O Chile vai se tornar o maior mercado de baterias per capita do mundo em 2026 com 5,47 GW de armazenamento previstos para entrar em operação até o fim do ano — de 0,5 GWh em 2022 para mais de 10 GWh em 2026.
Em 2022, as baterias de grande porte conectadas à rede elétrica do Chile entregaram exatamente 0,5 gigawatt-hora de energia ao sistema nacional — uma fração minúscula, praticamente irrelevante para qualquer balanço energético. Três anos depois, nos primeiros oito meses de 2025, essas mesmas baterias entregaram 315 GWh, uma multiplicação de 630 vezes em menos de três anos. Os dados constam em relatórios do setor energético chileno compilados por consultorias como a Broker & Trader Energy e divulgados por veículos especializados como a Renewables Now e a ESS News, que confirmam o salto de 0,5 GWh em 2022 para 315 GWh entre janeiro e agosto de 2025.
Nenhuma tecnologia energética cresceu nessa velocidade em nenhum país do mundo em período equivalente. E o Chile ainda está no início desse processo. Com 1,58 GW já em operação e cerca de 746 MW em fase de testes, além de um pipeline que ultrapassa vários gigawatts em desenvolvimento, o país acelera rapidamente a expansão do armazenamento para suportar sua matriz baseada em energia solar e eólica
Desperdício de energia renovável no Chile cria mercado bilionário para baterias
Para entender essa expansão acelerada do armazenamento de energia, é necessário olhar para o problema que a própria matriz energética chilena criou. Ao longo dos anos 2010 e início dos anos 2020, o Chile expandiu rapidamente sua capacidade solar e eólica.
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A região de Antofagasta possui níveis de irradiação solar entre os mais altos do planeta, superiores aos do deserto do Saara. A capacidade solar instalada mais que dobrou entre 2020 e 2023, atingindo 8,5 GW e mantendo crescimento contínuo.
O problema estrutural dessa expansão é conhecido: o pico de geração solar ocorre ao meio-dia, quando a demanda elétrica é moderada. À noite, quando o consumo aumenta, a geração solar desaparece. Sem armazenamento, o sistema elétrico precisa recorrer a usinas térmicas para cobrir esse intervalo — um desafio ainda maior para o Chile, que depende da importação de combustíveis fósseis.
O resultado foi um desperdício em escala nacional. Em 2024, o país desperdiçou quase 6.000 GWh de energia renovável, segundo a Associação Chilena de Energias Renováveis e Armazenamento. Energia gerada e descartada por falta de demanda ou limitação da rede.
Esse volume seria suficiente para abastecer Santiago por mais de um ano. Um relatório do operador nacional concluiu que apenas 2 GW de baterias poderiam reduzir esse desperdício em até 40% e economizar centenas de milhões de dólares por ano. As baterias deixaram de ser uma opção tecnológica. Tornaram-se uma necessidade operacional.
Crescimento recorde das baterias no Chile: de 0,5 GWh para 315 GWh em três anos
A evolução dos números mostra uma aceleração sem precedentes. Em 2022, as baterias entregaram 0,5 GWh. Em 2023, esse número subiu para 6,9 GWh. Em 2024, chegou a 31 GWh. E em apenas oito meses de 2025, alcançou 315 GWh.
O que chama atenção não é apenas o crescimento absoluto, mas a velocidade dessa expansão. O salto não é linear. É exponencial. As baterias passaram a operar como parte central do sistema elétrico, especialmente nos períodos de transição entre geração solar e aumento da demanda.
Em agosto de 2025, elas responderam por 2,2% da geração elétrica mensal do país, um percentual que era estatisticamente irrelevante dois anos antes.
Essa estratégia foi resumida pelo governo chileno em um conceito direto: usar energia solar gerada durante o dia para abastecer o consumo noturno.
Oasis de Atacama: o megaprojeto que simboliza a nova era energética do Chile
O projeto que sintetiza essa transformação é o Oasis de Atacama. Instalado no deserto chileno, o complexo terá 2 GW de geração solar combinados com 11 GWh de armazenamento em baterias, distribuídos em múltiplas fases.
O investimento supera US$ 2,3 bilhões. A produção anual estimada é de 5,5 TWh — cerca de 15% do consumo elétrico do país. Um único projeto com capacidade de influenciar significativamente a matriz energética nacional. Mas ele não é isolado.

Outros projetos de grande escala estão sendo desenvolvidos no norte do Chile, combinando geração renovável e armazenamento para garantir estabilidade de fornecimento.
A escolha do deserto do Atacama não é casual. Além da alta irradiação solar, a região concentra mineração de lítio e cobre, essenciais para a indústria de baterias.
Lei de armazenamento de energia no Chile transforma baterias em negócio rentável
Um fator central para essa expansão é o ambiente regulatório. Em 2022, o Chile aprovou uma legislação específica para armazenamento de energia, permitindo que baterias operem como ativos independentes dentro do sistema elétrico.
Essa regulação abriu múltiplas fontes de receita. As baterias podem comprar energia barata durante o dia e vender à noite, operar como reserva de capacidade e fornecer serviços de estabilização da rede.
Essa previsibilidade permitiu que bancos financiassem projetos com menor risco, reduzindo o custo de capital. É essa clareza regulatória que diferencia o Chile de outros países com potencial semelhante.
Fechamento de usinas a carvão no Chile é impulsionado pelo avanço das baterias
No início de 2026, cerca de 700 MW de usinas a carvão foram retirados do sistema elétrico chileno. Essas usinas não foram substituídas por novas térmicas. Foram substituídas por baterias.
Com o armazenamento de energia assumindo o papel de atender o pico noturno, o modelo econômico das usinas a carvão deixou de ser viável.
O custo da energia armazenada passou a competir diretamente com o carvão importado e venceu. Esse movimento representa uma mudança estrutural na lógica da transição energética.
Brasil ainda não possui regulação para armazenamento de energia em larga escala
O contraste com o Brasil é evidente. O país possui recursos naturais abundantes, incluindo energia solar, eólica e reservas minerais estratégicas.
No entanto, ainda não possui um marco regulatório claro para armazenamento de energia em larga escala. Sem regras definidas, projetos de grande porte enfrentam dificuldades de financiamento, pois não há previsibilidade de retorno.
Enquanto o Chile constrói gigawatts de armazenamento, o Brasil ainda discute como estruturar o mercado.
O avanço chileno não se limita ao presente. A meta de 6 GW de armazenamento, originalmente prevista para 2050, será praticamente atingida antes de 2027. Uma antecipação de mais de duas décadas.
Além disso, o país possui um pipeline de 23 GW em avaliação, o que pode colocá-lo entre os maiores mercados globais de armazenamento de energia.
O Chile está demonstrando que a transição energética não depende apenas de tecnologia ou recursos naturais. Depende de regras claras. E de decisões tomadas antes que o sistema entre em colapso.

