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O “Cometa Diabo” passou pelo Sol em 2024 com chifres de gás e aparência ameaçadora, mas o que os cientistas encontraram dentro dele foi ainda mais surpreendente: a água do cometa é virtualmente idêntica à dos oceanos da Terra, a prova mais forte já obtida de que alguém trouxe a água até aqui de muito longe

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 15/04/2026 às 22:02
ALMA e NASA mapeiam água em cometa 12P/Pons-Brooks e revelam composição quase idêntica à dos oceanos da Terra, mudando teorias sobre sua origem.
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ALMA e NASA mapeiam água em cometa 12P/Pons-Brooks e revelam composição quase idêntica à dos oceanos da Terra, mudando teorias sobre sua origem.

Segundo o Observatório ALMA, uma equipe internacional liderada por Martin Cordiner, do Centro Goddard da NASA, mapeou pela primeira vez na história a distribuição espacial de água comum e água pesada na coma de um cometa — e o resultado mudou a forma como os cientistas entendem a origem dos oceanos da Terra. O cometa em questão é o 12P/Pons-Brooks, um visitante que os chineses já registravam desde o século XIV, que os europeus chamavam de maravilha celeste no século XIX e que os astrofísicos do século XXI decidiram chamar de “Cometa Diabo”.

O apelido, dado às pressas no verão de 2023, descreve a aparência: dois chifres de gás brotando da coma como se o objeto estivesse vivo e irritado. O que ninguém esperava era que, por dentro, ele carregasse uma assinatura química quase idêntica à da água que cobre 71% da superfície da Terra.

Um viajante de 4,5 bilhões de anos com o cometa 12P/Pons-Brook

O 12P/Pons-Brooks completa uma órbita ao redor do Sol a cada 71 anos. Isso significa que a maioria das pessoas que o viu em 2024 não terá outra chance, a próxima passagem está prevista para 2095.

O cometa pertence à família dos cometas do tipo Halley, objetos com períodos orbitais entre 20 e 200 anos que se formaram nas regiões mais frias e remotas do Sistema Solar, a Nuvem de Oort ou o Cinturão de Kuiper — e foram eventualmente desviados para órbitas que os trazem periodicamente ao Sistema Solar interno.

O núcleo do 12P/Pons-Brooks é estimado em cerca de 34 quilômetros de diâmetro, do tamanho do Monte Everest, segundo a Royal Astronomical Society. Dentro dele, congelado há 4,5 bilhões de anos, há gelo formado nos primeiros momentos do Sistema Solar. Cada vez que o cometa se aproxima do Sol, parte desse gelo sublima, criando a nuvem de gás e poeira chamada de coma, que pode se expandir a centenas de milhares de quilômetros do núcleo.

Por qual razão o cometa 12P/Pons-Brooks é tão diferente?

O que faz o 12P/Pons-Brooks diferente de muitos cometas é seu temperamento. É classificado como cometa criocivulcânico — em essência, um vulcão de gelo voador.

Em julho de 2023, astronomers da Hungria registraram que o objeto havia brilhado 100 vezes em uma única noite, passando da magnitude 16,6 para 11,6 em questão de horas. A coma, até então esférica, se deformou em uma forma de ferradura com dois pontos proeminentes.

Os chifres haviam aparecido e o nome “Cometa Diabo” pegou imediatamente. Entre junho de 2023 e abril de 2024, o objeto registrou 14 erupções bem documentadas. Durante o eclipse solar total de 8 de abril de 2024, estava a apenas 25 graus do Sol, registrado por alguns astrofotógrafos entre as fotos do fenômeno.

Em 21 de abril de 2024, o 12P/Pons-Brooks passou pelo periélio, o ponto mais próximo do Sol. E foi exatamente durante essa aproximação que uma equipe de astrônomos apontou para ele dois dos instrumentos mais poderosos do planeta.

A pergunta de 4,5 bilhões de anos

Há uma questão que os cientistas não conseguem responder com certeza desde que começaram a pensar sobre ela: de onde veio a água da Terra?

A Terra se formou na região interna do Sistema Solar, onde as temperaturas eram altas demais para que gelo sobrevivesse. Isso significa que o planeta nasceu essencialmente seco.

No entanto, hoje tem 1,4 bilhão de quilômetros cúbicos de água líquida na superfície e em aquíferos subterrâneos. Essa água chegou depois — trazida por colisões com outros objetos durante o período caótico de bombardeamento pesado, há cerca de 4 bilhões de anos. A questão é: quais objetos? Asteroides? Cometas? Meteoritos? Alguma combinação dos três?

A chave para responder essa pergunta está na composição química da água. A água comum é H₂O — dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Mas existe uma versão mais pesada, chamada HDO ou “água semi-pesada”, na qual um dos átomos de hidrogênio é substituído por deutério, um isótopo mais denso do hidrogênio que tem um nêutron adicional no núcleo.

A proporção entre deutério e hidrogênio (razão D/H) em qualquer amostra de água funciona como uma impressão digital química: ela varia conforme as condições em que a água se formou. Objetos que se formaram mais longe do Sol, em regiões mais frias, tendem a ter mais deutério. Objetos mais próximos, como a Terra, tendem a ter menos.

Se a água de um cometa tem a mesma razão D/H que os oceanos terrestres, isso sugere que as duas águas podem ter uma origem comum — e que aquele cometa poderia ter trazido parte do que estamos bebendo, nadando e pescando hoje.

