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Falcon Heavy decola com o telescópio que enxerga 100 vezes mais céu que o Hubble e um parque temático da Serra gaúcha transmite o lançamento ao vivo para o Brasil

Imagem de perfil do autor Douglas Avila
Escrito por Douglas Avila Publicado em 30/08/2026 às 14:03 Atualizado em 30/08/2026 às 14:28
Foguete Falcon Heavy decola de uma plataforma de lançamento envolto em chamas e fumaça
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O telescópio Nancy Grace Roman deixou a Terra na manhã deste domingo a bordo de um foguete Falcon Heavy e começou uma viagem de três meses até o ponto onde vai abrir, sobre o céu, um campo de visão ao menos cem vezes maior do que aquele que o Hubble enxerga hoje.

A decolagem aconteceu às 7h26 no horário do leste dos Estados Unidos, a partir do Launch Complex 39A, no Centro Espacial Kennedy, na Flórida. Segundo a NASA, o observatório se separou do foguete 31 minutos depois do início do voo, já fora da atmosfera e a caminho da própria órbita.

Antes disso, aos sete minutos de voo, a equipe de controle no Goddard Space Flight Center, em Greenbelt, Maryland, começou a receber os primeiros dados de telemetria do telescópio. É o momento em que uma missão deixa de ser promessa e passa a ser um objeto que responde. Os propulsores laterais do Falcon Heavy, por sua vez, voltaram em segurança ao próprio sítio de lançamento para recondicionamento.

O que significa enxergar cem vezes mais céu de uma vez

A comparação com o Hubble costuma ser mal entendida, e vale desfazer o mal-entendido. O telescópio Nancy Grace Roman não promete enxergar mais longe nem com mais detalhe do que o observatório mais famoso da NASA. Ele promete enxergar muito mais céu de uma só vez, com qualidade equivalente. Conforme a agência, o campo de visão é ao menos cem vezes maior.

A diferença prática é de natureza estatística. Um instrumento que fotografa um pedaço minúsculo do céu por vez precisa de décadas para cobrir uma área grande. Outro que cobre cem vezes mais área na mesma exposição transforma o mesmo tempo de observação em um levantamento populacional.

Por isso a NASA descreve a missão pelo volume, e não pela nitidez. Ao longo da vida útil, o Roman deve medir a luz de cerca de um bilhão de galáxias. É um número que muda a pergunta que se pode fazer ao céu.

Foguete transportado sobre a plataforma móvel diante do prédio de montagem da NASA

Esse número não é vaidade de catálogo. Energia escura, o principal alvo científico da missão, não aparece em um objeto isolado. Ela se manifesta como um desvio sutil no jeito como o universo se expandiu ao longo do tempo, e esse desvio só fica visível quando se comparam distâncias e formatos de um número enorme de galáxias. Uma amostra pequena não separa o sinal do ruído. Um bilhão, sim.

Planetas fora do Sistema Solar e um censo que ainda não existe

O segundo alvo é mais concreto e mais fácil de imaginar. De acordo com a NASA, o telescópio foi projetado para bloquear a luz da estrela e observar diretamente planetas que orbitam outros sóis, em vez de apenas inferir a existência deles pela sombra que projetam ao passar na frente do disco estelar.

Além disso, a missão pretende realizar um censo estatístico de sistemas planetários na nossa galáxia. Repare na palavra censo. Não se trata de encontrar um planeta interessante e escrever um artigo sobre ele, e sim de responder quantos existem, de que tipos e a que distâncias das suas estrelas. É a diferença entre conhecer alguns moradores e ter o recenseamento do bairro inteiro.

Técnicos observam o telescópio espacial antes do encapsulamento na coifa do foguete

Para chegar lá, o observatório ainda tem estrada pela frente. Segundo a agência, são três meses de viagem e cerca de um milhão de milhas até a órbita definitiva.

Durante esse período, os instrumentos passam por resfriamento e calibração. É só depois disso que as primeiras imagens científicas começam a aparecer. Ou seja, o lançamento bem-sucedido de hoje é o começo da missão, não o resultado dela. Quem esperar fotos espetaculares ainda nesta semana vai esperar sentado.

Essa distância entre o foguete e a ciência costuma ser a parte menos contada dessas histórias. O dia da decolagem concentra as câmeras, mas o trabalho que justifica o investimento acontece meses depois, longe do noticiário, em salas de calibração onde ninguém filma nada.

Um parque na Serra gaúcha transmitiu a decolagem ao vivo

Enquanto o foguete subia na Flórida, um detalhe brasileiro deu à manhã um contorno menos distante. Conforme o G1 Rio Grande do Sul, um parque temático dedicado ao espaço, na Serra gaúcha, transmitiu o lançamento ao vivo para o público que estava lá. É difícil não ver graça na cena: um telescópio que vai catalogar um bilhão de galáxias sendo acompanhado por gente sentada em um parque no interior do Brasil, na mesma hora, pela mesma tela.

Esse tipo de transmissão costuma ser tratado como curiosidade regional, e acho que é um erro. Missões científicas de grande porte vivem de orçamento público, e orçamento público sobrevive de interesse público. Um parque cheio numa manhã de domingo para ver um foguete decolar faz mais pela próxima década de astronomia do que muita reunião fechada.

Foguete Falcon Heavy posicionado na torre de lançamento antes da decolagem

Vale também registrar o que ainda não está confirmado. Dados como o diâmetro exato do espelho, o custo total do programa e a resolução final da câmera não constam nos materiais oficiais divulgados até o momento do lançamento, e por isso não entram aqui como fato. O que está confirmado pela NASA é o essencial: o foguete cumpriu o perfil de voo, a separação ocorreu no tempo previsto, a telemetria chegou e o telescópio está a caminho.

Fico imaginando o tamanho do arquivo que essa missão vai deixar. Um bilhão de galáxias medidas significa um acervo que vai continuar sendo consultado muito depois de o instrumento parar de funcionar, por gente que hoje ainda está na escola. Telescópios têm essa qualidade estranha de entregar o principal resultado bem depois do dia em que aparecem no noticiário.

Com um bilhão de galáxias pela frente, o que você acha que o Roman deveria responder primeiro sobre o universo?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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