Sistema educacional da Coreia do Sul impõe jornadas de até 17 horas, pressiona estudantes e analistas destacam que isso afeta a saúde mental e natalidade do país.
Em 14 de novembro de 2024, mais de 520 mil estudantes sul-coreanos acordaram antes de amanhecer, tomaram um café da manhã rápido e se posicionaram em filas do lado de fora de escolas em todo o país. Naquela manhã, a bolsa de valores abriu com uma hora de atraso. Aviões foram proibidos de decolar ou pousar durante 35 minutos, o tempo da seção de compreensão auditiva do exame. Policiais foram mobilizados nas principais cidades para garantir que os candidatos chegassem às salas a tempo. Templos budistas e igrejas cristãs ficaram lotados de mães orando.
Era o Suneung, a prova que, na Coreia do Sul, define a vida. O Suneung ou CSAT (College Scholastic Ability Test) é um exame padronizado de oito horas que determina a admissão nas universidades coreanas. É feito uma vez por ano, na terceira quinta-feira de novembro. Não existe segunda chance no mesmo ciclo: quem erra ou vai mal aguarda um ano inteiro para tentar de novo. Em 2024, cerca de 35% dos candidatos eram retakers — estudantes que já tinham feito o exame pelo menos uma vez e não ficaram satisfeitos com a nota. Um deles tinha 83 anos.
Educação privada na Coreia do Sul e os hagwons: a engrenagem invisível da competição
O verdadeiro peso do sistema educacional sul-coreano não está apenas no exame final, mas na estrutura que o antecede. Desde a década de 1970, o país desenvolveu uma rede paralela de ensino conhecida como hagwon, academias privadas que funcionam fora do horário escolar e intensificam a preparação dos estudantes.
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Em 2023, 78,5% dos alunos frequentavam pelo menos um hagwon, e a participação começa cada vez mais cedo. Estudos mostram que 83,6% das crianças de cinco anos já estavam inseridas nesse sistema, enquanto até mesmo crianças de dois anos já participavam de atividades educacionais estruturadas. Esse dado revela um ponto crítico: a competição acadêmica não começa no ensino médio, mas praticamente na primeira infância.
O impacto econômico dessa estrutura é igualmente significativo. O gasto nacional com educação privada atingiu 26 trilhões de won em 2022, equivalente a cerca de US$ 20 bilhões. Em 2023, o gasto médio mensal por estudante chegou a 434 mil won, um recorde histórico.
Para famílias mais ricas, isso representa até 18% da renda mensal, enquanto famílias mais pobres comprometem valores equivalentes ao gasto com alimentação, criando um ciclo de desigualdade educacional que se retroalimenta.
Rotina extrema de estudantes em Seul: jornadas de estudo de até 17 horas por dia
A rotina de um estudante do ensino médio em áreas como Daechi-dong, em Seul, exemplifica o nível de exigência do sistema.
O dia começa por volta das 7h, muitas vezes com sessões extras de estudo antes das aulas regulares. Após o período escolar, os alunos seguem diretamente para os hagwons, onde permanecem até as 22h ou meia-noite.

Mesmo após retornar para casa, o estudo continua. Em períodos de alta preparação, especialmente antes do Suneung, alguns estudantes permanecem em regimes intensivos em academias internas, com jornadas que vão das 6h até a meia-noite, todos os dias da semana. Esse modelo levou à criação de espaços como cabines insonorizadas para liberação de estresse, evidenciando o nível de pressão psicológica envolvido.
Esse padrão não é exceção, mas parte estrutural do sistema educacional sul-coreano, onde o desempenho acadêmico é tratado como fator determinante para mobilidade social.
Origem do modelo educacional sul-coreano e o Milagre do Rio Han
Para compreender como a Coreia do Sul chegou a esse nível de intensidade educacional, é necessário retornar ao período pós-Guerra da Coreia, em 1953. Naquele momento, o país possuía renda per capita de apenas US$ 79 e taxas elevadas de analfabetismo.
