Enquanto o setor nuclear global é dominado por Westinghouse, Rosatom, KEPCO e EDF, a estatal argentina Nucleoeléctrica Argentina (NASA) aprovou em 13 de maio de 2026 uma mudança no estatuto que a transforma de simples operadora de 3 usinas em vendedora de serviços técnicos no mercado nuclear internacional, conforme cobertura de El Cronista.
O movimento acompanha o plano do governo Milei de abrir parcialmente o capital da empresa e dar à energia nuclear um papel central na estratégia energética e exportadora.
A NASA passa a oferecer engenharia, manutenção, paradas de planta e assistência técnica internacional.
-
Três empresas chinesas fabricam mais de 96% dos contêineres de carga seca do mundo e 100% dos refrigerados num domínio erguido ao longo de 40 anos que tornou quase impossível para o Ocidente disputar esse mercado
-
Argentina confirma gigante belga para comandar hidrovia estratégica do Rio Paraná e promete reduzir custos logísticos em uma das rotas mais importantes da América do Sul
-
MBRF surpreende o setor de logística ao mostrar como a Inteligência Artificial pode influenciar diretamente as entregas em todo Brasil ao reorganizar trajetos de distribuição em segundos, otimizar o uso das frotas, reduzir custos logísticos e acelerar a chegada de produtos mesmo diante de imprevistos nas estradas
-
Com portos profundos e ferrovia estratégica, Espírito Santo avança para competir com Santos e atrair cargas do comércio exterior
Na prática, o estatuto antigo limitava a empresa a gerar eletricidade nas usinas Atucha I, Atucha II e Embalse. Agora, com a nova unidade de negócio, a empresa pode prestar serviços a terceiros em períodos de menor atividade das centrais locais.
O que muda exatamente com o novo estatuto de 2026
O ponto central do cambio é o objeto social mais amplo. A NASA passou a definir-se como empresa que gera eletricidade e também vende capacidades técnicas acumuladas em mais de 5 décadas.
Conforme cobertura de EconoJournal, a assembleia de acionistas aprovou explicitamente uma nova unidade de comercialização de serviços e insumos para centrais nucleares.
Essa frente inclui 5 categorias: operação, manutenção, paradas programadas, engenharia especializada e assistência internacional.
A lógica comercial é direta. A NASA opera 3 usinas com paradas técnicas periódicas. Nos períodos de menor atividade local, os mesmos engenheiros podem participar de contratos no exterior, conforme El Cronista.
Em paralelo, o oficialismo apresenta o movimento como “colocar em valor” o know-how nuclear argentino. O Brasil tem o programa Angra com Eletronuclear, mas opera com tecnologia diferente: PWR americano e alemão na Angra 1 e 2.
Os números do parque nuclear argentino em 2026
A NASA opera as 3 únicas centrais nucleares de potência do país. A operação total soma 1.736 megawatts de potência instalada.
A Atucha I entrou em operação em 1974 com 335 MW líquidos. Foi a primeira usina nuclear da América Latina e mantém operação contínua há 52 anos, com extensão de vida útil aprovada pela Autoridad Regulatoria Nuclear (ARN).
A Atucha II começou operação comercial em 2014 com 745 MW. É a maior das 3, situada às margens do rio Paraná, no município de Lima, na província de Buenos Aires.
A construção levou cerca de 31 anos entre projeto inicial em 1980 e operação plena.
A Embalse, em Córdoba, entrou em serviço em 1984 com 656 MW. Foi modernizada em 2015-2019 com extensão de vida por mais 30 anos. A operação prolongada é referência regional em retrofit nuclear.

Reveal técnico: a tecnologia CANDU sem enriquecimento
Em segundo plano, a Argentina opera com tecnologia distinta de outros países latino-americanos. A central de Embalse usa a tecnologia CANDU canadense, sigla para Canadian Deuterium Uranium.
O sistema CANDU é um reator de água pesada pressurizada do tipo PHWR. Funciona com urânio natural sem necessidade de enriquecimento, diferente dos reatores PWR americanos que dominam Brasil e EUA.
A vantagem geopolítica é clara. Operar com urânio natural reduz a dependência da cadeia internacional de enriquecimento, controlada por 5 países: EUA, Rússia, França, China e Holanda. Argentina conserva autonomia técnica.
Por outro lado, as Atuchas I e II são reatores de água pesada pressurizada de design alemão original, com particularidades desenvolvidas em parceria entre a indústria nuclear argentina e fornecedores europeus.
Essa combinação rara explica a robustez técnica argentina em 5 décadas.
O CAREM, o reator modular argentino de 25 MW
O projeto CAREM é um dos mais emblemáticos da nuclear argentina recente. É um pequeno reator modular (SMR) com 25 MW elétricos na versão de demonstração.
Conforme dados da Comissão Nacional de Energia Atômica, o CAREM começou a ser projetado em 1984. O protótipo do CAREM-25 está em construção em Lima desde 2014, com previsão de entrada em operação em 2027.
A versão comercial planejada é o CAREM-300, com 300 MW de potência. O design segue o conceito mundial de SMRs, que ganharam tração após 2020 com projetos como o NuScale dos EUA e o BWRX-300 da GE Hitachi.
Em paralelo, o mercado mundial de SMRs deve movimentar cerca de US$ 150 bilhões até 2040 conforme a IAEA. Argentina mira posição relevante nesse nicho com o CAREM, contando com a base técnica acumulada.

