Ao trocar o gado tradicional por búfalas, produtora rural construiu um modelo sustentável no interior, unindo conhecimento técnico, tradição familiar, inovação no campo e um sistema de produção que vem crescendo no Brasil
Desde cedo, a rotina no campo sempre fez parte da vida dessa produtora rural. Criada na fazenda, cercada por animais e aprendizados transmitidos de geração em geração, ela jamais imaginou que uma decisão considerada “fora do padrão” transformaria completamente seu negócio. Ao optar pela criação de búfalas em vez do gado bovino tradicional, enfrentou desconfiança, comentários irônicos e até preconceito, mas os resultados ao longo dos anos provaram que a aposta foi certeira.
A informação foi divulgada em entrevista gravada diretamente na propriedade rural, onde a produtora (conhecida como Rosarinha), detalha o manejo, a produção e a rotina com os animais, conforme conteúdo exibido em vídeo de campo e relatos técnicos apresentados ao longo da conversa.
Além disso, o sistema implantado mostrou-se altamente eficiente mesmo em períodos de seca severa. Enquanto muitos produtores enfrentam dificuldades com alimentação e sanidade do rebanho, as búfalas demonstraram rusticidade e adaptação impressionantes, mantendo produtividade estável com manejo simples e custos reduzidos.
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Produção de leite mais rica, manejo simples e animais dóceis

Atualmente, a alimentação das búfalas é baseada exclusivamente em pasto, mesmo em períodos de estiagem, complementada com apenas 2 kg de cevada por animal, sem uso de ração complexa. Ainda assim, cada búfala produz, em média, 8 litros de leite por dia, um volume considerado bastante eficiente dentro da bufalinocultura.
Além da quantidade, o diferencial está na qualidade. O leite de búfala possui 13% a mais de proteína, maior concentração de cálcio e minerais e cerca de 30% menos colesterol em comparação ao leite bovino. Por isso, é amplamente valorizado na produção de queijos e derivados, como a muçarela, que apresenta rendimento superior.
Outro ponto que quebra mitos é o comportamento dos animais. Ao contrário da fama de agressividade, as búfalas criadas na fazenda são descritas como mansas, curiosas e tranquilas. Funcionários relatam, inclusive, preferência por lidar com búfalas em vez de vacas, justamente pela docilidade e facilidade no manejo diário.
Origem do búfalo no Brasil e vantagens produtivas
O búfalo criado no Brasil tem origem asiática, sendo as principais raças a Murrah e a Mediterrânea, conhecidas pelo temperamento dócil e bom desempenho leiteiro. A introdução do animal no país ocorreu inicialmente no Pará, especialmente na Ilha de Marajó, onde era utilizado principalmente para tração.
Com o tempo, percebeu-se o enorme potencial leiteiro do búfalo. Hoje, além do leite, o animal também é valorizado pela carne, que apresenta maior teor de proteína, gordura mais branca e excelente marmoreio. Apesar disso, no Brasil, a carne de búfalo ainda é muitas vezes comercializada junto à carne bovina, dificultando a diferenciação no mercado.
O ciclo reprodutivo também exige conhecimento técnico. A gestação das búfalas dura cerca de 11 meses, um pouco mais longa que a das vacas. Além disso, trata-se de um animal estacional, com partos concentrados entre março e agosto, o que exige planejamento para garantir produção de leite ao longo do ano. Para isso, são utilizados protocolos de sincronização em novilhas, garantindo oferta no período final do ano.
Estrutura da fazenda, tradição familiar e crescimento da bufalinocultura
A propriedade conta hoje com 132 búfalas em lactação e cerca de 200 fêmeas aptas à produção, além de touros das raças Murrah e Mediterrânea. Todo o sistema funciona com equipe reduzida: dois funcionários no manejo da fazenda e três no laticínio, evidenciando a eficiência operacional do modelo.
A estrutura da ordenha carrega história. O espaço foi construído em 1979, sendo uma das primeiras ordenhas de circuito fechado da região, inicialmente feita com tubulações de vidro. Ao longo dos anos, adaptações foram realizadas, mantendo a base visionária deixada pelo pai da produtora, que transformou uma área do Cerrado, antes considerada improdutiva, em uma fazenda referência.
Além da produção, a bufalinocultura vem crescendo em regiões como o Leste de Minas, onde antes era rara. O que antes soava como loucura, hoje inspira outros produtores a investir no modelo. A produtora, que também é médica veterinária, tornou-se uma das principais incentivadoras da atividade, destacando o baixo índice de doenças, a rusticidade e o excelente custo-benefício do búfalo.
Mulher no campo, superação e paixão pelos animais
Entrar no setor agropecuário como mulher não foi fácil. Durante a formação em veterinária, a presença feminina ainda era minoria, e no início da carreira, o preconceito foi uma barreira real. No entanto, com resultados consistentes, anos de trabalho em reprodução, qualidade do leite, inseminação, FIV e diagnóstico de gestação, o reconhecimento veio.
Hoje, ela resume sua relação com a fazenda de forma simples: cuidar dos animais é mais do que trabalho, é vocação. A rotina de amanhecer e anoitecer no campo, observando um rebanho bem tratado, tornou-se sinônimo de vida leve, propósito e orgulho. Para ela, os animais são parte essencial da história, da economia e da identidade da roça.
Fonte: Brasil Rural


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