No deserto do Atacama, capturadores de névoa transformam camanchaca em água potável com sistema no Chile.
No norte do Chile, o deserto do Atacama concentra algumas das paisagens mais secas do planeta, mas também convive com um fenômeno atmosférico que muda completamente a lógica da sobrevivência local: a camanchaca, névoa costeira que avança do Pacífico e carrega microgotas de água sobre áreas áridas. Em vez de esperar pela chuva, pesquisadores e comunidades aprenderam a capturar essa umidade diretamente do ar com uma tecnologia simples, passiva e de baixo consumo.
A solução ganhou escala a partir do trabalho do cientista chileno Carlos Espinosa Arancibia, ligado à Universidad Católica del Norte, e virou um dos exemplos mais conhecidos de aproveitamento de água atmosférica no mundo. Com malhas instaladas em áreas altas e expostas ao vento, os chamados capturadores de névoa transformam gotículas suspensas em água coletada por gravidade, sem motores e sem gasto direto de energia elétrica.
Camanchaca do Atacama criou um rio invisível sobre uma das regiões mais secas do mundo
A base de toda essa engenharia está na própria geografia do litoral chileno. A Organização dos Estados Americanos descreve a camanchaca como uma névoa frequente nas áreas costeiras áridas de Chile e Peru, formada por pequenas gotículas de água condensadas próximas à superfície.
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No Atacama, esse fenômeno se tornou estratégico porque oferece uma fonte alternativa de água doce em um território onde a escassez hídrica é parte da rotina histórica.
O mesmo documento técnico afirma que o deserto do Atacama é um dos mais secos do mundo e explica que, em sua faixa costeira, massas de ar úmido vindas do Oceano Pacífico formam essas neblinas matinais conhecidas localmente como camanchacas.
Em vez de cair como chuva regular, a água permanece suspensa no ar e só se torna aproveitável quando encontra uma superfície adequada para condensação.
É justamente aí que surge a força da invenção chilena. O sistema não cria água nem depende de processos industriais complexos. Ele apenas intercepta um fluxo atmosférico que já existe e converte uma névoa aparentemente inútil em abastecimento real para consumo humano, agricultura, restauração ecológica e apoio a pequenas comunidades.
Redes simples capturam microgotas e transformam névoa em água sem usar energia
O funcionamento dos capturadores de névoa é descrito de forma direta pela FAO e pela OEA. Quando a névoa atravessa as malhas, as microgotas ficam retidas na superfície da rede, se unem em gotas maiores e escorrem até calhas ou canaletas. A partir daí, a água segue para tanques ou reservatórios e pode ser distribuída por mangueiras ou tubulações até o ponto de uso.
A OEA afirma que os coletores em escala real são painéis retangulares de malha fina, geralmente de nylon ou polipropileno, montados perpendicularmente à direção predominante do vento.

O documento também destaca um ponto central para a força dessa tecnologia: o sistema é completamente passivo, e a água pode seguir por gravidade até o armazenamento, reduzindo a necessidade de infraestrutura energética mais cara.
As condições de instalação também são decisivas para o desempenho. Segundo a OEA, em Chile e Peru os projetos operam com melhores resultados em altitudes que variam de 400 a 1.000 metros acima do nível do mar, faixa em que a densidade da neblina tende a favorecer a captação.
A mesma fonte relata que, em experiências chilenas, as colheitas médias podem variar de 3,0 litros por metro quadrado por dia a índices superiores, dependendo de local, estação do ano e tipo de malha empregada.
Vila de Chungungo provou que captar névoa podia abastecer uma comunidade inteira
O caso que projetou os capturadores de névoa internacionalmente foi o de Chungungo, pequena localidade do norte do Chile.
O International Development Research Centre, do Canadá, relata que, no início dos anos 1990, a comunidade passou a beber água obtida da névoa capturada por grandes malhas instaladas na montanha de El Tofo. Segundo o órgão, o sistema entregava em média 15 mil litros de água por dia para uso local.
O mesmo relato afirma que o projeto transformou a vida da vila e se converteu em protótipo para experiências posteriores em outras partes do mundo. O ganho não foi apenas técnico. A chegada de água mais regular melhorou o cotidiano da população e mostrou, na prática, que uma tecnologia simples podia sair do campo experimental e entrar na rotina de uma comunidade que antes sofria com falta crônica de abastecimento.
Ainda que o sistema original de Chungungo tenha se degradado anos depois, a experiência permaneceu como marco histórico. Ela ajudou a consolidar a imagem do atrapanieblas como solução viável em territórios com neblina frequente, topografia favorável e dificuldade de acesso a fontes convencionais de água.
Atacama mostrou que uma malha barata pode virar ferramenta estratégica contra a escassez hídrica
A tecnologia continuou evoluindo após os primeiros experimentos e permanece ativa no Chile. Em reportagem publicada em 2026, a FAO informa que a Reserva Ecológica Cerro Grande reúne 34 capturadores de névoa, somando 306 metros quadrados de área de captação, com capacidade de coletar até 650 mil litros de água por ano, principalmente na primavera, quando a presença de névoa e vento é mais intensa.

O dado mostra por que os capturadores de névoa deixaram de ser apenas uma curiosidade científica. Eles se tornaram uma resposta concreta em regiões onde poços secam, caminhões-pipa encarecem o abastecimento e a água precisa ser tratada como recurso crítico. Além disso, a própria FAO destaca que a água captada hoje já é usada para irrigação, restauração ecológica e consumo de pessoas e animais, ampliando o valor social da tecnologia.
No fim, a história do Atacama comprova a força das soluções que nascem da observação do território. Carlos Espinosa enxergou potencial onde muitos viam apenas névoa, e o Chile transformou essa leitura em uma das experiências mais simbólicas de adaptação hídrica em zonas áridas.
O resultado é uma engenharia de aparência simples, mas de enorme peso estratégico: capturar água do ar em um dos lugares mais secos do planeta.


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