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Enquanto o setor nuclear global é dominado por Westinghouse, Rosatom, KEPCO e EDF, a estatal argentina Nucleoeléctrica aprova mudança no estatuto para vender serviços técnicos no mercado internacional e se posicionar como exportadora de know-how nuclear acumulado em 5 décadas

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 20/05/2026 às 11:15
Atualizado em 20/05/2026 às 11:17
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Enquanto o setor nuclear global é dominado por Westinghouse, Rosatom, KEPCO e EDF, a estatal argentina Nucleoeléctrica Argentina (NASA) aprovou em 13 de maio de 2026 uma mudança no estatuto que a transforma de simples operadora de 3 usinas em vendedora de serviços técnicos no mercado nuclear internacional, conforme cobertura de El Cronista.

O movimento acompanha o plano do governo Milei de abrir parcialmente o capital da empresa e dar à energia nuclear um papel central na estratégia energética e exportadora.

A NASA passa a oferecer engenharia, manutenção, paradas de planta e assistência técnica internacional.

Na prática, o estatuto antigo limitava a empresa a gerar eletricidade nas usinas Atucha I, Atucha II e Embalse. Agora, com a nova unidade de negócio, a empresa pode prestar serviços a terceiros em períodos de menor atividade das centrais locais.

O que muda exatamente com o novo estatuto de 2026

O ponto central do cambio é o objeto social mais amplo. A NASA passou a definir-se como empresa que gera eletricidade e também vende capacidades técnicas acumuladas em mais de 5 décadas.

Conforme cobertura de EconoJournal, a assembleia de acionistas aprovou explicitamente uma nova unidade de comercialização de serviços e insumos para centrais nucleares.

Essa frente inclui 5 categorias: operação, manutenção, paradas programadas, engenharia especializada e assistência internacional.

A lógica comercial é direta. A NASA opera 3 usinas com paradas técnicas periódicas. Nos períodos de menor atividade local, os mesmos engenheiros podem participar de contratos no exterior, conforme El Cronista.

Em paralelo, o oficialismo apresenta o movimento como “colocar em valor” o know-how nuclear argentino. O Brasil tem o programa Angra com Eletronuclear, mas opera com tecnologia diferente: PWR americano e alemão na Angra 1 e 2.

Os números do parque nuclear argentino em 2026

A NASA opera as 3 únicas centrais nucleares de potência do país. A operação total soma 1.736 megawatts de potência instalada.

A Atucha I entrou em operação em 1974 com 335 MW líquidos. Foi a primeira usina nuclear da América Latina e mantém operação contínua há 52 anos, com extensão de vida útil aprovada pela Autoridad Regulatoria Nuclear (ARN).

A Atucha II começou operação comercial em 2014 com 745 MW. É a maior das 3, situada às margens do rio Paraná, no município de Lima, na província de Buenos Aires.

A construção levou cerca de 31 anos entre projeto inicial em 1980 e operação plena.

A Embalse, em Córdoba, entrou em serviço em 1984 com 656 MW. Foi modernizada em 2015-2019 com extensão de vida por mais 30 anos. A operação prolongada é referência regional em retrofit nuclear.

Torre de contenção da Central Nuclear Embalse na província de Córdoba Argentina com vegetação ao redor
Central Nuclear Embalse, em Córdoba, ampliou vida útil em 30 anos após retrofit. Imagem: divulgação Nucleoeléctrica Argentina.

Reveal técnico: a tecnologia CANDU sem enriquecimento

Em segundo plano, a Argentina opera com tecnologia distinta de outros países latino-americanos. A central de Embalse usa a tecnologia CANDU canadense, sigla para Canadian Deuterium Uranium.

O sistema CANDU é um reator de água pesada pressurizada do tipo PHWR. Funciona com urânio natural sem necessidade de enriquecimento, diferente dos reatores PWR americanos que dominam Brasil e EUA.

A vantagem geopolítica é clara. Operar com urânio natural reduz a dependência da cadeia internacional de enriquecimento, controlada por 5 países: EUA, Rússia, França, China e Holanda. Argentina conserva autonomia técnica.

Por outro lado, as Atuchas I e II são reatores de água pesada pressurizada de design alemão original, com particularidades desenvolvidas em parceria entre a indústria nuclear argentina e fornecedores europeus.

Essa combinação rara explica a robustez técnica argentina em 5 décadas.

O CAREM, o reator modular argentino de 25 MW

O projeto CAREM é um dos mais emblemáticos da nuclear argentina recente. É um pequeno reator modular (SMR) com 25 MW elétricos na versão de demonstração.

Conforme dados da Comissão Nacional de Energia Atômica, o CAREM começou a ser projetado em 1984. O protótipo do CAREM-25 está em construção em Lima desde 2014, com previsão de entrada em operação em 2027.

