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Navio naufragado da 2ª Guerra é identificado no litoral de SP: mergulhadores encontram o cargueiro Tutoya, torpedeado por submarino alemão, partido ao meio, a poucos metros, entre Peruíbe e Iguape

Escrito por Carla Teles
Publicado em 05/02/2026 às 21:28
Atualizado em 05/02/2026 às 21:54
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Navio naufragado Tutoya da Segunda Guerra Mundial, torpedeado por submarino alemão, é identificado no litoral de São Paulo após décadas. Foto: Naufrágios do Brasil/ Reprodução
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Mergulhadores confirmam que o navio naufragado encontrado no litoral de São Paulo é o cargueiro Tutoya, afundado na Segunda Guerra Mundial após ataque de submarino alemão.

Um grupo de mergulhadores brasileiros acaba de comprovar a identidade de um navio naufragado da Segunda Guerra Mundial no litoral de São Paulo, localizado entre Peruíbe e Iguape. A embarcação é o cargueiro Tutoya, torpedeado por um submarino alemão em 1943, e hoje repousa a poucos metros de profundidade, literalmente quebrado em duas partes no fundo do mar.

Mais do que um simples ponto de mergulho, o navio naufragado Tutoya virou uma cápsula do tempo, preservando em aço e ferrugem um capítulo pouco conhecido da história naval do Brasil. A descoberta, feita com pesquisa sistemática, tecnologia de sonar e mergulhos sucessivos, confirma o relato de sobreviventes e reforça a importância do litoral paulista como rota estratégica na guerra.

Como o navio naufragado Tutoya foi encontrado

A história recente do navio naufragado começa em terra firme, com documentos e registros. Apaixonados por naufrágios e história marítima, a mergulhadora e pesquisadora Tatiana Mello e o mergulhador e pesquisador Maurício Carvalho iniciaram uma busca sistemática pelo Tutoya usando dados do Sistema de Informação de Naufrágios, o SINAU.

Eles sabiam que o cargueiro havia sido atacado por um submarino alemão durante a Segunda Guerra Mundial e que um navio naufragado sem identificação exata já era conhecido na região. Pescadores e moradores locais falavam há anos de uma estrutura no fundo do mar, usada como ponto de pesca esportiva.

Foi aí que entrou em cena o marinheiro Clayton Aloise, que repassou as coordenadas usadas por embarcações de pesca.

Com essas informações, o grupo traçou um plano: mapear o fundo, checar a profundidade e identificar se aquele navio naufragado poderia, de fato, ser o Tutoya registrado nos documentos históricos.

O papel do sonar e o primeiro mergulho

Antes de descerem, a equipe usou um sonar, equipamento que emite ondas sonoras para desenhar o relevo do fundo do mar.

Durante a navegação, um relevo diferente chamou a atenção dos mergulhadores, que foram se aproximando até lançar uma boia sobre o ponto suspeito.

Só então começou a etapa mais delicada. Era preciso planejar cada detalhe do mergulho, considerando profundidade, tempo de fundo e consumo de oxigênio, para que a visita ao navio naufragado fosse segura e produtiva.

No dia 26 de dezembro, com condições do mar favoráveis, Tatiana Mello, Marco Bafi e Luiz Flório finalmente conseguiram chegar ao local.

O primeiro mergulho durou cerca de 35 minutos. Para surpresa da equipe, logo na descida pelo cabo preso à boia, Tatiana caiu praticamente na praça de máquinas do navio.

Ainda no início da exploração, o grupo conseguiu medir a popa, identificar motores, guindastes de carga, leme e outros detalhes estruturais.

De volta ao barco, cruzaram essas medidas com os registros históricos. Quando os números bateram, veio a certeza: aquele navio naufragado era mesmo o Tutoya, afundado na costa brasileira em plena guerra.

A descoberta de que o navio estava partido ao meio

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No segundo mergulho, com as primeiras medidas confirmadas, o objetivo era entender melhor o estado dos destroços.

Durante a inspeção, os mergulhadores perceberam que o navio parecia “sumir” na areia em determinado ponto. A visibilidade não era das melhores, o que aumentou a dúvida: o navio naufragado acabava ali ou havia algo além daquela cortina de sedimentos?

