Enquanto o buraco mais fundo da história testa os limites da crosta terrestre com o poço mais profundo do mundo, a humanidade ainda está a milhares de quilômetros do centro da Terra e usa a mina mais profunda da Terra como outra janela para o interior do planeta.
Mesmo somando tudo o que a tecnologia moderna já fez, o buraco mais fundo da história não passa de um arranhão na crosta do planeta. A humanidade cavou 12.376 metros rumo ao interior da Terra e, ainda assim, o centro do planeta continua a cerca de 6.731 quilômetros abaixo da superfície, tão distante quanto uma viagem imaginária de Lisboa até Astana.
Entre a fantasia infantil de cavar até o “fundo do mundo” e os projetos gigantes de perfuração, existe uma história que começa em covas rasas, passa por túmulos faraônicos, catacumbas, minas, cavernas abissais e termina em um poço tão profundo que comportaria 15 Burj Khalifas empilhados. No fim, o buraco mais fundo da história revela menos um triunfo absoluto e mais um lembrete brutal de como o calor e a pressão da Terra ainda mandam em tudo.
Do sonho de cavar até o centro da Terra à realidade dos primeiros metros
Em algum momento da vida, quase todo mundo já pensou em cavar um túnel até o outro lado do planeta. A realidade, porém, bate logo nos primeiros metros.
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A partir da superfície, a 1,8 metro de profundidade, chegamos à profundidade padrão de um túmulo em boa parte da cultura ocidental. É aqui que a fantasia começa a esbarrar nas primeiras camadas da história humana.
Um pouco mais abaixo, a 4 metros de profundidade, está a mesma faixa em que foi encontrado o túmulo do faraó Tutankhamon, prova de que já usamos o subsolo para esconder tesouros, segredos e poder.
A 6 metros, atingimos o limite em que detectores de metal ainda conseguem captar sinais. Aos 12 metros, encontramos as tocas mais profundas escavadas por animais como o crocodilo do Nilo.
A 20 metros, a realidade muda de escala: é a profundidade das catacumbas de Paris, um labirinto sob a cidade que guarda os restos de mais de 6 milhões de pessoas.
Em apenas algumas dezenas de metros, o subsolo já mistura medo, morte, história e engenharia básica, muito antes de qualquer megaobra de perfuração.
Túneis, lixo nuclear e as primeiras descidas extremas
Quando dobramos a marca das catacumbas, a 40 metros de profundidade, chegamos à piscina mais profunda do mundo.
Se ela fosse drenada e alguém pulasse do topo, levaria quase 3 segundos até tocar o fundo. A 100 metros, aparece outro nível de risco: é a profundidade típica em que governos enterram resíduos nucleares.
Logo abaixo, a 105,5 metros, está a estação de metrô mais profunda do mundo, em Kiev. A 122 metros, chegamos ao ponto mais profundo conhecido já alcançado pelas raízes de uma planta, uma figueira na África do Sul.
Aos 220 metros, o rio Congo atinge o título de rio mais profundo do planeta, e, a 240 metros, um túnel ferroviário conecta as ilhas japonesas de Honshu e Hokkaido sob o mar.
A 287 metros, você poderia dirigir pelo túnel rodoviário mais profundo do mundo, na Noruega. Já a 305 metros, mesmo tão fundo, ainda seria vulnerável a uma ogiva penetradora capaz de destruir estruturas até essa profundidade.
Nada disso ainda compete com o buraco mais fundo da história, mas mostra como nós, aos poucos, fomos empurrando a fronteira do que é possível cavar, furar e atravessar.
Poços, cavernas e minas: quando o buraco vira abismo
A 392 metros de profundidade, encontramos o poço de água de Woodingdean, no Reino Unido, possivelmente o buraco mais profundo já cavado à mão. Ele foi concluído em 1862, muito antes de máquinas modernas facilitarem perfurações.
A 603 metros, a coisa fica francamente assustadora: é a queda vertical mais profunda já mapeada dentro de uma caverna. Uma pessoa que caísse ali enfrentaria uma queda maior que a altura do One World Trade Center, em Nova York, e levaria mais de 11 segundos até bater no fundo.
Um pouco abaixo, a 700 metros, ficaram presos por 69 dias os mineiros chilenos resgatados em 2010, em uma história que mostrou o preço humano de explorar o subsolo.
Aos 970 metros, está a mina a céu aberto de Bingham Canyon, em Utah, o buraco mais profundo da Terra que ainda tem céu aberto acima.
