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O Hubble flagrou sobre o polo sul de Saturno uma onda de dez lados em que um único lado já passa de 16.700 quilômetros e que caminha para o leste quase cinquenta vezes mais devagar que o vento que a sustenta

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Escrito por Douglas Avila Publicado em 03/09/2026 às 15:41 Atualizado em 03/09/2026 às 15:45
Vista do polo sul de Saturno em falsa cor
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O telescópio espacial Hubble encontrou sobre o polo sul de Saturno uma onda atmosférica com dez lados retos, um decágono cujo lado sozinho já supera 16.700 quilômetros, e o mais estranho é que a figura caminha quase cinquenta vezes mais devagar do que o vento que a desenha.

O resultado foi publicado nesta quarta-feira na revista Science Advances e nasceu do cruzamento de imagens do Hubble com observações feitas por telescópios instalados aqui na Terra. Conforme o trabalho, a estrutura ocupa a faixa entre 58 e 63 graus de latitude sul e desenha, nas nuvens altas do planeta, uma figura de dez lados com vértices bem marcados.

Além disso, a escala impressiona por si só. Um único lado do decágono mede mais de 16.700 quilômetros, ou seja, mais que o diâmetro inteiro da Terra, que tem cerca de 12.700. A figura completa envolve a região polar como uma moldura de dez faces que ninguém desenhou e que, ainda assim, se mantém.

Vórtice polar de Saturno em cores realçadas
Vórtice polar de Saturno em cores realçadas

Uma figura que anda devagar demais para o vento que a faz

No entanto, o ponto que deixou os pesquisadores intrigados não é a forma, e sim o descompasso. Segundo o artigo, o decágono migra para o leste a apenas 2,5 metros por segundo. Na mesma faixa de latitude, a 60,5 graus sul, o jato de vento que sustenta a estrutura corre a 116 metros por segundo. São quase cinquenta vezes mais rápido. É como se um desenho feito na superfície de um rio corrente ficasse praticamente parado enquanto a água passa por baixo dele em disparada.

Ou seja, a figura mal se move. Os vértices, por outro lado, não ficam quietos. De acordo com as medições, eles oscilam em ciclos de 32 dias, com amplitudes que variam de 4,6 a 8,4 graus de longitude. Isso significa que a figura respira: estica e encolhe as pontas ao longo de pouco mais de um mês, sem se desfazer.

Saturno com anéis e a região polar visível
Saturno com anéis e a região polar visível

Saturno já tinha um hexágono, e ele é bem diferente deste decágono

Quem acompanha astronomia, por exemplo, provavelmente lembra do hexágono. As sondas Voyager fotografaram, nos anos 1980, uma figura de seis lados em torno do polo norte de Saturno, e ela virou uma das imagens mais reproduzidas da exploração planetária. Saturno segue sendo o único planeta conhecido que produz esse tipo de coisa: polígonos de verdade, com lados retos, feitos apenas de vento e nuvem.

Contudo, a diferença entre os dois está justamente no comportamento. O hexágono do norte é praticamente estacionário, fica ancorado no lugar década após década. O decágono do sul migra e se deforma, o que o torna, na avaliação dos autores, uma estrutura maior e mais instável que a irmã do outro hemisfério. Ambos se apoiam em correntes de jato, mas reagem a elas de maneiras opostas.

Vale lembrar, ademais, por que o polo sul demorou tanto a entregar algo assim. Saturno leva cerca de 29 anos terrestres para dar uma volta em torno do Sol, o que significa que cada estação do planeta dura mais de sete anos. Assim, durante boa parte desse ciclo, um dos polos fica inclinado para longe da Terra e simplesmente não pode ser observado com o detalhe necessário. Enxergar o sul com nitidez é uma janela que abre e fecha em escala de década, e é por isso que o hexágono do norte foi documentado primeiro e por tanto tempo.

Imagem em preto e branco do vórtice polar
Imagem em preto e branco do vórtice polar

Por que uma nuvem faz esquina

Recentemente, portanto, a pergunta que voltou à mesa é simples de formular e difícil de responder: por que uma atmosfera formaria ângulos? Fluido, em princípio, faz curva. A explicação que os cientistas vêm construindo para o hexágono envolve ondas que se encaixam num jato circular, criando pontos fixos onde a corrente se dobra em vez de fluir suave. Cada dobra vira um vértice, e o número de vértices depende de quanto a onda cabe na volta completa do planeta.

Se essa lógica valer também para o sul, o decágono ter dez lados em vez de seis diz alguma coisa sobre a velocidade e a largura do jato daquele hemisfério. Foi por isso que a diferença entre os 2,5 metros por segundo da figura e os 116 do vento virou o dado central do artigo: é aí que está a chave para entender qual mecanismo prende a onda no lugar.

Há ainda, isto é, um detalhe que ajuda a dimensionar o problema. Saturno não tem superfície sólida por baixo dessas nuvens, nem continente, nem cadeia de montanhas. Na Terra, de acordo com o que se sabe, boa parte do que organiza os grandes padrões de vento vem do relevo e do contraste entre oceano e terra firme. Lá não existe nada disso. Toda a geometria que aparece no topo da atmosfera precisa ser explicada apenas pela interação entre camadas de gás girando em velocidades diferentes, o que torna a existência de um polígono estável um problema de física de fluidos mais puro, e mais difícil.

Entender isso, no entanto, não interessa só a quem estuda Saturno. Correntes de jato existem também na atmosfera da Terra, e são elas que empurram sistemas de tempo pelo hemisfério e definem, na prática, se uma frente fria chega ou não chega. Estudar uma versão extrema e sem relevo do mesmo fenômeno, num planeta onde o jato corre a mais de cem metros por segundo, funciona como laboratório natural. É o tipo de comparação que ajuda a testar modelos que, aqui embaixo, a gente usa para prever chuva.

Olhando assim, é difícil não achar curioso que o objeto mais fotografado do sistema solar ainda esteja produzindo geometria nova depois de décadas de observação. Não foi preciso mandar uma sonda nova até lá. Bastou continuar apontando o Hubble para o mesmo planeta e comparar com o que os telescópios de solo viam, ano após ano, até a figura aparecer.

Por isso, o trabalho não fecha a questão, e os próprios autores tratam o decágono como algo em evolução, não como um retrato definitivo. A estrutura mudou desde 2025, quando as primeiras imagens que a revelaram foram obtidas, e deve continuar mudando. O acompanhamento nos próximos anos é o que vai dizer se ela se estabiliza como o hexágono ou se desmancha. Fico imaginando o que mais ainda está lá, escondido numa latitude que a gente só consegue olhar de tempos em tempos, e que ninguém aqui embaixo teve paciência de esperar para ver.

Fico imaginando quantas outras figuras assim já passaram despercebidas em latitudes que a gente só consegue observar de tempos em tempos. Queria saber o que você acha de um planeta que insiste em desenhar geometria com vento.

Você imaginava que uma atmosfera de gás pudesse formar dez cantos retos e ainda assim continuar girando?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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