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Na Coreia do Sul, adolescentes estudam das 7h à meia-noite desde a educação infantil, 46% dos estudantes do ensino médio de Seul têm depressão e o país registra a menor taxa de natalidade do mundo desde 2013

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 24/03/2026 às 13:19
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Sistema educacional da Coreia do Sul impõe jornadas de até 17 horas, pressiona estudantes e analistas destacam que isso afeta a saúde mental e natalidade do país.
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Sistema educacional da Coreia do Sul impõe jornadas de até 17 horas, pressiona estudantes e analistas destacam que isso afeta a saúde mental e natalidade do país.

Em 14 de novembro de 2024, mais de 520 mil estudantes sul-coreanos acordaram antes de amanhecer, tomaram um café da manhã rápido e se posicionaram em filas do lado de fora de escolas em todo o país. Naquela manhã, a bolsa de valores abriu com uma hora de atraso. Aviões foram proibidos de decolar ou pousar durante 35 minutos, o tempo da seção de compreensão auditiva do exame. Policiais foram mobilizados nas principais cidades para garantir que os candidatos chegassem às salas a tempo. Templos budistas e igrejas cristãs ficaram lotados de mães orando.

Era o Suneung, a prova que, na Coreia do Sul, define a vida. O Suneung ou CSAT (College Scholastic Ability Test) é um exame padronizado de oito horas que determina a admissão nas universidades coreanas. É feito uma vez por ano, na terceira quinta-feira de novembro. Não existe segunda chance no mesmo ciclo: quem erra ou vai mal aguarda um ano inteiro para tentar de novo. Em 2024, cerca de 35% dos candidatos eram retakers — estudantes que já tinham feito o exame pelo menos uma vez e não ficaram satisfeitos com a nota. Um deles tinha 83 anos.

Educação privada na Coreia do Sul e os hagwons: a engrenagem invisível da competição

O verdadeiro peso do sistema educacional sul-coreano não está apenas no exame final, mas na estrutura que o antecede. Desde a década de 1970, o país desenvolveu uma rede paralela de ensino conhecida como hagwon, academias privadas que funcionam fora do horário escolar e intensificam a preparação dos estudantes.

Em 2023, 78,5% dos alunos frequentavam pelo menos um hagwon, e a participação começa cada vez mais cedo. Estudos mostram que 83,6% das crianças de cinco anos já estavam inseridas nesse sistema, enquanto até mesmo crianças de dois anos já participavam de atividades educacionais estruturadas. Esse dado revela um ponto crítico: a competição acadêmica não começa no ensino médio, mas praticamente na primeira infância.

O impacto econômico dessa estrutura é igualmente significativo. O gasto nacional com educação privada atingiu 26 trilhões de won em 2022, equivalente a cerca de US$ 20 bilhões. Em 2023, o gasto médio mensal por estudante chegou a 434 mil won, um recorde histórico.

Para famílias mais ricas, isso representa até 18% da renda mensal, enquanto famílias mais pobres comprometem valores equivalentes ao gasto com alimentação, criando um ciclo de desigualdade educacional que se retroalimenta.

Rotina extrema de estudantes em Seul: jornadas de estudo de até 17 horas por dia

A rotina de um estudante do ensino médio em áreas como Daechi-dong, em Seul, exemplifica o nível de exigência do sistema.

O dia começa por volta das 7h, muitas vezes com sessões extras de estudo antes das aulas regulares. Após o período escolar, os alunos seguem diretamente para os hagwons, onde permanecem até as 22h ou meia-noite.

Sistema educacional da Coreia do Sul impõe jornadas de até 17 horas, pressiona estudantes e analistas destacam que isso afeta a saúde mental e natalidade do país.
Sistema educacional da Coreia do Sul impõe jornadas de até 17 horas, pressiona estudantes e analistas destacam que isso afeta a saúde mental e natalidade do país.

Mesmo após retornar para casa, o estudo continua. Em períodos de alta preparação, especialmente antes do Suneung, alguns estudantes permanecem em regimes intensivos em academias internas, com jornadas que vão das 6h até a meia-noite, todos os dias da semana. Esse modelo levou à criação de espaços como cabines insonorizadas para liberação de estresse, evidenciando o nível de pressão psicológica envolvido.

