O fechamento acelerado de agências bancárias no Brasil avançou após a pandemia e o Pix, ampliando o impacto sobre idosos, moradores de cidades pequenas e regiões onde o atendimento digital ainda não substitui o presencial
O Brasil perdeu 37% das agências bancárias em dez anos, reduzindo a rede para pouco mais de 14 mil unidades. A mudança acompanha o avanço do atendimento digital, o Pix e a estratégia dos bancos de cortar custos, mas já deixa 19,7 milhões de brasileiros sem agência no município onde vivem.
Fechamento de agências bancárias avançou e atingiu quase metade dos municípios
Desde 2015, 638 municípios brasileiros ficaram sem agência bancária. O movimento deixou 6,9 milhões de pessoas sem esse tipo de atendimento presencial em suas cidades, segundo cálculos do Dieese, com base em dados do Banco Central.
Atualmente, 2.649 municípios não têm agências bancárias. O número representa 48% do total de cidades do país. Há dez anos, essa proporção era de 36%, o que mostra a ampliação do vazio bancário em parte do território nacional.
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Em termos populacionais, a falta de agência no próprio município atinge hoje 9% dos brasileiros, ou 19,7 milhões de pessoas. Na década passada, esse grupo representava 3,4% da população.
O fechamento se intensificou após a pandemia e depois da chegada do Pix. No período, quase 6.000 agências tradicionais foram encerradas, enquanto os bancos ampliaram investimentos em atendimento remoto, aplicativos e unidades voltadas a serviços especializados.
Digitalização mudou a relação com os bancos, mas atendimento físico ainda é usado
A Febraban afirma que os bancos estão adequando suas estruturas ao novo perfil do consumidor, em um mercado no qual os canais digitais se tornaram os preferidos. A entidade diz que, atualmente, praticamente todas as operações bancárias podem ser feitas eletronicamente.
Mesmo assim, os dados mostram que o atendimento físico ainda tem papel relevante. Em 2024, 27% dos pagamentos de contas, 14% das contratações de investimento e 5% das transações foram feitos por canais físicos, segundo levantamento da Deloitte em parceria com a Febraban.
Há ainda serviços que cresceram nas agências em relação ao ano anterior. A contratação de crédito subiu 11%, chegando a 45 milhões de operações. A contratação de seguros avançou 6%, para 55,5 milhões.
A Deloitte aponta que a procura presencial está ligada à complexidade de alguns produtos. Para parte dos clientes, esclarecer dúvidas, receber orientação clara e manter relação próxima com um especialista ainda são fatores importantes.
O medo de golpes e fraudes, principalmente em operações de maior valor, também pesa. A dificuldade com aplicativos, internet e serviços digitais aparece como obstáculo para idosos e pessoas com menor acesso à tecnologia.

Idosos, cidades pequenas e áreas periféricas sentem mais o impacto
Para Edilson Julian, presidente do Sindicato dos Bancários de Marília e Região, os fechamentos afetam funcionários e moradores. Ele afirma que a tendência digital existe, mas que é preciso garantir atendimento a quem ainda não tem afinidade com tecnologia.
Na região de Marília, no interior de São Paulo, a redução foi expressiva. A cidade chegou a ter 50 unidades e hoje conta com 20. No início de cada mês, segundo o sindicato, há filas antes da abertura das agências.
A entidade cita o caso de Oscar Bressane, município rural de São Paulo com 2.470 habitantes, que ficou sem ponto de atendimento físico. Moradores precisam viajar cerca de 40 km até Marília para encontrar um banco.
No Ceará, o fechamento também ganhou velocidade. Desde 2022, foram encerrados 117 locais, segundo o Sindicato dos Bancários do estado. Apenas em 2025, foram 62 fechamentos.
José Eduardo Rodrigues, presidente do sindicato cearense, afirma que parte da população não enfrenta apenas dificuldade com aplicativos. Há moradores que também não têm pacote de dados de internet suficiente para fazer transações pelo celular.
Rosângela Vieira, economista do Dieese que atua no Sindicato dos Bancários de São Paulo, avalia que a política de fechamento de agências atinge sobretudo a população idosa e periférica. Para ela, isso amplia dificuldades de acesso ao crédito e pode aumentar a exposição a golpes digitais.

Bancos reduzem custos e apostam em modelos mais especializados
A redução da rede física também está ligada ao custo de manter agências. Aluguel, segurança, funcionários, transporte de dinheiro e manutenção pesam nas contas, especialmente quando a maior parte das operações migra para canais digitais.
Em 2024, 75% das transações bancárias foram feitas pelo celular. Para os bancos, essa mudança reforça a estratégia de concentrar serviços cotidianos no aplicativo e reservar parte da estrutura física para atendimento consultivo e negócios mais rentáveis.
Marcelo Noronha, CEO do Bradesco, disse à Folha que transportar dinheiro custa caro e que receitas ligadas a conta-corrente e anuidade de cartão caíram. Segundo ele, é difícil uma agência ser rentável em cidades com menos de 20 mil habitantes.
O Bradesco tem realocado e recapacitado gerentes de unidades fechadas para atendimento remoto. O banco também transforma pontos estratégicos em unidades do Principal, linha voltada à alta renda, com atendimento parecido com butique de investimentos.
No Santander, funcionários que atendem pequenas empresas passaram a visitar clientes fora das agências. O banco mantém 17 unidades WorkCafé, modelo que mistura coworking, cafeteria e escritório de investimento.
O Banco do Brasil aposta no .BB, chamado Ponto BB. A unidade Marco Zero, no Recife, foi transformada em 2024, com robô recepcionista, tablets, atendentes presenciais e online, caixas eletrônicos, loja e área para eventos. O banco mantém 3.955 agências físicas.
O Itaú Unibanco inaugurou neste ano o Espaço Uniclass, na avenida Paulista, em São Paulo, com atendimento especializado, orientação financeira, eventos, loja e café. Os serviços bancários funcionam até 19h, além de abertura da loja em fins de semana e feriados.
A Caixa teve a menor redução entre os grandes bancos. Desde 2019, sua rede de atendimento caiu 5%. Com programas governamentais de baixa renda e financiamento imobiliário, a instituição afirma manter atendimento presencial onde ele é essencial.
Imóveis vazios viram novo problema para cidades
O fechamento das agências também afeta o mercado imobiliário urbano. Muitos imóveis bancários são grandes, têm baixa demanda e podem ficar fechados por meses ou anos, sujeitos a vandalismo e invasões.
Em Santos, um dos municípios que mais perdeu postos em 2025, foram 14 fechamentos. Adriano Leocadio, secretário de Finanças e Gestão, afirma que há agências com mais de 1.000 metros quadrados desativadas, especialmente no centro histórico.
São José do Rio Preto perdeu 11 agências no ano passado. A prefeitura trabalha em um plano de revitalização do centro, com isenção de IPTU e ITBI para proprietários que reformarem e derem destino a imóveis fechados ou abandonados.
Esta matéria foi elaborada com base em informações da Folha de S.Paulo, Dieese, Banco Central, Febraban, Deloitte, sindicatos dos bancários, bancos citados e gestores municipais mencionados no material fornecido, com dados, números e declarações preservados conforme o material consultado.


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