Eles decidiram seguir adiante, nadando paralelos ao fundo. Depois de cerca de 15 a 20 metros, começaram a surgir manchas escuras, pedaços de metal, um “ferrinho aqui, outro ali”, até que uma nova estrutura tomou forma: a proa do navio.

Foi nesse momento que, como relata Tatiana, “caiu a ficha”. O Tutoya, agora identificado como aquele navio naufragado da Segunda Guerra, estava partido na sua parte central.

O torpedo havia atingido a região próxima à cabine de comando, exatamente como relatado pelos sobreviventes. O navio arqueou e afundou pelo meio, deixando popa e proa separadas no fundo do mar.

Para os mergulhadores, não era apenas uma constatação técnica. Ali estavam os restos do casco que abrigava sete brasileiros que perderam a vida no naufrágio, enquanto outros trinta conseguiram sobreviver e contar o que aconteceu naquela madrugada de 1943.

Um navio naufragado que preserva a memória da guerra

O Tutoya era um cargueiro a vapor de aço, construído em 1913 na Inglaterra com o nome de Mitcham. Depois, foi vendido ao Lloyd Brasileiro, rebatizado como Uno e, em 1929, ganhou o nome de Tutoya, em homenagem a uma cidade do Maranhão.

Mesmo em meio à Segunda Guerra Mundial, esse navio não deixou de navegar pela costa brasileira, transportando remédios, alimentos e todo tipo de carga que ligava estados e abastecia a população.

Segundo Tatiana Mello, o Brasil dependia diretamente desse tipo de cargueiro para manter o fluxo de insumos em um período crítico.

Na madrugada em que tudo mudou, o Tutoya foi atacado pelo submarino alemão U-513, que patrulhava a costa do país.

Mesmo depois de acender as luzes e se identificar, o cargueiro foi atingido. O torpedo acertou a área da cabine de comando, o navio arqueou e, pouco depois, se transformou em mais um navio naufragado na lista dos alvos da guerra no Atlântico Sul.

Sete tripulantes morreram, trinta sobreviveram e seus relatos ajudaram a reconstruir a cena que, hoje, é confirmada pelos mergulhadores no fundo do mar.

Para Maurício Carvalho, um navio naufragado é como uma cápsula do tempo, guardando hábitos, soluções de engenharia, tecnologia e modos de vida de uma época inteira.

Cada válvula, cada máquina, cada pedaço retorcido de aço conta parte de uma história que não está apenas nos livros, mas também nos destroços espalhados pelo leito marinho.

Por que o navio naufragado não pode ser retirado dali

Apesar da relevância histórica e emocional do achado, o Tutoya não voltará à superfície. Esse navio naufragado é hoje considerado um sítio arqueológico subaquático, protegido por legislação específica que impede a retirada de peças e qualquer intervenção que altere sua estrutura.

Segundo Maurício, o navio não tem valor comercial e, do ponto de vista jurídico, é um patrimônio histórico preservado no local onde afundou.

A visita de mergulhadores é apenas contemplativa e científica. Eles podem descer, observar, estudar, fotografar e filmar, mas não podem tocar ou recolher nenhum objeto. As informações e relatos utilizados neste conteúdo têm como base reportagem original publicada pelo portal Terra.

Essa abordagem reforça uma visão moderna da arqueologia marítima: o navio naufragado não é sucata, é memória material de um episódio de guerra vivido por brasileiros, testemunho silencioso de medo, coragem, morte e sobrevivência. Deixá-lo onde está é uma forma de respeitar a história e as vidas que se perderam ali.

Em cada nova visita, mergulhadores e pesquisadores “mergulham” de novo naquele segundo congelado de 1943, conectando o presente a um passado que, por muito tempo, ficou escondido sob a água turva do litoral paulista.

E você, se tivesse a chance de visitar esse navio naufragado do Tutoya no fundo do mar entre Peruíbe e Iguape, encararia o mergulho para ver de perto essa parte esquecida da história do Brasil?

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Carla Teles

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