Debaixo do gelo antártico, cientistas identificam paisagem fossilizada com rios e montanhas profundas que revelam como era o continente antes de congelar e se transformar no ambiente extremo atual.
A Antártida Oriental esconde sob quase dois quilômetros de gelo uma paisagem intacta que não vê a luz do sol há mais de 34 milhões de anos. A descoberta foi feita por uma equipe liderada pelo glaciologista Stewart Jamieson, da Universidade de Durham, na Inglaterra, usando o sistema canadense de satélites RADARSAT e levantamentos aéreos com radar de penetração de gelo.
Segundo o estudo publicado na Nature Communications, a área mapeada cobre aproximadamente 31 mil quilômetros quadrados — o equivalente ao País de Gales ou ao estado de Maryland — e contém três grandes blocos de terras altas de 120 a 170 quilômetros de extensão, separados por vales de até 40 quilômetros de largura e quase 1.200 metros de profundidade. “É como abrir uma cápsula do tempo”, disse Jamieson.
O continente que já foi verde
Há 34 milhões de anos, a Antártida não era o deserto gelado que conhecemos. Fazia parte de Gondwana — o supercontinente que incluía América do Sul, África, Índia e Austrália. O clima era temperado. Rios corriam por planícies costeiras, florestas densas cobriam o terreno e a biodiversidade era comparável à da Patagônia atual.
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Pólen de palmeiras e microfósseis de organismos aquáticos foram encontrados em sedimentos extraídos próximo à área de estudo, confirmando que o ambiente era úmido, quente e biologicamente ativo. A paisagem que os satélites revelaram agora sob o gelo foi esculpida por esses rios — não por geleiras. Os canais, vales e cristas identificados pelos pesquisadores têm padrões de erosão fluvial, não glacial.
Como encontrar rios sob dois quilômetros de gelo
Os pesquisadores não perfuraram o gelo. Usaram uma combinação de duas tecnologias de sensoriamento remoto que, juntas, permitiram mapear o terreno soterrado sem tocar nele. A primeira foi o satélite RADARSAT, que detecta variações mínimas na inclinação da superfície do gelo. Essas ondulações imperceptíveis a olho nu refletem a forma do terreno embaixo — como um lençol estendido sobre móveis revela seus contornos.
A segunda foi o radio-echo sounding (RES), realizado por aeronaves que sobrevoam a área emitindo pulsos de radar para baixo. O sinal atravessa o gelo, bate na rocha e volta. O tempo de retorno revela a profundidade e a forma do leito rochoso. Combinando os dois conjuntos de dados, os pesquisadores construíram um mapa tridimensional de um mundo que ninguém viu em 34 milhões de anos.
Três blocos de terra alta separados por abismos
O mapa revelou uma estrutura geológica organizada: três grandes blocos de terreno elevado, cada um com comprimento entre 120 e 170 quilômetros, separados por vales profundos de até 40 quilômetros de largura.
Os vales atingem quase 1.200 metros de profundidade — comparáveis ao Grand Canyon em escala vertical. Quando os pesquisadores aplicaram modelos de compensação isostática para corrigir o peso do gelo sobre o terreno, descobriram que as superfícies dos três blocos se alinham como uma planície costeira contínua, inclinada suavemente em direção ao oceano antigo. Isso indica que, antes da glaciação, a região era uma costa baixa e plana onde rios fluíam por centenas de quilômetros até desaguar no mar.
Por que a paisagem sobreviveu intacta
Normalmente, uma camada de gelo de dois quilômetros de espessura destrói tudo o que está embaixo. O peso esmaga, o movimento raspa e a erosão glacial remodela o terreno ao longo de milhões de anos. Mas isso não aconteceu aqui.
A explicação está nas condições específicas da região: o gelo na Antártida Oriental é extremamente frio e se move muito lentamente. Tão lentamente que, em vez de raspar o terreno, o protegeu. A cobertura de gelo funcionou como uma câmara criogênica natural — selando a paisagem fluvial no estado exato em que estava quando a glaciação começou. Os canais dos rios permanecem nítidos. As cristas entre os vales continuam definidas. É um registro geológico preservado com uma fidelidade que os pesquisadores não esperavam encontrar.
O momento em que tudo congelou
A transição de continente verde para continente congelado não foi gradual. Registros geológicos indicam que, quando os níveis de CO₂ na atmosfera caíram abaixo de um limiar crítico há cerca de 34 milhões de anos — no final do período Eoceno —, as correntes oceânicas ao redor da Antártida se reorganizaram e o gelo se expandiu rapidamente.

