Em janeiro de 2024, a Noruega aprovou abrir uma área de 280 mil km² para mineração em mar profundo no Ártico, mas o 1º leilão de licenças foi suspenso e segue em disputa.
Quando a Noruega decidiu abrir caminho para a mineração em mar profundo no Atlântico Norte e em áreas associadas ao Ártico, ela não estava apenas falando de “mais uma fronteira de recursos”. O país colocou na mesa um tema que mexe com três pilares ao mesmo tempo: segurança de cadeia industrial, minerais críticos e risco ambiental em ecossistemas pouco conhecidos.
O ponto-chave é que a Noruega, em janeiro de 2024, aprovou no Parlamento um plano para abrir uma área gigantesca, cerca de 280.000 km², para atividades relacionadas a minerais no fundo do mar, com intenção de começar a conceder licenças a partir de 2025.
Só que o roteiro não ficou linear: a primeira rodada de licenças foi suspensa após negociação política ligada ao orçamento, e, mais tarde, decisões governamentais indicaram que não haveria emissão de licenças durante o atual mandato parlamentar, com horizonte até 2029, segundo a cobertura da imprensa.
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O que a Noruega aprovou, e o tamanho real do movimento
O que foi aprovado em 2024 não foi “começar a minerar amanhã”. Foi abrir a porta legal e política para que o país avance rumo a uma nova indústria: extração de recursos minerais do leito oceânico em sua plataforma continental e áreas marítimas sob jurisdição nacional.
O número que dá dimensão ao movimento é esse: 280.000 km², uma área maior do que muitos países, citada por veículos internacionais como o espaço que poderia ser aberto a pedidos e processos ligados à mineração em mar profundo.
Outro dado importante é a profundidade. Parte relevante do debate se concentra em depósitos associados a sistemas hidrotermais e dorsais meso-oceânicas, frequentemente em torno de 3.000 metros de profundidade.
Quais minerais estão em jogo
A narrativa pública é “minerais para a transição energética”. Na prática, é também uma agenda de competitividade industrial e dissuasão geopolítica: reduzir dependências externas em cadeias como baterias, turbinas e eletrônica.
A estimativa de recursos no mar norueguês, divulgada pela Norwegian Offshore Directorate (diretoria estatal ligada ao setor offshore), cita volumes potenciais de metais em dois grandes tipos de ocorrência: sulfetos polimetálicos (associados a fontes hidrotermais, os “black smokers”) e crostas de manganês (manganese crusts).
Entre os números que mais chamam atenção, a diretoria aponta, por exemplo:
- 38 milhões de toneladas de cobre e 45 milhões de toneladas de zinco em sulfetos, além de estimativas de ouro e prata.
- Para crostas de manganês, estimativas incluem cobalto em milhões de toneladas e volumes relevantes de metais usados em tecnologia, além de terras raras como cério e neodímio em estimativas de grande escala.
Esses números não significam “reserva provada” pronta para extração. Eles são estimativas de recursos baseadas em dados geológicos e amostras, usadas para balizar cenários e políticas. Mas são fortes o bastante para explicar por que a Noruega decidiu abrir um debate que muitos países evitam.
A virada política: abriu em 2024, mas o licenciamento travou
O que transformou o tema em crise política foi o calendário. O governo norueguês pretendia começar a emitir licenças em 2025.
Só que, em negociações de orçamento, partidos exigiram pausar a primeira rodada como condição para apoio. Reportagens apontam que isso, na prática, “congelou” o início do licenciamento durante o período do mandato.
Em 2025, a discussão voltou a ganhar manchetes com a ideia de que o país não emitiria licenças no atual mandato, com horizonte até 2029, ainda que trabalhos preparatórios e discussão regulatória pudessem continuar.
Ou seja, a mensagem fica clara e poderosa: a Noruega legalizou o caminho, mas ainda não liberou a corrida.
Por que a Noruega quis liderar esse movimento agora
Existem três razões que aparecem repetidamente nas justificativas e análises públicas:
1) Cadeias de baterias e metais estratégicos
Cobre, níquel, cobalto, terras raras e metais associados viraram insumos críticos de tecnologia e energia. E como a China domina parte expressiva de processamento e refino global, qualquer estratégia de “autonomia” passa por diversificar fontes.
2) Uma “nova indústria” para o pós-petróleo
A Noruega é potência de petróleo e gás, mas também tenta se posicionar na transição. A mineração submarina aparece como possibilidade de manter expertise offshore, navios especializados, robótica submarina e cadeias industriais avançadas.
3) Jurisdição nacional, menos guerra jurídica que em águas internacionais
Boa parte do debate mundial sobre mineração submarina passa pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), ligada à ONU. A Noruega, ao focar suas áreas sob jurisdição, tenta operar num terreno regulatório diferente do “alto-mar”, embora isso não elimine críticas e disputas.
O ponto crítico: o que pode dar errado no fundo do mar
O argumento ambiental contra a mineração em mar profundo é simples e pesado: o oceano profundo é pouco conhecido, e certas perturbações podem ser praticamente irreversíveis em escala humana.
Organizações ambientais e parte da comunidade científica alertam para risco de dano a biodiversidade, ruído, plumas de sedimento, impactos sobre cadeias alimentares e incertezas sobre recuperação de habitats.
Esse choque virou também disputa judicial. A WWF Noruega, por exemplo, moveu ação contestando a abertura, argumentando falhas na avaliação das consequências.
Mesmo quem não é “contra por princípio” costuma dizer que o custo do erro pode ser enorme, justamente porque o ambiente é difícil de monitorar e lento para se regenerar.
O que a suspensão significa na prática: morreu ou só está esperando?
Pelos relatos mais consistentes, não é “fim definitivo” e também não é “liberação total”. É uma postergação política: o país mantém debate, mapeamento e preparação regulatória, mas segura a chave da porta na parte mais sensível, que é liberar licenças e iniciar exploração.
Para quem acompanha a guerra global por minerais críticos, o recado é duplo:
- A Noruega sinalizou que quer estar no tabuleiro.
- O custo político e ambiental do movimento é alto, e a sociedade norueguesa ainda não “assinou embaixo” do jeito que alguns setores industriais gostariam.


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