Uma formação geológica de grandes dimensões revelou, no sul da China, um ambiente preservado e de difícil acesso, com vegetação densa no fundo de uma dolina que passou a atrair atenção internacional e interesse científico.
No sul da China, uma expedição científica realizada em 2022 encontrou, no fundo de uma grande dolina, um ambiente com vegetação densa e árvores que chegam perto de 40 metros de altura.
A estrutura fica no condado de Leye, na região autônoma de Guangxi, e tem 192 metros de profundidade, 306 metros de comprimento e 150 metros de largura.
No interior, os pesquisadores identificaram uma floresta preservada e apontaram a possibilidade de haver espécies ainda não catalogadas, embora esse ponto dependa de estudos posteriores.
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A descoberta ganhou repercussão internacional por reunir, no mesmo local, uma formação geológica de grandes dimensões e um ecossistema isolado por condições naturais específicas.
Segundo a agência estatal Xinhua, a equipe encontrou três grandes aberturas nas paredes da dolina, interpretadas como vestígios de etapas anteriores da evolução da estrutura.
Já no fundo, a mata fechada e a altura das árvores chamaram a atenção dos exploradores, que precisaram descer por cordas e caminhar por horas até alcançar a base do buraco.
Formação geológica em Guangxi e origem da dolina
A dolina localizada em Leye é resultado de processos típicos de áreas cársticas, onde a água infiltra no terreno e dissolve lentamente rochas solúveis, sobretudo calcário.
Com o passar do tempo, cavidades subterrâneas aumentam de tamanho até que o teto ceda, abrindo grandes depressões na superfície.

Em escala monumental, essas estruturas são conhecidas na China como tiankeng, expressão muitas vezes traduzida como “poço celestial”.
Guangxi concentra algumas das paisagens cársticas mais conhecidas do planeta.
A própria UNESCO descreve o Geoparque Global Leye-Fengshan como um território marcado por dolinas, cânions cársticos, rios subterrâneos, nascentes e extensos sistemas de cavernas.
Nesse contexto geológico, a região registra alta concentração desse tipo de formação.
No caso de Leye, a descoberta anunciada em maio de 2022 elevou para 30 o número de grandes dolinas identificadas na área, segundo a Xinhua.
O que havia no fundo do buraco na China
O dado central da expedição foi a presença de uma floresta preservada no interior da dolina.
De acordo com o relato divulgado após a exploração, as árvores mais altas se aproximavam de 40 metros, enquanto a vegetação de sub-bosque chegava à altura dos ombros dos integrantes da equipe.
No lugar de um espaço predominantemente rochoso, o grupo encontrou um ambiente úmido, sombreado e com cobertura vegetal contínua.
Esse cenário está associado a condições ambientais específicas.
Em formações desse tipo, as paredes íngremes, a menor incidência direta de vento e a retenção de umidade criam um microambiente mais estável do que o observado do lado de fora.
Em artigo publicado pelo Correio da UNESCO e atualizado em janeiro de 2025, o pesquisador Tang Jianmin descreve os tiankengs como ambientes relativamente fechados, de alta umidade e temperatura mais baixa, conectados ao fluxo subterrâneo de água.
Segundo ele, esse conjunto favorece a manutenção de áreas verdes ao longo do ano e contribui para preservar recursos biológicos singulares.
Embora manchetes sobre o caso tenham usado expressões como “mundo perdido” ou “floresta intocada”, o que as fontes consultadas sustentam com segurança é que a área apresentava um estado de preservação incomum e sem sinais aparentes de atividade humana recente.
Essa característica já é suficiente para tornar o local relevante para pesquisadores.
Qualquer afirmação sobre isolamento absoluto ao longo de toda a história do ambiente extrapola o que foi efetivamente informado pelas fontes disponíveis.
Por que a descoberta interessa à ciência
O interesse científico está ligado ao potencial desses ambientes para a pesquisa.
Áreas como essa podem funcionar como refúgios ecológicos, nos quais espécies vegetais, animais e microrganismos persistem sob condições diferentes das observadas na superfície ao redor.
O texto da UNESCO afirma que os tiankengs servem como santuários subterrâneos para formas de vida únicas e cita levantamentos botânicos que encontraram plantas raras, endêmicas e ameaçadas em áreas desse tipo na China.
A publicação também destaca que esses locais podem atuar como bancos naturais de germoplasma e de biodiversidade.
No caso específico da dolina de Leye, os exploradores afirmaram que o local pode abrigar espécies ainda desconhecidas pela ciência.
A confirmação, porém, exige coleta, descrição taxonômica e validação por especialistas.
Até o momento, as fontes localizadas registram a possibilidade de espécies não catalogadas, e não a comprovação de que elas já tenham sido oficialmente descritas a partir dessa expedição.
Esse cuidado é necessário porque descobertas desse tipo costumam gerar interpretações ampliadas antes da conclusão dos estudos.

Ainda assim, a relevância da área já aparece nos dados disponíveis.
O fato de a dolina guardar uma floresta preservada, com estrutura vegetal complexa e acesso difícil, faz do local uma área estratégica para estudos de botânica, conservação e dinâmica de ecossistemas em terrenos cársticos.
Além disso, a própria UNESCO alerta que esses ambientes são vulneráveis quando passam a sofrer pressão turística ou outras formas de intervenção humana.
Dolinas, biodiversidade e pesquisa em áreas cársticas
A descoberta em Guangxi também reforçou uma linha de pesquisa já presente nos estudos geológicos: grandes dolinas podem abrigar ecossistemas pouco estudados.
O artigo do Correio da UNESCO informa que cerca de 300 tiankengs já foram identificados no mundo e que a China concentra aproximadamente dois terços deles.
Por isso, o país ocupa posição central nas pesquisas sobre esse tipo de relevo, tanto pela quantidade de formações quanto pela diversidade biológica associada a elas.
No Geoparque Leye-Fengshan, a escala do fenômeno aparece em diferentes estruturas mapeadas na região.
A UNESCO cita 35 dolinas colapsadas no agrupamento de Dashiwei, incluindo uma com mais de 600 metros de largura e 613 metros de profundidade.
Dentro desse cenário, a dolina descoberta em 2022 não é a maior da área, mas passou a ser uma das mais citadas por expor com clareza a relação entre relevo, isolamento ambiental e conservação biológica.
O caso de Guangxi mostra que áreas subterrâneas ou semissubterrâneas ainda podem guardar fragmentos relevantes da biodiversidade, inclusive em regiões já conhecidas pela ciência.
Em um cenário de pressão crescente sobre habitats naturais, a existência desses refúgios amplia o interesse por pesquisa e preservação.


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