O Diabo-espinhoso (Moloch horridus) usa microcanais na pele para captar água do solo e levá-la até a boca, sobrevivendo ao deserto australiano com hidráulica natural.
Pouca gente imagina que um réptil possa “beber” sem encostar a boca na água, apenas usando o corpo como um sistema hidráulico natural. Mas o deserto australiano guarda esse fenômeno biológico raro e profundamente técnico: o Diabo-espinhoso, espécie Moloch horridus, um lagarto coberto de espinhos que vive em regiões áridas com chuvas inferiores a 250 mm por ano e temperaturas que podem passar dos 45 °C. A ciência vem estudando essa criatura há décadas porque ela resolveu um problema extremo: como obter água em um ambiente onde quase não existem poças, rios, dews ou reservatórios?
O fascínio começa na pele. A superfície do Diabo-espinhoso é composta por microestruturas que formam canais hidrofílicos interconectados, uma rede semelhante a minúsculos túneis que conduzem líquidos por capilaridade.
Quando a água toca esses canais, seja do orvalho, da chuva, da umidade da areia ou até da condensação entre grãos do solo, ela é puxada por gradientes de tensão superficial e caminha em direção à boca do animal. Estudos publicados no Journal of Experimental Biology descrevem essa microhidráulica cutânea e quantificam o fluxo, mostrando que o transporte pode ser contínuo e eficiente mesmo com volumes mínimos.
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A hidráulica natural do Moloch horridus
O mecanismo funciona graças à física simples e implacável da capilaridade. Entre escamas e espinhos existem microcanais com dimensões da ordem de dezenas a centenas de micrômetros.
Esses canais são conectados de forma que, quando molhados, criam uma via de fluxo contínuo até a comissura da boca. Nesse ponto, o lagarto realiza o movimento final: ele suga levemente, como se estivesse bebendo por um canudo selado, finalizando a ingestão.
Esse fenômeno já foi observado em laboratório usando corantes e câmeras de alta resolução. Pesquisadores da CSIRO (Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation) também investigaram o efeito de substratos arenosos úmidos, demonstrando que, mesmo sem água visível, o lagarto consegue coletar pequenos volumes suficientes para manter a hidratação.
Em condições experimentais, gotas aplicadas na cauda viajaram pelo corpo até a boca sem que o réptil precisasse se mover.
Sobreviver ao deserto, uma engenharia evolutiva
O habitat do Moloch horridus inclui áreas áridas do centro e oeste da Austrália, onde a disponibilidade hídrica é altamente sazonal. Chove pouco, o solo é pobre em retenção e as fontes de água superficiais evaporam rapidamente.
Nesse cenário, a seleção natural favoreceu adaptações radicais: dieta especializada em formigas (milhares por dia), metabolismo eficiente, comportamento críptico e a capacidade incomum de captar água do ambiente.
O acúmulo de água ocorre não só por chuva, mas também pela “lavagem” do próprio solo. Alguns estudos relatam que, quando o lagarto encontra um substrato úmido, ele espalma o corpo e aproveita a umidade ascendente para molhar a pele, ativando a rede capilar. É como se o animal transformasse a areia em um reservatório invisível.
Biomimética e interesse científico
O interesse no Diabo-espinhoso ultrapassou a zoologia. Pesquisadores de materiais estudaram o padrão de microcanais e a superfície hidrofílica para replicar estruturas com potencial uso em:
– Coleta passiva de água no deserto
– Superfícies hidrofílicas para engenharia ambiental
– Materiais para captação de neblina
– Dispositivos de dessalinização passiva
Laboratórios envolvidos em pesquisas de biomimética citam o Moloch horridus como inspiração semelhante ao besouro do deserto do Namibe e às plantas xerofíticas que condensam água na superfície.
O paradoxo de um lagarto coberto de espinhos
Embora a aparência seja agressiva, o Diabo-espinhoso é lento, pequeno (em torno de 10–16 cm de comprimento) e inofensivo ao ser humano. Seus espinhos servem para defesa contra predadores como aves de rapina e varanos, e não para armazenar água.
A arquitetura espinhosa, porém, ajuda a aumentar a área de contato com gotas e orvalho — mais contato, mais capilaridade.
Essa combinação faz do Moloch horridus um ponto de encontro entre física, ecologia e engenharia evolutiva. Ele não apenas sobrevive a um dos ambientes mais secos do planeta, mas o faz usando um método que até pouco tempo parecia ficção científica: absorver água com a pele e transportá-la por microcanais como se fosse tubulação.
O que essa espécie nos ensina?
No fim, o Diabo-espinhoso expõe uma verdade simples e poderosa: a natureza resolve problemas extremos com soluções extremas. A água, que para nós exige infraestrutura cara bombas, encanamentos, reservatórios pode ser capturada por um sistema cutâneo de micrômetros de largura, acionado apenas por física e instinto.
Em um mundo que busca tecnologias sustentáveis para regiões áridas, vale perguntar: quantas soluções já existem na natureza esperando para serem copiadas?