Evidências de sedimentos marinhos sugerem que a glaciação começou primeiro na parte oriental do continente, enquanto a parte ocidental permaneceu florestada e temperada por vários milhões de anos adicionais. A paisagem agora revelada sob o gelo da Antártida Oriental é, portanto, um registro do último momento antes do congelamento — o instante geológico em que rios ainda corriam, florestas ainda cresciam e a costa ainda existia.
O que a Patagônia conta sobre a Antártida
Em 2024, outra equipe de pesquisadores analisou sedimentos extraídos da costa da Antártida Ocidental, perto das geleiras de Pine Island e Thwaites. Encontraram pólen e microfósseis que revelam a existência de florestas temperadas semelhantes às da Patagônia atual, datadas de aproximadamente 34 milhões de anos.
A conexão entre a Antártida e a Patagônia não é apenas climática — é física. Quando ambas faziam parte de Gondwana, compartilhavam latitude, clima e ecossistemas. A separação continental empurrou a Antártida para o polo sul, isolou-a com correntes oceânicas circunpolares e iniciou o processo de glaciação. A Patagônia, mais ao norte, manteve seu clima temperado. A Antártida congelou. Mas debaixo do gelo, a paisagem patagônica original permaneceu intacta.
50 metros de nível do mar num único continente
A Antártida Oriental contém gelo suficiente para elevar o nível global dos oceanos em mais de 50 metros se derretesse completamente. É a maior massa de gelo do planeta — maior que a Groenlândia, maior que a Antártida Ocidental, maior que qualquer outra reserva de água congelada na Terra.
Saber onde estão os vales antigos e as planícies costeiras sob o gelo é crucial para modelar como o derretimento pode progredir num cenário de aquecimento global. Os vales profundos podem canalizar água de degelo e acelerar o colapso de setores inteiros da camada de gelo. As cristas podem funcionar como barreiras naturais que retardam o fluxo. Cada detalhe do mapa subglacial melhora a precisão das projeções de elevação do nível do mar que afetam cidades costeiras de Miami a Roterdã.
O próximo passo é perfurar
Jamieson e sua equipe já disseram publicamente o que querem fazer a seguir: ir até o local e perfurar o gelo para extrair amostras da rocha e dos sedimentos embaixo. Se conseguirem, poderão recuperar solos, restos orgânicos e possivelmente DNA antigo — refinando a reconstrução do ecossistema que existia quando a Antártida era verde.
Projetos como o Beyond EPICA já perfuraram mais de 2.800 metros de gelo em outras regiões da Antártida para recuperar cilindros de gelo de até 1,2 milhão de anos. Lagos subglaciais como o Vostok e o Mercer já foram amostrados com protocolos rigorosos de esterilização. Aplicar essas tecnologias ao “mundo perdido” mapeado por Jamieson seria o passo que transformaria imagens de satélite em evidência física tangível.
Gondwana: o supercontinente que se despedaçou
Para entender como a Antártida chegou ao estado atual, é preciso voltar mais no tempo. Há 180 milhões de anos, não existia Antártida, América do Sul, África, Índia ou Austrália como continentes separados. Existia Gondwana — uma massa de terra única que cobria grande parte do hemisfério sul.
A fragmentação de Gondwana começou no período Jurássico e se estendeu por dezenas de milhões de anos. A América do Sul se separou da África. A Índia se desprendeu e colidiu com a Ásia, formando o Himalaia. A Austrália derivou para o norte. E a Antártida ficou isolada no polo sul, cercada por correntes oceânicas circunpolares que bloquearam a chegada de ar quente dos trópicos. O isolamento térmico resultante é o que permitiu o acúmulo de gelo que hoje cobre o continente. O mundo perdido mapeado por Jamieson é o último capítulo antes desse isolamento se tornar irreversível.
Uma área de 31 mil quilômetros quadrados preservada em detalhe
A escala da descoberta é difícil de visualizar. A área mapeada — 31 mil quilômetros quadrados — é maior que a Bélgica. Os vales atingem profundidades comparáveis às de grandes cânions. Os blocos de terra alta se estendem por mais de 100 quilômetros cada. E tudo isso está preservado com tal nitidez que os pesquisadores conseguem distinguir canais individuais de rios que correram há 34 milhões de anos.
Em qualquer outro lugar do planeta, uma paisagem dessa idade teria sido destruída por erosão, tectônica ou atividade vulcânica. Na Antártida Oriental, o gelo frio e quase imóvel funcionou como conservante. A descoberta levanta uma pergunta incômoda: quantas outras paisagens antigas existem sob o gelo que ainda não foram mapeadas? A resposta, segundo os pesquisadores, é que provavelmente muitas — mas sem os dados de radar de alta resolução, elas continuam invisíveis.
A cápsula do tempo que ninguém abriu
O mundo perdido sob a Antártida Oriental não é apenas uma curiosidade geológica. É um registro completo das condições climáticas que existiam no momento exato em que a Terra cruzou um limiar — o ponto em que os níveis de CO₂ caíram o suficiente para desencadear a formação de uma camada de gelo continental.

Esse limiar é relevante hoje porque o planeta está se movendo na direção oposta: os níveis de CO₂ estão subindo, não caindo. Entender o que aconteceu quando a Antártida congelou ajuda os cientistas a projetar o que pode acontecer quando ela descongelar. A paisagem de 34 milhões de anos não é apenas um retrato do passado. É um espelho do futuro — e a imagem que ele reflete depende do que acontecer com a atmosfera nas próximas décadas.
O que está escondido em plena vista
A frase mais citada do estudo veio do coautor Neil Ross, especialista em geofísica: “É notável que essa paisagem, escondida à vista de todos durante anos, possa nos contar tanto sobre a história antiga e de longo prazo da camada de gelo da Antártida Oriental.” Os dados do RADARSAT estavam disponíveis havia anos. As imagens de superfície mostravam ondulações que ninguém havia interpretado corretamente.
A descoberta não exigiu uma expedição épica ao polo. Exigiu que alguém olhasse para dados existentes e fizesse a pergunta certa: o que essas ondulações na superfície do gelo estão nos dizendo sobre o que existe embaixo? A resposta era um mundo inteiro — rios, vales, planaltos, florestas — esperando há 34 milhões de anos para que alguém perguntasse.

Poxa, uma reportagem incrivel, mas até qdo será usado o termo Antartida para nomear a Antártica? No mesmo texto é usado Antártida e continente antártiCo, não antártiDo. Atlântida é uma coisa Antártica é outra coisa. Por favor, não mistura.
Eu sempre imaginei que ouvesse algo debaixo desse gelo. Esse lugar é Pré-histórico dos tempos das cavernas.