Em plena queda de braço entre Washington e Pequim por minerais estratégicos, uma mineradora em Goiás trocou de dono e revelou o tamanho do tesouro que o Brasil ainda quase não explora
As terras raras viraram a nova obsessão das potências, e o Brasil acaba de entrar no centro dessa disputa. A norte-americana USA Rare Earth anunciou em abril de 2026 a compra da mineradora Serra Verde, dona da única mina do tipo em operação no país, num negócio de US$ 2,8 bilhões que escancarou o jogo geopolítico em torno desses minerais.
As terras raras são um grupo de elementos essenciais para a indústria de alta tecnologia, e o caso é simbólico: até a venda, toda a produção da mina em Goiás era exportada para a China. Agora ela passa às mãos dos Estados Unidos, que tentam reduzir a dependência chinesa nesse setor estratégico.
O que são as terras raras e por que o mundo as disputa
Apesar do nome, as terras raras não são propriamente raras na crosta terrestre. O que é raro é encontrá-las concentradas o suficiente para valer a extração, e mais raro ainda é dominar o processo de separá-las e refiná-las, que é caro e complexo.
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Esses elementos são insubstituíveis em uma lista enorme de produtos modernos. Segundo a Agência Brasil, eles entram na fabricação de ímãs permanentes usados em veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs, drones e ar-condicionado de alta eficiência, além de aplicações em semicondutores, defesa, energia nuclear e setor aeroespacial. Sem esses elementos, boa parte da transição energética e da indústria militar simplesmente trava.
A única mina de argila iônica fora da Ásia
O ativo no centro do negócio é a mina de Pela Ema, em Minaçu, no norte de Goiás. Ela é a única mina de argila iônica em operação no Brasil, um tipo de depósito considerado a principal fonte dos elementos pesados, os mais valiosos e difíceis de obter.
Conforme a Agência Brasil, a Serra Verde é a única produtora fora da Ásia de quatro dos elementos pesados mais críticos: disprósio, térbio, neodímio e ítrio. A mina entrou em produção em 2024 e tem meta de dobrar a produção até 2030. Esse pioneirismo fora do continente asiático é exatamente o que torna o ativo tão cobiçado num momento de tensão entre as grandes potências.
Antes da venda, 100% ia para a China
O detalhe que melhor explica a importância do negócio está no destino anterior da produção. De acordo com o Brasil 247, antes da aquisição a Serra Verde exportava integralmente sua produção para a China.
Ou seja, o minério brasileiro saía do país sem refino e ia abastecer justamente a indústria que domina o mundo no setor. A compra pelos americanos inverte esse fluxo. O que antes alimentava a cadeia chinesa passa a ter prioridade de fornecimento para os Estados Unidos, segundo o Brasil 247, numa virada que tem peso muito além do valor financeiro.
O cheque de US$ 2,8 bilhões e quem está por trás
O tamanho do negócio dá a medida da aposta. A USA Rare Earth pagou US$ 2,8 bilhões pela mineradora, em uma transação anunciada em 20 de abril de 2026, segundo a Agência Brasil.
A operação tem digital do governo americano. Conforme o Brasil 247, o acordo foi financiado pela Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos, a DFC, com cláusula de prioridade de fornecimento para o mercado americano. Não é um negócio puramente privado: é Washington usando capital público para garantir acesso a um insumo que considera estratégico para sua segurança nacional.
O Brasil tem a 2ª maior reserva, mas falta o refino

Aqui está o paradoxo brasileiro. Segundo o Brasil 247, o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com a Serra Verde produzindo cerca de 6.500 toneladas de óxidos por ano. O potencial mineral é gigantesco, mas o país pouco aproveita.
O motivo é técnico e econômico. A parte mais valiosa da cadeia não é tirar o minério do chão, e sim refiná-lo e transformá-lo em produto final, etapa que o Brasil não domina em escala. Por isso o minério sai cru, agrega valor lá fora e volta caro. Ter a reserva sem ter o refino é como sentar sobre uma mina de ouro sem ter a fundição.
Para que servem: os ímãs que movem o carro elétrico

Para entender por que tanto dinheiro persegue esses elementos, basta olhar onde eles param. Os elementos pesados como o disprósio e o térbio são essenciais para fabricar ímãs permanentes que aguentam altas temperaturas, justamente os que fazem girar os motores de carros elétricos e os geradores das turbinas de vento.
Sem esses ímãs, não há eletrificação de frota nem expansão eólica na escala que o mundo planeja. O mesmo vale para drones, robôs industriais e sistemas de defesa. Cada veículo elétrico e cada aerogerador carrega um pouco de terras raras dentro, o que transforma esses minerais em gargalo da economia verde e da indústria de ponta.
A China controla mais de 70% do refino
A razão de tanta tensão tem nome e sobrenome: concentração. De acordo com o Brasil 247, a China controla mais de 70% da capacidade global de refino de terras raras, a etapa mais complexa e estratégica da cadeia. A Agência Brasil reforça que mais de 90% da extração mundial também acontece em território chinês.
Esse domínio dá a Pequim uma alavanca poderosa. Em disputas comerciais, restringir a exportação desses materiais vira arma geopolítica. A dependência da China nesse setor é o que tira o sono de americanos e europeus, e explica por que os Estados Unidos pagaram bilhões por uma mina do outro lado do mundo.
O dilema do Brasil entre vender o minério e construir indústria
A venda da Serra Verde reacende um debate antigo no país. O Brasil pode se contentar em ser fornecedor de minério bruto para quem refina, ou pode tentar subir na cadeia e dominar a parte nobre do processo, gerando emprego e tecnologia em casa.
A primeira opção traz dinheiro rápido, mas mantém o país na base da pirâmide do valor. A segunda exige investimento pesado, política industrial e tempo. Decidir entre exportar o minério ou industrializar esses minerais é, no fundo, decidir que lugar o Brasil quer ocupar na economia do futuro, num setor que só vai ficar mais disputado.
Um tesouro que o Brasil ainda olha de longe
A compra bilionária deixou claro que o subsolo brasileiro guarda um dos ativos mais cobiçados do planeta, e que potências estão dispostas a pagar caro por ele. O episódio da Serra Verde é menos sobre uma mina e mais sobre o tabuleiro global de minerais estratégicos, no qual o Brasil entrou quase sem perceber.
A pergunta que fica é se o país vai seguir vendendo seu minério bruto ou se vai construir a indústria que falta para transformar essa reserva em poder real. Você sabia que o carro elétrico e a turbina eólica dependem de um mineral que o Brasil tem de sobra, mas quase não aproveita?
