Maior produtor de petróleo da Europa, Noruega cria comissão para estudar saída dos hidrocarbonetos e amplia incentivos aos carros elétricos.
Mesmo ocupando a posição de maior produtora de petróleo da Europa, a Noruega começou a estruturar um debate formal sobre a redução de sua dependência dos hidrocarbonetos.
O movimento ocorre em um momento simbólico para o país escandinavo, cuja prosperidade econômica está diretamente ligada à exploração de petróleo e gás natural nas últimas décadas.
A iniciativa ganhou forma após um acordo político firmado entre o governo trabalhista, que atua em minoria no Parlamento, e o Partido Verde norueguês (MDG), durante as negociações do orçamento de 2026.
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Comissão vai estudar cenários para pós-petróleo na Noruega
Como parte do compromisso político fechado na noite de terça para quarta-feira (3), ficou definida a criação de uma comissão oficial. O grupo terá como missão analisar caminhos para a economia norueguesa em um cenário de declínio da produção de petróleo e gás.
Segundo o mandato apresentado pelo governo, a comissão deverá “examinar diferentes cenários e medidas visando melhorar a capacidade de adaptação da economia norueguesa, incluindo a forma como a mão de obra e os recursos naturais podem ser utilizados de maneira mais eficiente, enquanto a plataforma continental norueguesa entra em uma nova fase marcada pelo declínio da produção de petróleo e gás”.
A proposta representa um passo inédito em um país que construiu grande parte de seu fundo soberano e de suas políticas sociais com receitas da indústria petrolífera.
Ecologistas falam em “último capítulo” da era do petróleo
O acordo foi comemorado pelo MDG, que vinha pressionando o governo por medidas mais claras de transição econômica. Em comunicado oficial, Ingrid Liland, responsável do partido pelas questões financeiras, usou um tom simbólico ao comentar o avanço.
“Estamos começando agora a escrever o último capítulo da história petrolífera da Noruega e, assim, abrimos caminho para todas as novas aventuras que farão o país avançar”, afirmou.
No programa apresentado antes das eleições legislativas marcadas para 8 de setembro, os ecologistas defendem que a Noruega estabeleça um plano para sair dos hidrocarbonetos até 2040, prazo considerado ambicioso diante do peso do petróleo na economia nacional.
Europa acelera transição enquanto Brasil segue caminho distinto
O debate norueguês acontece em paralelo a movimentos estratégicos em outras regiões. A União Europeia, por exemplo, tem acelerado investimentos bilionários para reduzir sua dependência da China em terras raras, consideradas fundamentais para a transição energética e para a autonomia industrial do bloco.
Enquanto isso, o Brasil segue em direção oposta. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende a ampliação da exploração de petróleo na foz do rio Amazonas. O argumento central é garantir recursos para políticas sociais e financiar a própria transição verde.
O contraste expõe visões distintas de soberania energética. De um lado, Bruxelas aposta na diversificação mineral e na redução de vulnerabilidades geopolíticas. Do outro, Brasília insiste na expansão da fronteira fóssil como estratégia de desenvolvimento, mesmo sob críticas ambientais e pressão internacional.
Além da comissão sobre o futuro do petróleo, o MDG obteve outra vitória relevante nas negociações orçamentárias. O governo aceitou adiar a retirada dos incentivos fiscais para a compra de veículos elétricos.
Atualmente, na Noruega, carros elétricos novos são isentos de IVA, imposto equivalente ao ICMS, cuja alíquota é de 25%, até o valor de 500 mil coroas norueguesas, cerca de R$ 263 mil.
No projeto inicial do orçamento, o Partido Trabalhista pretendia reduzir esse teto para 300 mil coroas a partir do próximo ano e eliminar completamente a isenção em 2027. No entanto, o novo acordo estabelece um cronograma mais gradual.
Isenção de imposto será retirada de forma escalonada
Pelos termos definidos, a eliminação total do incentivo foi adiada para 2028. Antes disso, haverá uma fase intermediária em 2027, quando a isenção valerá apenas para veículos de até 150 mil coroas, desde que as autoridades europeias aprovem a medida.
Para representantes do setor, a decisão é estratégica. “É muito importante para o desenvolvimento do carro elétrico que o IVA seja introduzido de forma mais gradual do que o governo previa inicialmente”, comentou Christina Bu, secretária-geral da Associação Norueguesa de Veículos Elétricos.
Atualmente, a Noruega apresenta a maior taxa de penetração de carros elétricos do mundo. Eles representam quase 100% dos novos veículos registrados no país, reforçando o contraste entre a força do petróleo na produção e o avanço acelerado de alternativas no consumo.