Reveal humano: o plano nuclear de Milei e Caputo
A face humana do giro estratégico está no presidente Javier Milei e em seu ministro de Economia, Luis Caputo. Em entrevistas em 2025 e 2026, Milei posicionou a energia nuclear como pilar do reset energético argentino, ao lado de Vaca Muerta no petróleo e gás.
Conforme análise da Infobae, o plano oficial em 2026 inclui 4 movimentos. Primeiro, abrir parcialmente o capital da NASA para investidores privados.
Segundo, vender serviços ao exterior. Terceiro, acelerar o CAREM. Quarto, posicionar Argentina como exportadora de tecnologia nuclear na América Latina.
Em paralelo, o presidente da NASA é José Luis Antúnez, engenheiro nuclear com 28 anos de carreira na empresa. Antúnez conduz tecnicamente a mudança e responde à coordenação do ministério de Economia.
Por outro lado, sindicatos da empresa expressaram preocupação. A Asociación de Trabajadores del Estado teme que a abertura de capital leve à demissão de até 1.200 dos 2.800 funcionários atuais. A negociação coletiva continua.
Como a Argentina se compara aos gigantes nucleares
O mercado nuclear global reúne 4 atores dominantes em 2026. A Westinghouse americana lidera com 60 reatores PWR em operação no mundo.
A Rosatom russa controla 35 reatores e exporta tecnologia VVER para Egito, Bangladesh e Turquia.
A KEPCO sul-coreana construiu 4 reatores APR-1400 nos Emirados Árabes Unidos em 12 anos. A EDF francesa opera 56 reatores domésticos e exporta o EPR para Reino Unido e China.
A chinesa CNNC opera 25 reatores e mira exportação para mercados emergentes.
De acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica, o mundo opera 415 reatores comerciais em 2025. Argentina ocupa nicho técnico raro: tem 5 décadas de operação, controla a cadeia de urânio natural e desenvolve SMR próprio.

Reveal futuro: o cronograma de exportação até 2030
O próximo passo previsto pela NASA é assinar os primeiros contratos internacionais de serviço técnico ainda em 2026. O foco inicial são países latino-americanos sem expertise nuclear: Bolívia, Paraguai e Uruguai estudam programas iniciais.
Em paralelo, o cronograma inclui 3 marcos críticos até 2030. O primeiro é a entrada em operação do CAREM-25 em 2027. O segundo é o início da construção do CAREM-300 em 2028.
O terceiro é a primeira exportação de tecnologia para um cliente estrangeiro até 2030.
Conforme a Secretaria de Energia Argentina, a meta é elevar a participação nuclear na matriz elétrica argentina de 7,5% para 15% até 2035. Vale lembrar a cobertura de transformações setoriais comparáveis em outros países.
- Mudança estatutária: 13 de maio de 2026
- Empresa: Nucleoeléctrica Argentina S.A. (NASA)
- Centrais operadas: 3 (Atucha I, Atucha II, Embalse)
- Potência total instalada: 1.736 MW
- Tecnologia: CANDU PHWR (urânio natural, água pesada)
- SMR argentino: CAREM-25 (25 MW), comercial CAREM-300
- Funcionários: 2.800 ativos
- Meta nuclear na matriz: 15% até 2035 (atual 7,5%)

Os pontos que ainda dependem de negociação política
Apesar da decisão estatutária, 3 frentes ainda dependem de avanço político. A abertura parcial do capital da NASA precisa de aprovação do Congresso argentino, sem maioria automática do oficialismo em 2026.
Por outro lado, contratos internacionais exigem certificação da IAEA e da ARN argentina. Por fim, sindicatos e Asociación de Trabajadores del Estado negociam garantias de emprego para os 2.800 funcionários atuais.
O resultado define o ritmo da fase comercial internacional da NASA.

-
1 pessoa reagiu a isso.