Um relatório global aponta 2025 como o ano em que a virada virou realidade, mas mostra que o Brasil pode estar caminhando na direção contrária
A energia limpa cruzou em 2025 um ponto de virada que especialistas esperavam há anos: pela primeira vez em um século, as fontes renováveis geraram mais eletricidade que o carvão no mundo. Some-se a isso uma queda brutal no preço das baterias e o velho argumento de que o carvão era a opção mais barata simplesmente deixou de fazer sentido.
A energia limpa ficou mais competitiva porque o custo de gerar e de armazenar despencou. O preço dos pacotes de bateria caiu 45% em um único ano, e em leilões reais a combinação de sol mais bateria já bate usinas novas de carvão. A novidade preocupante, porém, é que o Brasil parece remar contra essa maré.
O ano em que as renováveis passaram o carvão
O marco histórico está nos números globais. Segundo o relatório Global Electricity Review 2026, da plataforma de dados Ember, citada pelo Canal Solar, as renováveis chegaram a 33,8% da geração de eletricidade mundial e ultrapassaram o carvão, com 33,0%, pela primeira vez em cerca de 100 anos.
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Não é um detalhe estatístico. O carvão dominou a eletricidade do planeta desde a Revolução Industrial, e vê-lo ser superado marca uma mudança de era. Quando a fonte mais antiga perde o trono para sol, vento e água, o sistema elétrico mundial entra em outra fase, com consequências de longo prazo para preços e emissões.
A bateria que caiu 45% em um ano

O que destravou essa virada foi o armazenamento. Conforme o Canal Solar, o preço do pacote de baterias para armazenamento estacionário caiu para US$ 70 por quilowatt-hora em 2025, uma queda de 45% em apenas um ano, depois de já ter recuado 40% no período anterior. A capacidade global instalada saltou cerca de 46%, chegando perto de 250 gigawatts-hora.
Esse barateamento muda tudo. A grande crítica às renováveis sempre foi a intermitência: o sol não brilha à noite e o vento varia. Com bateria barata, dá para guardar a energia do dia e usar quando faltar. A queda no preço do armazenamento em baterias é o elo que faltava para as renováveis virarem base do sistema, e não apenas um complemento.
Solar mais bateria já vence o carvão na Índia
A prova mais concreta veio dos leilões. Ainda segundo o Canal Solar, na Índia, em 2025, propostas de solar mais bateria operando 24 horas por dia ficaram abaixo do custo de novas térmicas a carvão em disputas reais de mercado, não em simulações de laboratório.
O custo do chamado solar despachável, aquele que entrega energia a qualquer hora graças à bateria, chegou a cerca de US$ 76 por megawatt-hora em outubro de 2025. Isso significa energia limpa, contínua e mais barata que a alternativa fóssil. Quando o mercado escolhe renovável por preço, e não por ideologia, a transição energética deixa de ser promessa e vira economia pura.
Solar e eólica deram conta de todo o crescimento da demanda
Outro dado mostra o tamanho do avanço. De acordo com o Painel de Mudanças Climáticas, também com base no relatório da Ember, em 2025 a solar e a eólica foram suficientes para atender a 100% do crescimento da demanda mundial de eletricidade.
Na prática, todo o aumento de consumo do planeta foi coberto por fontes limpas, sem precisar queimar mais. A energia solar, sozinha, lidera essa expansão há três anos seguidos. Atender ao crescimento inteiro da demanda só com sol e vento era impensável há uma década, e hoje é o retrato de um único ano.
Por que a energia limpa configura um ponto de virada
Somando as peças, fica claro por que 2025 entrou para a história do setor. O Canal Solar registra que a energia limpa absorveu sozinha 849 terawatts-hora de crescimento de demanda, e que solar e eólica já respondem por cerca de 15% da eletricidade mundial, o dobro de 2019.
O ponto de inflexão não é só sobre volume, é sobre tendência. A geração fóssil tende a um platô e depois a um declínio projetado para os anos 2030. A direção do jogo mudou: o futuro do sistema elétrico passou a ser desenhado em torno das fontes renováveis, e não mais em torno das térmicas tradicionais.
O Brasil que pode estar na contramão

Aqui entra o alerta. Segundo o Canal Solar, a geração solar brasileira saltou de 17 terawatts-hora em 2021 para 89 terawatts-hora em 2025, cinco vezes mais em quatro anos, um avanço notável. O problema apareceu na hidrelétrica, que recuou cerca de 6% no mesmo ano.
Para tapar esse buraco, o país não recorreu a mais renováveis, e sim a mais usinas fósseis: a geração a partir dessas fontes cresceu 7,6% em 2025. Ou seja, no ano em que o mundo virou a chave, o Brasil aumentou a queima. Ter uma das matrizes mais limpas do planeta não impede o país de andar para trás num ano ruim de chuva, e foi o que aconteceu.
China e Índia cortando fóssil na direção oposta
O contraste com outros gigantes é o que mais incomoda. Enquanto o Brasil elevava a geração fóssil, a China cortou cerca de 56 terawatts-hora e a Índia reduziu cerca de 52 terawatts-hora vindos dessas fontes, segundo o Canal Solar. Os dois maiores consumidores de carvão do mundo começaram a frear, e o Brasil acelerou.
Essa inversão de papéis é simbólica. Países que sempre foram vilões da transição passaram a dar passos à frente, enquanto uma nação de matriz historicamente limpa tropeçou. A lição é que liderança em energia limpa não é herança, é escolha de cada ano, e exige decisão de investir em sol, vento e armazenamento em vez de térmicas.
O que ainda trava a virada completa
Apesar do otimismo, a transição não está ganha. Falta rede de transmissão para escoar a energia das novas usinas, falta regulação para o armazenamento e falta planejamento para não depender só de chuva. A queda no custo das baterias resolve metade do problema, mas a outra metade é política e de infraestrutura.
A pergunta que fica é se o Brasil vai aproveitar o ponto de virada global ou se vai assistir de fora, preso a soluções do passado. Você sabia que, no ano em que a energia limpa passou o carvão no mundo, o Brasil aumentou a queima de combustíveis fósseis?
