Em sete expedições e 113 dias no mar, o navio científico mapeou mais de 106.000 km² do fundo oceânico, investigou vulcões ativos, documentou naufrágios de Guadalcanal e ampliou o retrato da biodiversidade em águas profundas
O navio científico E/V Nautilus concluiu uma temporada de campo de seis meses no Oceano Pacífico com um saldo que mistura tecnologia de ponta e descobertas em cadeia. Ao longo de sete expedições multidisciplinares, o navio científico percorreu diferentes regiões, combinando mapeamento do fundo do mar, operações com ROVs e levantamentos biológicos em áreas de difícil acesso.
No total, a temporada somou 113 dias no mar, com mais de 106.000 km² mapeados, 36 mergulhos bem-sucedidos com ROVs e 20 implantações de outros veículos. Entre os destaques, estão a exploração de vulcões submarinos ativos nas Marianas, a documentação de naufrágios históricos ligados às Batalhas de Guadalcanal e a identificação de mais de 400 espécies únicas registradas pela primeira vez nas Ilhas Cook, com mergulhos que chegaram a 5.200 metros.
Seis meses e sete expedições: o roteiro do navio científico pelo Pacífico

A temporada foi estruturada em etapas com objetivos diferentes, passando por Guam, Ilhas Marianas, Ilhas Salomão, Ilhas Marshall, Howland e Baker e Ilhas Cook.
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O navio científico operou com foco em mapeamento de alta cobertura e mergulhos robóticos, integrando veículos operados remotamente, veículos autônomos e iniciativas de monitoramento oceanográfico em larga escala.
O resultado final combinou exploração de habitats profundos, arqueologia marítima e coleta de amostras, além de um esforço robusto de divulgação, que levou a experiência do navio científico a milhões de pessoas em diferentes países.
Preparação em Guam: testes para mapeamento, ROV e telepresença
Antes de iniciar o ciclo principal, o navio científico realizou uma expedição anual de testes entre 26 de abril e 2 de maio, nas águas ao redor de Guam.
A equipe executou verificações de garantia de qualidade em sistemas de mapeamento e navegação, incluindo testes e calibrações de instrumentos acústicos e de posicionamento subaquático.
Essa fase também incluiu quatro mergulhos de teste com o sistema ROV de dois corpos, em diferentes configurações, totalizando mais de 20,8 horas de mergulho. A lógica era simples: reduzir risco e aumentar confiabilidade antes de levar os veículos a ambientes mais complexos e profundos.
Vulcões ativos nas Marianas: lava nova, gases e fontes hidrotermais em mudança
Entre 7 e 28 de maio, o navio científico apoiou a exploração de habitats de águas profundas ao redor das Ilhas Marianas. Foram mapeados mais de 20.504 km² do fundo do mar e realizados nove mergulhos com ROVs, cobrindo desde formações muito antigas até áreas de atividade vulcânica intensa.
No Monte Submarino Ahyi, os ROVs exploraram um cone de lava recém-formado e observaram que ele ainda liberava gases de forma intensa em uma área extensa.
No Monte Submarino Daikoku, a equipe documentou mudanças substanciais em relação ao levantamento de 2016, incluindo o desaparecimento de uma lagoa de enxofre fundido próxima ao topo.
Já no campo hidrotermal de Hafa Adai, o navio científico registrou que uma grande chaminé fumegante negra tombou desde a descoberta em 2016 e que uma nova chaminé menor estava se formando no lugar.
A expedição também ampliou o conhecimento sobre recifes ao explorar montes submarinos mais rasos na Dorsal Ocidental das Marianas, onde foram encontrados recifes de coral saudáveis entre 50 e 100 metros.
Além disso, houve seis implantações do AUV da Orpheus Ocean, com foco em habitats da planície abissal em uma área previamente inexplorada a leste da Fossa das Marianas.
Mapeamento em trânsito e fauna observada a partir do convés
De 21 a 28 de junho, o navio científico realizou uma expedição que precisou redirecionar o plano inicial após atrasos ligados a reparos imprevistos. O foco principal passou a ser operações de mapeamento em trânsito no Pacífico Ocidental, com 13.691 km² mapeados nas águas ao redor de Guam, dos Estados Federados da Micronésia e das Ilhas Salomão.
Mesmo com a prioridade no mapeamento, o navio científico fez levantamentos visuais de fauna a partir do convés de observação, documentando 631 indivíduos de 11 espécies de aves marinhas e registrando espécies de cetáceos, incluindo cachalotes e baleias-piloto-de-barbatana-curta.
A expedição também lançou seis bóias biogeoquímicas Argo, contribuindo para a cobertura de monitoramento do Pacífico Ocidental dentro de uma rede global com milhares de bóias operacionais.
Naufrágios de Guadalcanal: arqueologia marítima no Iron Bottom Sound

Entre 2 e 23 de julho, o navio científico realizou uma expedição às Ilhas Salomão para explorar sítios de patrimônio marítimo associados às Batalhas de Guadalcanal, no Estreito de Iron Bottom.
A operação integrou o veículo de superfície não tripulado DriX, utilizado 12 vezes, somando 380 horas de operação, com mapeamento de 979 km² do fundo do mar e registro de 112 alvos potenciais.