O que a missão Rosetta explicou e o cometa 67P/Churyumov

Durante décadas, asteroides eram os candidatos favoritos. Em 2014, a missão Rosetta da ESA pousou no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko e mediu a razão D/H da sua água. O resultado foi perturbador: três vezes mais deutério do que nos oceanos terrestres, o maior valor já registrado em qualquer cometa. Aquela medição pareceu fechar a porta para os cometas do tipo Halley e seus parentes como fontes da água terrestre.

Mas havia um problema metodológico que vinha incomodando os pesquisadores. Todas as medições anteriores de cometas eram feitas de longe, com telescópios que registravam a luz do vapor d’água que escapava da coma como um todo.

Não havia como distinguir se aquela água havia saído diretamente do núcleo sólido do cometa ou se havia se formado por reações químicas dentro da nuvem de gás ao redor. Essa distinção importa: se parte da água na coma vem de reações secundárias e não do gelo original do núcleo, as medições podem estar sistematicamente distorcidas.

Foi exatamente esse problema que a equipe de Cordiner decidiu atacar.

O mapa que mudou tudo sobre o 12P/Pons-Brook

O ALMA — Atacama Large Millimeter/submillimeter Array — é um conjunto de 66 radiotelescópios instalado no deserto do Atacama, no Chile, a 5.000 metros de altitude. Sua força está na interferometria: ao combinar os sinais de dezenas de antenas espalhadas por até 16 quilômetros, o ALMA pode criar imagens com resolução comparável à de um telescópio de dimensões impossíveis.

É essa técnica que permitiu algo inédito: mapear a distribuição espacial de moléculas de água dentro da coma de um cometa, não apenas medir sua quantidade total.

A equipe de Cordiner combinou os dados do ALMA com observações no infravermelho do Telescópio Infravermelho da NASA (IRTF) no Havaí para obter um quadro completo.

Os mapas mostraram onde, exatamente, dentro da coma do 12P/Pons-Brooks, estavam as moléculas de H₂O (água comum) e as de HDO (água pesada com deutério). O padrão encontrado foi inequívoco: as duas moléculas provinham do mesmo lugar, diretamente do núcleo sólido do cometa, do gelo primordial que está lá congelado há 4,5 bilhões de anos.

Com essa confirmação sobre a origem do vapor, a medição da razão D/H se tornou muito mais confiável. E o resultado foi surpreendente.

A razão D/H medida foi de (1,71 ± 0,44) × 10⁻⁴ — a mais baixa já registrada em um cometa do tipo Halley e um valor que cai diretamente na faixa dos oceanos terrestres.

“Nossos novos resultados fornecem a evidência mais forte já obtida de que pelo menos alguns cometas do tipo Halley carregaram água com a mesma assinatura isotópica encontrada na Terra, apoiando a ideia de que os cometas podem ter ajudado a tornar nosso planeta habitável”, declarou Cordiner ao anunciar os resultados, publicados em agosto de 2025 na revista Nature Astronomy.

O que isso muda e o que ainda não sabemos

A descoberta não resolve sozinha a questão da origem da água terrestre. Um único cometa com assinatura isotópica compatível não prova que todos os cometas do tipo Halley são assim, nem que foram eles os principais responsáveis pelos oceanos.

Os asteroides carbonáceos continuam sendo candidatos fortes, com evidências robustas acumuladas ao longo de décadas. A visão científica mais aceita hoje é que a água da Terra veio de múltiplas fontes — e a proporção exata de cada uma ainda é debatida.

O que a medição do 12P/Pons-Brooks faz é reabrir uma porta que parecia fechada. Depois do resultado da Rosetta com o 67P em 2014, muitos pesquisadores tendiam a descartar cometas do tipo Halley como fontes significativas de água terrestre. Agora, com um membro dessa mesma família mostrando água virtualmente indistinguível da dos oceanos, o debate voltou ao ponto de partida — mas com ferramentas muito mais precisas.

12P/Pons-Brooks não voltará até 2095: Qual o proximo passo?

O próximo passo é repetir a mesma metodologia em outros cometas do tipo Halley à medida que eles passam próximos ao Sol. O 12P/Pons-Brooks não voltará até 2095. Mas outros cometas desta família têm janelas de observação nos próximos anos.

Além disso, a missão Comet Interceptor, desenvolvida pela ESA com lançamento previsto para 2029, tem como objetivo encontrar um cometa dinamicamente primitivo — um objeto que nunca passou pelo Sistema Solar interno antes e analisar sua composição diretamente, sem as incertezas das observações à distância.

A água que há nos oceanos da Terra não foi posta lá por acidente. Chegou trazida por objetos que viajaram bilhões de quilômetros ao longo de bilhões de anos antes de colidir com um planeta que mal havia se formado.

O “Cometa Diabo”, com seus chifres de gás e suas erupções espetaculares, carregou consigo um registro congelado desse processo. E quando os astrônomos finalmente conseguiram abrir esse registro com precisão suficiente, o que encontraram foi um reflexo de casa.

O estudo “A D/H ratio consistent with Earth’s water in Halley-type comet 12P from ALMA HDO mapping”, liderado por Martin Cordiner do Centro Goddard da NASA, foi publicado na revista Nature Astronomy em agosto de 2025. A descoberta foi anunciada pelo Observatório ALMA, parceria entre a ESO, a Fundação Nacional de Ciência dos EUA e o Observatório Astronômico Nacional do Japão.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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