Empresa de Israel criou bateria térmica com rochas trituradas para armazenar calor, gerar vapor industrial limpo e reduzir o uso de gás natural na indústria.
Em vez de seguir o caminho das baterias de lítio, uma empresa de Israel decidiu apostar no calor como forma de armazenamento energético. A Brenmiller Energy desenvolveu a bGen, uma bateria térmica que usa rochas trituradas para guardar energia e depois entregá-la como vapor industrial, água quente ou ar quente em processos produtivos.
A proposta mira um dos pontos mais difíceis da transição energética: substituir o calor gerado por gás natural, óleo combustível e carvão em setores industriais que precisam de fornecimento térmico contínuo. Em vez de queimar combustíveis fósseis, o sistema pode ser carregado com eletricidade renovável, energia da rede em horários de menor custo ou até calor residual de processos industriais.
Como a bateria térmica com rochas trituradas armazena calor para uso industrial
Ao contrário de uma bateria eletroquímica, a bGen não armazena eletricidade diretamente. O sistema converte energia elétrica em calor e transfere esse calor para um meio sólido formado por rochas trituradas, mantidas dentro de módulos altamente isolados.
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Quando a fábrica precisa de energia térmica, água ou outro fluido passa pelo sistema e recebe esse calor armazenado. A partir daí, a instalação pode fornecer vapor industrial, água quente ou ar quente de forma controlada, sem depender da combustão direta de combustíveis fósseis no ponto de consumo.
A empresa apresenta a tecnologia como uma solução voltada à operação contínua da indústria, com armazenamento térmico por horas ou até dias, dependendo da configuração do projeto. Isso permite deslocar o uso de eletricidade para janelas mais baratas ou mais limpas e usar o calor depois, quando a planta realmente precisa produzir.
Rochas abundantes substituem metais críticos e ampliam o apelo industrial da tecnologia
Um dos principais argumentos da Brenmiller é a escolha do material de armazenamento. Em vez de depender de lítio, níquel ou cobalto, o sistema usa rochas trituradas, um insumo muito mais abundante e com menor exposição às tensões das cadeias globais de minerais críticos.
A companhia também sustenta que a tecnologia foi desenhada para vida útil longa em aplicações industriais pesadas.
No material institucional, a Brenmiller descreve a bGen como uma plataforma voltada à descarbonização do calor industrial com estabilidade operacional e uso de componentes adequados a ambientes fabris de alta demanda.
Esse posicionamento ajuda a explicar por que a solução ganhou espaço em setores que não precisam apenas de eletricidade, mas de calor firme, previsível e em grande volume. Na prática, é esse tipo de demanda que sustenta processos em fábricas de alimentos, bebidas, papel, químicos e outros segmentos intensivos em vapor.
Projeto da Tempo em Israel virou a principal vitrine comercial da bateria de pedra
A aplicação mais emblemática da tecnologia hoje está na Tempo Beverages, em Netanya, Israel. No projeto, a Brenmiller instalou um sistema com 32 MWh de armazenamento térmico, carregamento elétrico de 5,6 MW a partir de energia solar fotovoltaica e eletricidade da rede, e capacidade de entrega de até 14 toneladas de vapor por hora a 7 bar.
Segundo a empresa, o sistema foi projetado para substituir caldeiras fósseis e gerar vapor de processo para a fábrica de bebidas.
A própria Brenmiller afirma que a instalação deve mitigar mais de 6.200 toneladas de emissões de carbono por ano, transformando o projeto em referência para descarbonização industrial baseada em calor limpo.

O avanço comercial entrou em uma nova fase em 1º de junho de 2026, quando a companhia anunciou que o sistema da Tempo havia começado a fornecer vapor durante a fase de comissionamento. A empresa descreveu o marco como uma etapa importante para validar a plataforma em condições reais de operação industrial.
Hospitais, usinas e fábricas em outros países também entraram na rota da Brenmiller
A expansão da tecnologia não ficou restrita à planta da Tempo. Na página oficial de projetos, a Brenmiller lista uma instalação no Wolfson Hospital, em Holon, Israel, com 12 MWh de armazenamento térmico, 2 MW de carregamento elétrico em horário fora de pico e produção de até 5 toneladas de vapor por hora a 7 bar.
A empresa também informa um projeto com a Enel, em Santa Barbara, na Itália, com 24 MWh de capacidade térmica, além de um projeto da PPF em Dombóvár, na Hungria, com 30 MWh e despacho de vapor saturado para calor de processo.
No Brasil, a companhia lista uma instalação da Fortlev, em Anápolis, Goiás, com 4 MWh de armazenamento térmico.
Nesse caso, o sistema é carregado com calor de gases de combustão de biomassa e descarrega ar quente a 400 °C para processamento industrial, mostrando que a tecnologia também pode ser usada para reaproveitamento térmico, e não apenas para eletrificação direta do calor.
Bateria térmica tenta cortar a dependência do gás natural no calor industrial
Grande parte da indústria mundial depende de vapor para esterilização, aquecimento, secagem e transformação de matérias-primas. Tradicionalmente, esse vapor é produzido em caldeiras movidas por combustíveis fósseis, o que mantém custos energéticos elevados e dificulta a redução de emissões.
A lógica da bateria térmica é inverter essa dependência. Quando há energia renovável disponível ou eletricidade mais barata na rede, o sistema carrega as rochas com calor. Mais tarde, esse calor pode ser liberado sob demanda, permitindo que a fábrica use vapor sem precisar queimar combustível naquele momento.
Esse arranjo tornou a tecnologia especialmente relevante no debate sobre descarbonização do calor industrial, uma frente que costuma receber menos atenção do que a eletrificação de carros ou a expansão da energia solar, mas que continua central para a redução das emissões da indústria pesada e manufatureira.

