Noruega lidera energia eólica flutuante com torres gigantes, bases de 5.000 t e cabos submarinos que levam energia do mar para indústrias no continente.
Segundo a Equinor (antiga Statoil), a Agência Internacional de Energia (IEA) e o Ministério de Petróleo e Energia da Noruega, o país opera o maior parque eólico flutuante do mundo até 2023/2024: Hywind Tampen, localizado no Mar do Norte. A construção começou oficialmente em 2019, a instalação das turbinas ocorreu entre 2021 e 2023, e o sistema entrou em operação parcial em novembro de 2022, atingindo operação ampliada em 2023.
A Noruega já havia testado a tecnologia flutuante antes, com o projeto Hywind Scotland, instalado em 2017 em parceria com o Reino Unido, demonstrando ao mundo que parques eólicos podem ser instalados em águas profundas e fora da plataforma continental, algo que turbinas fixas convencionais não conseguem fazer devido ao limite de profundidade.
O que diferencia o caso norueguês é a escala, a profundidade, o peso estrutural e a integração industrial: as turbinas alimentam não apenas a rede elétrica tradicional, mas também plataformas de petróleo offshore, reduzindo o uso de gás natural para geração energética — algo documentado pela própria Equinor.
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Por que a Noruega precisou construir turbinas eólicas flutuantes?
A costa norueguesa é uma das mais profundas do mundo. A poucos quilômetros da costa, a profundidade já ultrapassa 300 metros, e em muitos trechos supera 1.000 metros. Em águas tão profundas, não é possível instalar torres fixas com estacas, como ocorre no Reino Unido, Dinamarca, Alemanha ou China.
A solução encontrada pelo setor energético norueguês foi aplicar conceitos de: engenharia naval, energia eólica e offshore de petróleo e gás. A Noruega possui 50 anos de experiência com plataformas flutuantes, navios FPSO, catenárias submarinas, mooring lines, e cabos de exportação de energia, o que facilitou a transição tecnológica.
A engenharia por trás das torres eólicas gigantes
As turbinas usadas em Hywind Tampen são do tipo flutuante com lastro, apoiadas em estruturas chamadas spar platforms — similares a plataformas de petróleo cilíndricasSegundo a Equinor, cada unidade possui:
- Altura superior a 100 metros acima da superfície
- Cerca de 80–120 metros abaixo da linha d’água
- Bases flutuantes de até 5.000 toneladas
- Diâmetro das pás próximo de 167 metros (em alguns modelos)
- Profundidades operacionais entre 200 e 800 metros
Essas bases são ancoradas com cabos de aço e sistemas de amarração capazes de suportar ondas de até 20 metros, ventos superiores a 100 km/h e correntes oceânicas intensas.
Cada turbina é conectada por cabos submarinos de alta tensão, que percorrem o fundo do Mar do Norte até chegarem aos sistemas de processamento.
Energia offshore para alimentar plataformas offshore
Um dos aspectos mais curiosos do projeto norueguês é o ciclo industrial fechado: a energia gerada no mar alimenta plataformas de petróleo e gás, reduzindo as emissões associadas à produção. Segundo dados oficiais divulgados pela Equinor e confirmados pela Agência Internacional de Energia:
- Hywind Tampen tem capacidade instalada de 88 MW
- Pode suprir até 35% da demanda energética de plataformas como Snorre e Gullfaks
- Reduz emissões anuais em cerca de 200 mil toneladas de CO₂
Isso transforma turbinas flutuantes em peças da transição energética, e não apenas em geração elétrica convencional.
Construção: da doca ao oceano
O processo construtivo envolve:
- Fabricação em porto
As bases flutuantes e componentes estruturais são montados em estaleiros noruegueses ou escoceses. - Acoplamento das torres
As torres são eretas ainda no porto ou em diques secos. - Instalação das pás
As pás são montadas verticalmente, em operação de alta precisão com guindastes oceânicos. - Reboque oceânico
A turbina completa é rebocada por empurradores até o ponto de ancoragem. - Conexão submarina
Cabos elétricos e linhas de ancoragem são posicionados com ROVs (veículos remotamente operados).
O conjunto forma uma planta geradora em alto mar, sem ilhas artificiais, sem plataformas fixas e sem necessidade de dragagem maciça.
Escala, custos e impacto internacional
Segundo estimativas oficiais divulgadas durante o desenvolvimento do projeto, Hywind Tampen custou aproximadamente 7,4 bilhões de coroas norueguesas, com apoio financeiro do governo norueguês para estimular inovação industrial. O impacto é considerado global por três motivos principais:
- Águas profundas dominam os melhores ventos do planeta
Estudos da IEA mostram que 80% do potencial eólico offshore está em águas profundas onde turbinas fixas não podem ser instaladas. - Empresas de petróleo estão se tornando elétricas
Equinor, Shell e BP estão investindo em eólica flutuante, e parte dessa mudança nasceu na engenharia norueguesa. - Países que não têm plataforma continental agora podem entrar no jogo
Japão, Coreia do Sul, EUA (Costa Oeste), Noruega e Espanha têm geografia semelhante — costas profundas, onde turbinas fixas não servem.
Como isso muda o mapa energético mundial
A Noruega não está apenas gerando energia: está exportando tecnologia. Países que já anunciaram ou operam turbinas flutuantes baseadas em conceitos noruegueses incluem:
- Japão — pilotos pós-Fukushima
- Reino Unido — Hywind Scotland operacional desde 2017
- Portugal — plataforma WindFloat
- Coreia do Sul — grandes estudos na costa leste
- Espanha — planos na costa atlântica
- EUA — projetos na Califórnia e Oregon
A IEA estima que, se todo o potencial de águas profundas for explorado, a eólica flutuante poderia abastecer 11 vezes o consumo elétrico mundial — número citado em relatórios oficiais da agência.
Por que este modelo é interessante para outros países?
Alguns fatores estratégicos tornam a Noruega um laboratório energético global:
- geologia difícil → exige inovação
- engenharia naval madura
- estaleiros e indústria offshore já instalada
- capital estatal e governança energética forte
- política ambiental consolidada
Estados costeiros com condições semelhantes poderão replicar o modelo, inclusive países com pouca costa raso.


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