma liderança de mercado em presença real no dia a dia, do grande supermercado ao restaurante de bairro.
A meta de multiplicar as exportações
Com o mercado interno praticamente dominado, o próximo passo olha para fora. Hoje as exportações representam algo entre 7% e 9% do volume da empresa, com produtos chegando a cerca de 60 países. A meta declarada é ambiciosa: levar essa fatia para 30% do volume total em dez anos.
A exportação de alimentos vira, assim, a nova fronteira de uma marca que já não tem muito o que conquistar dentro de casa. No mercado interno, a expansão mira o Norte e o Nordeste, regiões onde a marca enxerga espaço para crescer. Sair de um quarto da produção exportada para quase um terço é a aposta de longo prazo, e é nesse movimento que a patente de fermentação e a nova capacidade de Boituva passam a fazer sentido estratégico.
O que explica a longevidade de 85 anos
Poucas empresas de alimentos no Brasil atravessam 85 anos sem perder a liderança, e o caso ajuda a entender por quê. A combinação de domínio absoluto de uma categoria, diversificação para dezenas de outras e investimento constante em capacidade e tecnologia formou uma barreira difícil de transpor para qualquer concorrente.
A gestão familiar contínua, somada à decisão de produzir em escala industrial sem abrir mão do processo de fermentação, deu à marca estabilidade rara. Crescer 5% ao ano sobre uma base de centenas de milhões não é explosão, é solidez, e é justamente essa previsibilidade que sustenta os planos de exportação.
Uma marca centenária em construção
O aniversário de 85 anos encontra a empresa em posição confortável, mas longe de acomodada. Com fábrica ampliada, patente registrada e uma meta agressiva de exportação, a companhia tenta repetir lá fora o domínio que construiu dentro de casa ao longo de quatro gerações.
A pergunta que fica é se o shoyu Sakura vai conseguir convencer o paladar estrangeiro com a mesma força que conquistou o brasileiro. Você imaginava que o molho de soja do seu armário viesse de uma fábrica que começou numa vila paulistana em 1940?