A resposta do Estado foi investir massivamente em educação pública como estratégia de desenvolvimento econômico. Em poucos anos, a taxa de alfabetização saltou drasticamente e o sistema educacional foi expandido em larga escala. Esse movimento foi fundamental para o crescimento econômico acelerado das décadas seguintes, conhecido como o Milagre do Rio Han.
Empresas como Samsung e Hyundai emergiram nesse contexto, sustentadas por uma força de trabalho altamente qualificada. A educação passou a ser vista como o principal ativo nacional, consolidando uma mentalidade coletiva de que o sucesso individual depende diretamente do desempenho acadêmico.
Universidades SKY e a competição extrema por vagas na Coreia do Sul
No topo do sistema educacional estão as universidades conhecidas como SKY: Seoul National University, Korea University e Yonsei University. Essas instituições concentram grande parte da elite política, econômica e administrativa do país.
O problema é estruturalmente matemático. Enquanto centenas de milhares de estudantes realizam o Suneung todos os anos, o número de vagas nas universidades de elite é limitado. Isso transforma o processo em uma competição de soma zero, onde o sucesso de um implica o fracasso de outro.
Esse modelo intensifica ainda mais a dependência dos hagwons e perpetua a lógica de investimento crescente em educação privada. Quanto maior a competição, maior o gasto. Quanto maior o gasto, maior a desigualdade.
Saúde mental dos estudantes sul-coreanos: depressão, ansiedade e risco elevado
As consequências desse sistema são mensuráveis e preocupantes. Pesquisas com dezenas de milhares de estudantes indicam que uma parcela significativa apresenta sintomas de depressão, ansiedade e ideação suicida.
Estudos apontam que entre 19% e 30% dos estudantes apresentam sinais de depressão, enquanto uma parcela relevante já relatou pensamentos suicidas relacionados à pressão acadêmica. A Coreia do Sul figura entre os países com maiores taxas de suicídio entre jovens dentro da OCDE, sendo essa a principal causa de morte nessa faixa etária.
Casos extremos, como múltiplos suicídios em curtos períodos em regiões de alta competitividade educacional, reforçam a gravidade do cenário e indicam um sistema que ultrapassa os limites da sustentabilidade psicológica.
Queda da natalidade na Coreia do Sul e o impacto do custo educacional
O impacto do sistema educacional vai além da saúde mental e atinge diretamente a estrutura demográfica do país. Em 2023, a taxa de fecundidade da Coreia do Sul atingiu 0,72, a menor já registrada globalmente. Em Seul, esse número foi ainda menor.
Diversos estudos apontam o custo da educação privada como um dos principais fatores que desincentivam a natalidade. Famílias que projetam os gastos com hagwons ao longo de anos concluem que não conseguem sustentar mais de um filho, ou optam por não ter filhos.
Mesmo com investimentos governamentais superiores a US$ 270 bilhões em políticas de incentivo à natalidade, os resultados permanecem limitados. A estrutura competitiva do sistema educacional continua sendo um dos principais entraves.
O limite do modelo educacional sul-coreano e o custo do sucesso
A Coreia do Sul é frequentemente citada como um dos maiores exemplos de transformação econômica do século XX. Em poucas décadas, o país saiu de uma economia devastada para se tornar uma das maiores potências industriais e tecnológicas do mundo.
No entanto, o mesmo sistema que impulsionou esse crescimento passou a gerar efeitos colaterais significativos. A pressão extrema sobre os estudantes, o custo elevado da educação privada e a queda acentuada da natalidade indicam que o modelo atingiu um ponto de tensão estrutural.
O exame Suneung continua a parar o país todos os anos, simbolizando a centralidade da educação na sociedade sul-coreana. Mas, ao mesmo tempo, cresce o debate sobre os limites desse modelo e sobre quanto tempo ele pode se sustentar sem comprometer o futuro demográfico e social do país.


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