Ele é tão fundo que daria para colocar o prédio mais alto do mundo no centro e ainda sobrariam mais de 100 metros até a borda.
Mais fundo ainda, a 1.410 metros, uma banda de metal finlandesa realizou o concerto mais profundo da história, transformando uma mina em palco.
A 1.642 metros, encontramos a profundidade do lago Baikal, na Rússia, o lago mais profundo do planeta. A 1.857 metros está a parte mais profunda do Grand Canyon.
Na Geórgia, uma caverna atinge cerca de 2.197 metros abaixo da superfície, considerada a caverna conhecida mais profunda do mundo.
Mas o buraco mais profundo em que alguém poderia realmente cair, com um eixo contínuo, vai além: em Moab Khotsong, na África do Sul, o fundo da mina chega a 3.132 metros. Uma queda desde o topo levaria 25 segundos até o impacto.
Ainda mais abaixo, a 3.600 metros, foi encontrado o ponto mais profundo em que um organismo multicelular já foi visto vivo, um verme curioso que resiste às condições extremas.
Já a 4.000 metros, está a parte mais profunda da mina mais funda da Terra, também na África do Sul. Só a viagem da superfície até o fundo leva mais de uma hora, e a temperatura chega a 66 graus Celsius.
Aqui, o calor passa a ser um inimigo tão importante quanto a profundidade.
Do fundo do oceano ao limite da crosta: entra o Kola Superdeep Borehole
Sob o fundo do mar, a crosta oceânica em média se espessa até cerca de 6.000 metros. Se o Monte Everest fosse “plantado” no subsolo em vez de apontar para o céu, sua altura de 8.848 metros ainda ficaria aquém de muitos desses poços.
O ponto mais profundo do oceano, a Fossa das Marianas, chega a 10.994 metros abaixo da superfície do mar.
Mesmo assim, a perfuração humana já foi além dessa marca em terra firme. Em 12.262 metros de profundidade, está o Kola Superdeep Borehole, um experimento soviético que tentou furar todo o caminho através da crosta terrestre.
O projeto só chegou a cerca de um terço da crosta porque, nessa profundidade, a temperatura atingiu aproximadamente 180 graus Celsius, quente demais para que a broca continuasse funcionando.
O Kola Superdeep é um buraco estreito, com apenas cerca de 23 centímetros de largura. Felizmente, ninguém conseguiria cair nele por acidente.
Ainda assim, se fosse possível deixar cair algo ao longo de todo o eixo, levaria uns 50 segundos até atingir o fundo. Durante muito tempo, esse poço foi o candidato natural ao título de buraco mais fundo da história.
Z44-Chavyo: o buraco mais fundo da história que a humanidade já cavou
Recentemente, essa marca foi ultrapassada. Um poço de petróleo e gás conhecido como Z44-Chavyo perfurou até cerca de 12.376 metros de profundidade, superando o recorde soviético e se tornando o buraco mais fundo da história cavado pela humanidade.
Em termos de comparação, essa profundidade equivale a empilhar 15 Burj Khalifas, um sobre o outro, dentro da mesma coluna de rocha.
Mesmo assim, o feito é pequeno quando olhamos a escala do próprio planeta. A crosta terrestre pode chegar a cerca de 70 mil metros de espessura, e o centro da Terra está localizado a aproximadamente 6.731 quilômetros abaixo da superfície.
Se você imaginasse a superfície em Lisboa, Portugal, e o centro do planeta em Astana, no Cazaquistão, todos os nossos poços e minas até hoje ocupariam apenas um trecho minúsculo no começo dessa jornada.
O buraco mais fundo da história mostra que dominamos muito bem os primeiros quilômetros de rocha, mas ainda somos quase cegos em relação ao que acontece nas profundidades reais da Terra.
O calor, a pressão e as limitações dos materiais usados nas brocas lembram que, por enquanto, a fronteira do interior do planeta segue bem longe do nosso alcance.
No fim das contas, cavar é menos sobre chegar a algum lugar e mais sobre medir o quanto ainda falta. Cada metro descido em minas, cavernas e megapoços como o Z44-Chavyo serve para entender um pouco melhor o que existe sob nossos pés, mas também reforça o quanto ainda não sabemos.
E você, acha que a humanidade deveria continuar tentando aumentar o buraco mais fundo da história, ou já fomos fundo o suficiente e é melhor investir em outras formas de explorar o interior da Terra?


What a mishmash of units ! Makes the worthless article almost unintelligible.