Os alvos mais relevantes foram investigados com os ROVs do navio científico em seis mergulhos, totalizando 138 horas e mais de 56 quilômetros de trajeto linear.
Ao final, 13 sítios de patrimônio marítimo foram documentados, incluindo dois encontrados pela primeira vez e um fotografado pela primeira vez, além de vários naufrágios que antes haviam sido registrados apenas parcialmente.
Cada sítio foi pesquisado de forma sistemática e completa, com mapas de alta resolução usando dados multifeixe e levantamentos visuais em close para registrar características e campos de destroços.
Ilhas Marshall: biodiversidade profunda e DNA ambiental em grande escala
Entre 27 de julho e 17 de agosto, o navio científico voltou o foco para habitats de águas profundas ao redor das Ilhas Marshall. A equipe mapeou 31.421 km² do fundo marinho e 15 montes submarinos, além de completar 10 mergulhos com ROV.
Entre as observações, apareceram comunidades profundas de alta densidade e diversidade, a descoberta de pelo menos duas novas espécies de octocorais e múltiplos novos registros de invertebrados para a região.
Um ponto central foi a integração de um amostrador autônomo de DNA ambiental ao ROV Hercules. Com ele, o navio científico filtrou mais de 20.000 litros de água do mar em profundidade e coletou 161 amostras de eDNA.
Somaram-se a isso 77 amostras biológicas e 30 geológicas para apoiar estudos de biodiversidade, reprodução de corais, biogeografia e contexto geológico. A missão também foi planejada em colaboração com partes interessadas locais, incluindo oficina prévia e participação de cientistas baseados nas Ilhas Marshall.
Howland e Baker: mapeamento amplo e levantamentos de aves marinhas
De 20 de agosto a 5 de setembro, o navio científico realizou uma expedição focada no mapeamento do fundo do mar na Zona Econômica Exclusiva dos EUA ao redor de Howland e Baker e em áreas não mapeadas ao longo da rota entre Ilhas Marshall e Samoa Americana.
Foram mapeados mais de 18.003 km², incluindo 11.192 km² na Zona Econômica Exclusiva, com quatro grandes montes submarinos mapeados em sua totalidade.
Além do mapeamento, houve levantamentos em superfície sobre abundância e diversidade da fauna marinha. O navio científico documentou mais de 8.000 aves de pelo menos 27 espécies e registrou também cetáceos, incluindo confirmações de baleia-piloto-de-barbatana-curta e baleia-de-cuvier.
Ilhas Cook: mergulhos a 5.200 metros e mais de 400 espécies registradas
Entre 1 e 21 de outubro, o navio científico apoiou uma expedição nas Ilhas Cook com foco no mapeamento de habitats da planície abissal. Foram coletados dados em 14.145 km², além de sete mergulhos com ROV que alcançaram o fundo do mar em profundidades de até 5.200 metros, em áreas ricas em nódulos polimetálicos.
Por envolver ambientes mais profundos, a missão usou o ROV Little Hercules, com capacidade para 6.000 metros, em vez do ROV Hercules, com capacidade para 4.000 metros.
O navio científico também integrou uma câmera MxD SeaCam, que forneceu imagens detalhadas do fundo do mar. Nessas observações, foram registradas mais de 400 espécies únicas, a grande maioria anotada pela primeira vez nas Ilhas Cook, incluindo a raríssima lula de águas profundas Magnapinna.
A expedição ainda lançou dois veículos autônomos de mergulho a 4.800 e 5.000 metros, projetados para coletar dados acústicos e ambientais contínuos por meses.
Educação e divulgação: milhões acompanharam o navio científico
Ao longo da temporada, a exploração foi compartilhada de forma ampla. As transmissões ao vivo somaram mais de 830.000 visualizações, enquanto vídeos de melhores momentos ultrapassaram 878.000 visualizações. O conteúdo em redes sociais gerou mais de 69 milhões de impressões.
O navio científico e a equipe produziram 63 vídeos de melhores momentos, 37 posts no blog e 11 álbuns de fotos.
Também ocorreram 418 interações ao vivo entre o navio e a costa com escolas e eventos, alcançando mais de 16.000 pessoas em 38 estados dos EUA e em diversos países e territórios do Pacífico, além de outros 15 países.
Dados e impacto: do convés aos repositórios e à ciência pública
Com exceção de conjuntos que incluem localização de sítios protegidos por regulamentações federais, os dados coletados pelo navio científico foram direcionados a repositórios para arquivamento e distribuição pública, com disponibilidade também sob solicitação.
A temporada contribuiu para prioridades da comunidade científica e de gestão de recursos, além de dialogar com iniciativas amplas de mapeamento e caracterização dos oceanos e com metas de monitoramento oceanográfico.
No conjunto, o navio científico E/V Nautilus reforçou como missões multidisciplinares, com integração de veículos, sensores e telepresença, aceleram a produção de dados e ampliam o alcance da descoberta.
Qual parte dessa temporada do navio científico mais te impressiona: os mergulhos a 5.200 metros, os vulcões ativos ou os naufrágios de Guadalcanal?
