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O que motiva as crianças a aprenderem e o que não funciona: estudo com mais de 200 mil alunos revela por que curiosidade supera recompensas e como notas, elogios e prêmios podem reduzir desempenho e criatividade.

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 26/03/2026 às 16:55
Atualizado em 27/03/2026 às 23:48
Meta-análise revela como curiosidade melhora desempenho escolar e como recompensas e notas podem prejudicar aprendizagem e criatividade.
Meta-análise revela como curiosidade melhora desempenho escolar e como recompensas e notas podem prejudicar aprendizagem e criatividade.
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Curiosidade natural impulsiona aprendizado, enquanto recompensas externas podem comprometer desempenho, criatividade e interesse ao longo do tempo, segundo ampla análise com centenas de estudos e milhares de estudantes.

O interesse genuíno pelo que se aprende continua sendo um dos fatores mais consistentes para explicar bom desempenho, persistência e criatividade entre estudantes.

Uma meta-análise com 344 amostras e 223.209 alunos concluiu que formas mais autônomas de motivação, especialmente a motivação intrínseca, se associam de forma positiva a indicadores de sucesso escolar e bem-estar, enquanto formas mais controladas tendem a se ligar a resultados menos favoráveis.

Motivação intrínseca e desempenho escolar

Essa diferença ajuda a entender um impasse frequente em casa e na escola.

De um lado, crianças pequenas costumam explorar o ambiente por impulso próprio, tentando descobrir como objetos, animais e situações funcionam.

De outro, à medida que avançam na escolarização, passam a conviver mais intensamente com notas, comparações, elogios e recompensas materiais, mecanismos que podem até organizar a rotina, mas nem sempre fortalecem o desejo de aprender.

Frédéric Guay, pesquisador da Universidade Laval e um dos autores que sistematizam esse campo de estudos, resume a lógica de forma direta ao afirmar que a motivação intrínseca surge cedo e que as crianças são “proativas e curiosas por natureza”.

Na mesma linha, ele defende que cabe à escola preservar esse impulso, em vez de substituí-lo por uma dependência crescente de incentivos externos.

Os dados reunidos pela literatura apontam que o prazer de estudar uma disciplina não é um detalhe periférico.

Quando estudantes se envolvem porque veem sentido ou satisfação na atividade, costumam apresentar melhores resultados acadêmicos e mais constância diante de tarefas difíceis.

Na meta-análise, a motivação intrínseca apareceu ligada ao sucesso estudantil e ao bem-estar, enquanto a motivação baseada em valor pessoal, chamada de regulação identificada, mostrou relação particularmente forte com persistência.

Leitura, engajamento e efeitos de longo prazo

Esse padrão também aparece em pesquisas específicas sobre leitura.

Um estudo longitudinal com estudantes na Alemanha encontrou efeitos recíprocos entre motivação intrínseca para ler e competência de leitura ao longo do tempo, indicando que uma dimensão pode reforçar a outra.

Em outras palavras, ler com interesse favorece o avanço em leitura, e melhorar nessa habilidade também tende a alimentar o gosto pela atividade.

Os efeitos do tipo de motivação ultrapassam a infância.

Em um estudo com mais de 10 mil cadetes de West Point, nos Estados Unidos, pesquisadores observaram que motivos internos para ingressar na academia se relacionavam a melhores desfechos de longo prazo, como permanência na carreira e promoções iniciais.

O trabalho também chamou atenção para um ponto menos intuitivo: combinar motivação interna com motivação fortemente instrumental não gerou vantagem adicional e, em alguns casos, esteve associado a piores resultados do que a motivação interna isolada.

Cultura de recompensas nas salas de aula

Ainda assim, a rotina escolar segue fortemente apoiada em recompensas.

Em um estudo com professores da educação infantil ao 5º ano, todos os docentes relataram usar algum tipo de recompensa em sala de aula, e 79% disseram recorrer semanalmente a recompensas tangíveis.

O levantamento mostrou que esses instrumentos apareciam sobretudo na gestão do comportamento, não apenas no acompanhamento da aprendizagem.

