O cultivo de robalo avança no Brasil com viveiros controlados, manejo diário e crescimento acelerado, revelando uma rotina intensa da nova maricultura nacional.
O Brasil está assistindo ao nascimento de uma nova fronteira da aquicultura e ela não vem dos rios ou dos tanques-rede já conhecidos pelo público. Enquanto tilápia e camarão comandam o mapa produtivo, o robalo, um peixe tradicionalmente associado à pesca esportiva e ao litoral, vem ganhando espaço em estruturas controladas, laboratórios de pesquisa, unidades de engorda e viveiros costeiros discretos que começam a operar como núcleos de uma futura cadeia de produção marinha.
É um movimento silencioso, mas tecnicamente robusto. Nas últimas duas décadas, universidades, laboratórios e centros de pesquisa — especialmente no Nordeste e no Sudeste — vêm desenvolvendo protocolos de reprodução, larvicultura, alimentação e engorda do robalo que antes eram considerados inviáveis. Hoje, esses estudos já se traduzem em cultivos reais, abastecidos por sistemas de recirculação de água, viveiros salinos e estruturas de criação que funcionam diariamente com disciplina industrial.
A lógica é simples: transformar um peixe nobre e valorizado comercialmente em uma produção estável, previsível e escalável, exatamente como ocorreu com o camarão e com a tilápia. Mas, na prática, isso exige um nível de atenção que poucos imaginam.
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A rotina invisível dos viveiros marinhos que sustentam o robalo
A criação de robalo depende de ambientes rigorosamente controlados. O processo começa na larvicultura, onde os alevinos passam por etapas sensíveis de alimentação, iluminação e salinidade. É a fase mais delicada e a que demanda maior precisão técnica.
Pequenas variações no ambiente podem comprometer a sobrevivência, por isso laboratórios utilizam tanques climatizados, água filtrada e rotinas de inspeção várias vezes ao dia.
Quando os juvenis estão prontos, seguem para viveiros salinos, tanques circulares ou estruturas de recirculação onde o manejo assume ritmo constante:
- Controle rigoroso de salinidade e temperatura;
- Monitoramento de oxigênio dissolvido;
- Alimentação calculada para ganho de peso e conversão eficiente;
- Verificação de comportamento, apetite e movimentação;
- Limpeza contínua para evitar desequilíbrios na água.
É um trabalho silencioso que funciona como engrenagem: operadores entram cedo, fazem a checagem da qualidade da água, ajustam bombas, conferem ração, registram dados e observam sinais do lote. Tudo isso, diariamente, sem pausas, durante meses.
Esse formato intensivo é semelhante ao que transformou tilápias, bagres e camarões em cadeias gigantes e agora começa a ser aplicado ao robalo.
Por que o robalo atrai tanto interesse dos pesquisadores e produtores
O robalo é valorizado por três razões principais:
- Alto valor comercial — especialmente em restaurantes de frutos do mar e mercados premium;
- Rápido crescimento em condições controladas, quando comparado a outros peixes marinhos;
- Resistência à variação de salinidade, o que permite cultivo em tanques de água salobra, marinha ou ambientes intermediários.
Além disso, sua carne firme, branca e com baixa quantidade de espinhas desperta interesse de consumidores que buscam produtos mais nobres. Para os produtores, o robalo representa a chance de diversificar a maricultura brasileira com uma espécie nacional, de boa aceitação e com potencial de exportação.
Dr. Fabiano Bendhack e a importância do seu trabalho
O pesquisador Prof. Dr. Fabiano Bendhack, especialista em piscicultura marinha da Universidade Federal do Paraná (UFPR), atua há mais de 20 anos exclusivamente com estudos e projetos relacionados ao robalo no Brasil.
Ele é responsável pelo maior projeto de repovoamento de robalos já realizado no país, além de liderar pesquisas sobre nutrição, sistemas de engorda, fisiologia e toxicidade ambiental envolvendo a espécie.
Bendhack coordena o GEPeixe (Grupo de Estudos em Piscicultura), localizado no Centro de Estudos do Mar da UFPR, onde sua equipe realiza, atualmente, a reprodução induzida e a produção de juvenis de robalo com sucesso há três ciclos consecutivos.
O grupo vem acumulando resultados de destaque: um aluno recebeu o prêmio de melhor trabalho no Congresso Brasileiro de Aquicultura, e outro conquistou o melhor trabalho da sessão no Congresso de Iniciação Científica da UFPR em 2024.
O laboratório também teve recentemente aprovado, pela Fundação Araucária, um projeto de pesquisa com investimento de milhões de reais, destinado ao desenvolvimento de um sistema de produção de robalo em gaiolas marinhas, em colaboração com duas universidades internacionais.
Segundo Bendhack, ele desconhece outras universidades brasileiras que, no passado recente, tenham conduzido esforços científicos tão extensos dedicados à espécie.
Essas informações reforçam o papel central da UFPR e do GEPeixe no avanço da piscicultura de robalo no Brasil, com pesquisas contínuas, resultados práticos e produção de conhecimento técnico que vêm consolidando a instituição como referência nacional na área.
O futuro: do cultivo experimental ao abastecimento comercial
Embora ainda não esteja massificado como a tilápia ou o camarão, o robalo avança rápido demais para ser ignorado. Pesquisadores apontam que, com investimentos consistentes em genética, larvicultura e tecnologia de água, o Brasil pode transformar o robalo em um dos pilares da produção de peixes marinhos nos próximos anos.
A demanda já existe, especialmente no mercado gastronômico e em redes que buscam peixes nobres com origem controlada. À medida que a produção se estabiliza, os custos tendem a diminuir e a escala aumenta. É exatamente esse ciclo que destaca o robalo como a “próxima proteína promissora” da aquicultura nacional.
Um sistema intenso, técnico e que começa a se consolidar
O que impressiona não é apenas o interesse científico, mas a rotina industrial que se forma ao redor do robalo: viveiros alimentados diariamente, tanques controlados por sensores, operadores atentos a pequenos sinais e lotes que precisam de acompanhamento constante até atingir peso comercial.
Esse processo, discreto e altamente técnico, mostra que o cultivo de robalo já deixou de ser experiência isolada e se tornou uma atividade real, ainda em expansão, mas com potencial gigantesco para o país.


Matéria superficial , sem dados dos estudos e locais onde realmente estão criando robalo em quantidade comercial e com rentabilidade .
Poderiam informar quais laboratórios/universidades se realizam pesquisas com o cultivo do robalo no Brasil nos Estados citados na reportagem:
“Ceará, Rio Grande do Norte, Bahia, São Paulo e Santa Catarina, projetos-piloto já utilizam viveiros escavados salinizados, tanques circulares com recirculação e sistemas marinhos controlados para engordar robalos com eficiência surpreendente”
Obrigado!
Fabiano Bendhack
@GEPeixe.ufpr