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O pedaço da Amazônia onde se fala japonês: a história pouco conhecida da colônia que transformou a floresta no interior do Pará

Foto de perfil do autor Felipe Alves da Silva
Escrito por Felipe Alves da Silva Publicado em 04/01/2026 às 19:28 Atualizado em 04/01/2026 às 19:29
Assista o vídeoAgrofloresta sustentável criada por imigrantes japoneses em Tomé-Açu, no interior do Pará
Sistema agroflorestal criado por imigrantes japoneses transformou áreas degradadas em floresta produtiva em Tomé-Açu, no Pará
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Comunidade formada por imigrantes asiáticos criou um modelo agrícola único, capaz de regenerar áreas degradadas, produzir alimentos o ano inteiro e desafiar a lógica histórica do desmatamento na região amazônica

Quando se fala em imigração japonesa no Brasil, a imagem mais comum costuma ser São Paulo, o bairro da Liberdade e os grandes centros urbanos do Sudeste. No entanto, longe desse imaginário coletivo, existe um pedaço da Amazônia onde o idioma japonês ainda ecoa, tradições foram preservadas e a relação com a floresta ganhou um significado completamente diferente. Esse lugar é Tomé-Açu, no interior do Pará, onde uma colônia japonesa fincou raízes profundas desde o início do século XX.

A história começa em 22 de setembro de 1929, quando as primeiras famílias japonesas chegaram à região. Entre elas estava Hajime Yamada, que desembarcou ainda bebê, com apenas dois anos de idade, em um cenário dominado por mata fechada. “Era mata. E me criei no meio da mata praticamente”, relembra. A ideia inicial desses imigrantes era simples: permanecer alguns anos, juntar dinheiro e retornar ao Japão. Contudo, para muitos, esse retorno jamais aconteceu.

Hajime Yamada – Imagem: Divulgação

Da floresta derrubada ao reflorestamento produtivo: o nascimento de um sistema agrícola revolucionário

Naquele período, o Japão enfrentava uma severa recessão econômica. Pequeno em território e com poucas perspectivas de acesso à terra, o país incentivou a migração. Cerca de 160 mil japoneses vieram para o Brasil na maior onda migratória da história japonesa, e parte deles foi direcionada à Amazônia para impulsionar o desenvolvimento agrícola. Cada família recebeu 25 hectares para cultivo de arroz, feijão, verduras, fumo e cacau.

O primeiro impacto foi inevitável. Ao chegarem, os imigrantes encontraram uma vegetação densa, árvores de grande porte e uma floresta praticamente intacta. Assim, repetindo o modelo agrícola da época, realizaram o corte e a derrubada da mata para abrir espaço às lavouras e às casas, muitas delas construídas com técnicas tradicionais japonesas de encaixe de madeira, sem o uso de pregos ou parafusos.

Décadas depois, essa mesma comunidade reconheceria os efeitos negativos desse processo. “Com um palito de fósforo incendiamos toda a floresta”, admite Michinori Konagano, agricultor nascido no Japão e criado no Pará. A degradação do solo e o esgotamento das lavouras se tornaram evidentes, especialmente após o colapso do cultivo de pimenta-do-reino, que havia garantido prosperidade à região a partir dos anos 1960.

O ciclo da pimenta chegou ao fim na década de 1970, quando a fusariose, uma praga devastadora, dizimou as plantações. Sem renda e sem alternativas imediatas, os agricultores precisaram se reinventar. Foi nesse momento que surgiu uma ruptura histórica: em vez de continuar combatendo a floresta, eles decidiram aprender com ela.

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Técnicas milenares, saber ribeirinho e o futuro sustentável da Amazônia

A virada começou com a observação da natureza e dos ribeirinhos locais. Inspirados pela diversidade da floresta e por conceitos herdados da cultura japonesa, como o “mottainai”, que significa não desperdiçar nada, os agricultores passaram a desenvolver um sistema agroflorestal baseado na convivência entre espécies.

Nesse modelo, não existem plantas daninhas. Todas cumprem uma função ecológica. Agrotóxicos e fertilizantes químicos são completamente descartados. Até os insetos são vistos como aliados. “Todo inseto tem uma função, inclusive na polinização”, explica Michinori. Cascas de cacau, por exemplo, retornam ao solo como adubo natural, fechando o ciclo produtivo.

Hoje, a propriedade de Michinori soma 230 hectares cultivados, integrando cacau, açaí, pimenta-do-reino e diversas espécies florestais, com produção contínua ao longo dos 12 meses do ano. Em apenas 15 anos, áreas antes degradadas por pastagens abandonadas recuperaram o aspecto de floresta fechada. O retorno da fauna é visível: preguiças, raposas, tatus, pacas, gambás, gaviões e corujas voltaram a habitar o local. A caça é proibida e a preservação é regra.

O cacau se tornou o carro-chefe dessa nova fase. Após passar por processos controlados de fermentação e secagem, parte significativa da produção, classificada como qualidade tipo 1, é exportada para o Japão por meio de cooperativas e abastece empresas chocolateiras. A informação foi divulgada em reportagem especial exibida pela TV Globo, com base em entrevistas, registros históricos e relatos diretos dos agricultores da região.

Mais do que recuperar a vegetação, o sistema agroflorestal transformou Tomé-Açu em referência internacional de produção sustentável. Agricultores de diferentes partes do Brasil e de outros países visitam a região para aprender o método. “Precisamos alimentar a população. Por que não compartilhar esse conhecimento?”, resume Michinori, que se define mais brasileiro do que japonês, apesar dos traços orientais.

No fim das contas, o pedaço da Amazônia onde se fala japonês mostra que o futuro da floresta pode estar justamente na reconciliação entre culturas ancestrais, conhecimento tradicional e respeito aos ciclos da natureza.

Será que o futuro da Amazônia passa justamente por resgatar saberes antigos, unir culturas diferentes e aprender com a própria floresta em vez de continuar tentando dominá-la?

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Diones racinghelmets
Diones racinghelmets
06/01/2026 10:31

Porisso os militares na época tinham um lema.” Ocupar para não entregar ” porisso alem de não permitir ONGs se instalar ali. Eles criaram a zona franca de Manaus deram incentivo para indústrias se instalarem lá. Uma pena não terem aproveitado e deixar uma ferrovia e uma estrada decente concluídas para facilitar o transporte isso teria sido possível na época pq a Amazônia ainda não havia sido invadida por ONGs internacionais. Que atuam para atrapalhar o progresso e o desenvolvimento local. Ainda bem que essa comunidade nipônica ja estão lá há muito tempo pq se fosse hoje as ONGs internacionais não deixariam eles se instalarem ali.

Joaci
Joaci
05/01/2026 17:44

**** com o pé de cacau 😂😂😂😂😂😂😂 Só faltou o cajueiro com o talo na castanha 🤣🤣

Fábio
Fábio
05/01/2026 15:15

Amazônia com japoneses, chineses, franceses , noruegueses, alemães, … não demora muito e o Tramp pega pra ele!!!
Com esses governinhos da América Latrina, tudo vai ser americano em breve kkk

Joaci
Joaci
Em resposta a  Fábio
05/01/2026 22:07

Já é AMÉRICA amigo!Wake UP!

Fonte
Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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