A versão comercial planejada é o CAREM-300, com 300 MW de potência. O design segue o conceito mundial de SMRs, que ganharam tração após 2020 com projetos como o NuScale dos EUA e o BWRX-300 da GE Hitachi.

Em paralelo, o mercado mundial de SMRs deve movimentar cerca de US$ 150 bilhões até 2040 conforme a IAEA. Argentina mira posição relevante nesse nicho com o CAREM, contando com a base técnica acumulada.

Maquete técnica do reator modular argentino CAREM 25 MW em exposição com painel explicativo
Maquete do reator modular argentino CAREM-25, em construção em Lima desde 2014. Imagem: divulgação CNEA.

Reveal humano: o plano nuclear de Milei e Caputo

A face humana do giro estratégico está no presidente Javier Milei e em seu ministro de Economia, Luis Caputo. Em entrevistas em 2025 e 2026, Milei posicionou a energia nuclear como pilar do reset energético argentino, ao lado de Vaca Muerta no petróleo e gás.

Conforme análise da Infobae, o plano oficial em 2026 inclui 4 movimentos. Primeiro, abrir parcialmente o capital da NASA para investidores privados.

Segundo, vender serviços ao exterior. Terceiro, acelerar o CAREM. Quarto, posicionar Argentina como exportadora de tecnologia nuclear na América Latina.

Em paralelo, o presidente da NASA é José Luis Antúnez, engenheiro nuclear com 28 anos de carreira na empresa. Antúnez conduz tecnicamente a mudança e responde à coordenação do ministério de Economia.

Por outro lado, sindicatos da empresa expressaram preocupação. A Asociación de Trabajadores del Estado teme que a abertura de capital leve à demissão de até 1.200 dos 2.800 funcionários atuais. A negociação coletiva continua.

Como a Argentina se compara aos gigantes nucleares

O mercado nuclear global reúne 4 atores dominantes em 2026. A Westinghouse americana lidera com 60 reatores PWR em operação no mundo.

A Rosatom russa controla 35 reatores e exporta tecnologia VVER para Egito, Bangladesh e Turquia.

A KEPCO sul-coreana construiu 4 reatores APR-1400 nos Emirados Árabes Unidos em 12 anos. A EDF francesa opera 56 reatores domésticos e exporta o EPR para Reino Unido e China.

A chinesa CNNC opera 25 reatores e mira exportação para mercados emergentes.

De acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica, o mundo opera 415 reatores comerciais em 2025. Argentina ocupa nicho técnico raro: tem 5 décadas de operação, controla a cadeia de urânio natural e desenvolve SMR próprio.

Reator nuclear PWR em construção com guindastes operários ao redor da contenção em vista aérea industrial
Construção de reator nuclear contemporâneo: Argentina mira nicho técnico de SMRs com o CAREM. Imagem: divulgação IAEA.

Reveal futuro: o cronograma de exportação até 2030

O próximo passo previsto pela NASA é assinar os primeiros contratos internacionais de serviço técnico ainda em 2026. O foco inicial são países latino-americanos sem expertise nuclear: Bolívia, Paraguai e Uruguai estudam programas iniciais.

Em paralelo, o cronograma inclui 3 marcos críticos até 2030. O primeiro é a entrada em operação do CAREM-25 em 2027. O segundo é o início da construção do CAREM-300 em 2028.

O terceiro é a primeira exportação de tecnologia para um cliente estrangeiro até 2030.

Conforme a Secretaria de Energia Argentina, a meta é elevar a participação nuclear na matriz elétrica argentina de 7,5% para 15% até 2035. Vale lembrar a cobertura de transformações setoriais comparáveis em outros países.

  • Mudança estatutária: 13 de maio de 2026
  • Empresa: Nucleoeléctrica Argentina S.A. (NASA)
  • Centrais operadas: 3 (Atucha I, Atucha II, Embalse)
  • Potência total instalada: 1.736 MW
  • Tecnologia: CANDU PHWR (urânio natural, água pesada)
  • SMR argentino: CAREM-25 (25 MW), comercial CAREM-300
  • Funcionários: 2.800 ativos
  • Meta nuclear na matriz: 15% até 2035 (atual 7,5%)
Sala de controle de central nuclear argentina com operadores e painéis técnicos durante operação contínua
Sala de controle de Atucha II, em Buenos Aires, com 745 MW de potência instalada. Imagem: divulgação Nucleoeléctrica Argentina.

Os pontos que ainda dependem de negociação política

Apesar da decisão estatutária, 3 frentes ainda dependem de avanço político. A abertura parcial do capital da NASA precisa de aprovação do Congresso argentino, sem maioria automática do oficialismo em 2026.

Por outro lado, contratos internacionais exigem certificação da IAEA e da ARN argentina. Por fim, sindicatos e Asociación de Trabajadores del Estado negociam garantias de emprego para os 2.800 funcionários atuais.

O resultado define o ritmo da fase comercial internacional da NASA.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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