Essa presença disseminada não significa que toda recompensa produza o mesmo efeito, nem que deva ser descartada em qualquer circunstância.

Na prática escolar, elogios, combinados e reforços imediatos costumam ser utilizados para organizar a convivência e apoiar alunos com necessidades específicas de autorregulação.

O problema surge quando esse repertório vira o centro da experiência de aprender e passa a transmitir a mensagem de que estudar só vale a pena quando há prêmio, aprovação externa ou medo de punição.

Impacto das notas e do feedback no aprendizado

A distinção é decisiva porque o aprendizado de longo prazo depende menos de obediência momentânea e mais de vínculo com a atividade.

Pesquisas clássicas sobre avaliação já indicavam isso nos anos 1980.

Em experimentos com alunos do equivalente ao 5º e 6º ano, Ruth Butler e colegas verificaram que o interesse e o desempenho tendiam a ser mais altos quando os estudantes recebiam comentários qualitativos, sem nota numérica.

Notas isoladas, ou notas combinadas com comentários, tiveram efeito mais fraco e, em vários casos, prejudicaram interesse e performance.

Esse achado ajuda a explicar por que parte dos educadores tem questionado o peso das notas.

O argumento não é abolir toda forma de avaliação, mas reduzir o protagonismo de classificações numéricas que transformam cada tarefa em ranking.

Quando o estudante passa a se concentrar mais no resultado final do que no processo, a atenção pode migrar da compreensão para a simples obtenção de pontos.

Nessa mudança de foco, há espaço para queda de criatividade, aversão ao erro e retração diante de desafios mais complexos.

Quando a motivação extrínseca ainda tem espaço

Por outro lado, a pesquisa não sustenta a ideia de que toda motivação extrínseca seja automaticamente nociva.

A própria teoria da autodeterminação distingue formas mais controladas de formas mais internalizadas de engajamento.

Quando o aluno entende por que uma tarefa importa, mesmo sem considerá-la prazerosa, o desempenho pode continuar positivo.

Esse processo é diferente de agir apenas para evitar punição ou para colecionar recompensas.

Há também situações em que incentivos externos parecem produzir efeitos relevantes, sobretudo entre estudantes mais velhos e em contextos de acesso a oportunidades.

Um exemplo frequentemente citado é o programa de incentivo ao Advanced Placement no Texas.

O estudo identificou aumento de cerca de 4,2 pontos percentuais na frequência à universidade e ganhos salariais posteriores, com efeitos especialmente expressivos entre estudantes hispânicos.

Esses resultados, porém, não anulam a distinção central.

Incentivos podem ampliar participação em determinadas etapas, mas não substituem o trabalho pedagógico de sustentar autonomia, pertencimento e percepção de competência.

Outra meta-análise concluiu que o apoio à autonomia por parte de professores tem papel importante na satisfação das necessidades psicológicas dos alunos e no fortalecimento de formas mais autodeterminadas de motivação.

Estratégias para estimular o interesse pelo aprendizado

Na leitura, isso pode significar oferecer materiais compatíveis com o nível do estudante e reconhecer diferentes práticas de leitura, incluindo quadrinhos, revistas e textos curtos.

Em vez de restringir a identidade de leitor a quem consome apenas livros longos, amplia-se o acesso e o engajamento.

Em sala de aula, o princípio é semelhante.

Escutar o aluno, explicar a utilidade de uma atividade, validar dificuldades sem humilhação e fornecer retorno claro sobre o que precisa melhorar são estratégias apontadas pela literatura.

O ponto central revelado pelo conjunto das evidências é menos uma guerra entre recompensa e curiosidade do que uma hierarquia de efeitos.

Recompensas podem ter função localizada, sobretudo na gestão da rotina e em contextos específicos.

Mas, quando viram o motor principal, tendem a empobrecer a experiência escolar. Já a curiosidade, o senso de escolha e o entendimento do valor da tarefa aparecem de forma mais consistente como bases do aprendizado duradouro, da persistência e da criatividade.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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