Esse padrão não é exceção, mas parte estrutural do sistema educacional sul-coreano, onde o desempenho acadêmico é tratado como fator determinante para mobilidade social.

Origem do modelo educacional sul-coreano e o Milagre do Rio Han

Para compreender como a Coreia do Sul chegou a esse nível de intensidade educacional, é necessário retornar ao período pós-Guerra da Coreia, em 1953. Naquele momento, o país possuía renda per capita de apenas US$ 79 e taxas elevadas de analfabetismo.

A resposta do Estado foi investir massivamente em educação pública como estratégia de desenvolvimento econômico. Em poucos anos, a taxa de alfabetização saltou drasticamente e o sistema educacional foi expandido em larga escala. Esse movimento foi fundamental para o crescimento econômico acelerado das décadas seguintes, conhecido como o Milagre do Rio Han.

Empresas como Samsung e Hyundai emergiram nesse contexto, sustentadas por uma força de trabalho altamente qualificada. A educação passou a ser vista como o principal ativo nacional, consolidando uma mentalidade coletiva de que o sucesso individual depende diretamente do desempenho acadêmico.

Universidades SKY e a competição extrema por vagas na Coreia do Sul

No topo do sistema educacional estão as universidades conhecidas como SKY: Seoul National University, Korea University e Yonsei University. Essas instituições concentram grande parte da elite política, econômica e administrativa do país.

O problema é estruturalmente matemático. Enquanto centenas de milhares de estudantes realizam o Suneung todos os anos, o número de vagas nas universidades de elite é limitado. Isso transforma o processo em uma competição de soma zero, onde o sucesso de um implica o fracasso de outro.

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Esse modelo intensifica ainda mais a dependência dos hagwons e perpetua a lógica de investimento crescente em educação privada. Quanto maior a competição, maior o gasto. Quanto maior o gasto, maior a desigualdade.

Saúde mental dos estudantes sul-coreanos: depressão, ansiedade e risco elevado

As consequências desse sistema são mensuráveis e preocupantes. Pesquisas com dezenas de milhares de estudantes indicam que uma parcela significativa apresenta sintomas de depressão, ansiedade e ideação suicida.

Estudos apontam que entre 19% e 30% dos estudantes apresentam sinais de depressão, enquanto uma parcela relevante já relatou pensamentos suicidas relacionados à pressão acadêmica. A Coreia do Sul figura entre os países com maiores taxas de suicídio entre jovens dentro da OCDE, sendo essa a principal causa de morte nessa faixa etária.

Casos extremos, como múltiplos suicídios em curtos períodos em regiões de alta competitividade educacional, reforçam a gravidade do cenário e indicam um sistema que ultrapassa os limites da sustentabilidade psicológica.

Queda da natalidade na Coreia do Sul e o impacto do custo educacional

O impacto do sistema educacional vai além da saúde mental e atinge diretamente a estrutura demográfica do país. Em 2023, a taxa de fecundidade da Coreia do Sul atingiu 0,72, a menor já registrada globalmente. Em Seul, esse número foi ainda menor.

Diversos estudos apontam o custo da educação privada como um dos principais fatores que desincentivam a natalidade. Famílias que projetam os gastos com hagwons ao longo de anos concluem que não conseguem sustentar mais de um filho, ou optam por não ter filhos.

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Mesmo com investimentos governamentais superiores a US$ 270 bilhões em políticas de incentivo à natalidade, os resultados permanecem limitados. A estrutura competitiva do sistema educacional continua sendo um dos principais entraves.

O limite do modelo educacional sul-coreano e o custo do sucesso

A Coreia do Sul é frequentemente citada como um dos maiores exemplos de transformação econômica do século XX. Em poucas décadas, o país saiu de uma economia devastada para se tornar uma das maiores potências industriais e tecnológicas do mundo.

No entanto, o mesmo sistema que impulsionou esse crescimento passou a gerar efeitos colaterais significativos. A pressão extrema sobre os estudantes, o custo elevado da educação privada e a queda acentuada da natalidade indicam que o modelo atingiu um ponto de tensão estrutural.

O exame Suneung continua a parar o país todos os anos, simbolizando a centralidade da educação na sociedade sul-coreana. Mas, ao mesmo tempo, cresce o debate sobre os limites desse modelo e sobre quanto tempo ele pode se sustentar sem comprometer o futuro demográfico e social do país.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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