Os Estados Unidos querem aspirar minerais do fundo do Pacífico a 4 mil metros de profundidade — e a maioria das espécies que vivem lá ainda nem tem nome
A 4 mil metros abaixo da superfície do Oceano Pacífico, espalhados pelo leito marinho como batatas jogadas num campo escuro, existem bilhões de nódulos do tamanho de uma bola de tênis. Dentro deles: cobalto, níquel, manganês e cobre — os mesmos minerais que alimentam baterias de carros elétricos e celulares.
Segundo a NOAA, em 9 de março de 2026, a agência americana determinou que o pedido da The Metals Company (TMC) para mineração comercial em águas profundas está em conformidade com a legislação dos Estados Unidos.
A empresa quer sugar até 20 milhões de toneladas de nódulos por ano do fundo de uma área do Pacífico chamada Zona Clarion-Clipperton (CCZ), entre o Havaí e o México. A área reivindicada: 65 mil quilômetros quadrados — do tamanho do estado da Virgínia Ocidental.
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O problema? 90% das espécies que vivem ali ainda nem foram nomeadas pela ciência.
Batatas no fundo do mar: o que são os nódulos que valem bilhões
Os nódulos polimetálicos levam milhões de anos para se formar. Camada por camada, minerais dissolvidos na água se depositam sobre um núcleo — um fragmento de osso de baleia, um dente de tubarão, um pedaço de rocha vulcânica.
Cada nódulo contém manganês (25-30%), ferro (10-15%), níquel (~1,3%), cobre (~1,1%) e cobalto (0,2-0,3%), além de traços de lítio e terras raras.
São exatamente os minerais que a transição energética precisa desesperadamente. Baterias de lítio para veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares — todos dependem de cobalto e níquel.
A TMC estima que sua área de concessão contém 619 milhões de toneladas de nódulos. Mas um relatório independente publicado em março de 2026 questiona: essas reservas sustentariam apenas 8 anos de operação.

Aspiradores gigantes no fundo do mar: como a mineração de profundidade funciona
A técnica é brutal na sua simplicidade. Máquinas robóticas descem até o leito marinho e passam como aspiradores de pó, sugando nódulos e sedimento.
O material é bombeado por tubos verticais de 4 quilômetros até um navio na superfície, onde os nódulos são separados do lodo. O sedimento restante é devolvido ao mar — criando nuvens turvas que podem se espalhar por centenas de quilômetros.
Em 2022, o navio Hidden Gem realizou um teste comercial na CCZ, coletando 3 mil toneladas de nódulos.
O resultado ambiental foi devastador. Um estudo de 2025 publicado pela Mongabay revelou que, nas trilhas da máquina, a abundância de animais caiu 37%.
E isso foi apenas um teste. A operação comercial seria milhares de vezes maior.
24 espécies novas — e 90% ainda sem nome
Em abril de 2026, pesquisadores anunciaram a descoberta de 24 novas espécies de anfípodes vivendo sobre os nódulos da CCZ. Criaturas minúsculas, translúcidas, adaptadas à escuridão total e à pressão esmagadora de 4 mil metros.
Mas a descoberta mais perturbadora não é o que encontraram — é o que ainda não conhecem.
Estima-se que 90% das espécies que habitam a CCZ ainda não foram nomeadas pela ciência. Os nódulos não são apenas minerais — são habitat. Organismos crescem sobre eles, se alimentam da microbiota que os coloniza.
Remover os nódulos é como arrancar o solo de uma floresta. O ecossistema simplesmente não volta — pelo menos não em milhões de anos.

Os EUA avançam sozinhos — e irritam o resto do mundo
A mineração em águas internacionais é regulada pela International Seabed Authority (ISA), com sede na Jamaica. A maioria dos países defende uma moratória até que os impactos ambientais sejam melhor compreendidos.
Mas os Estados Unidos nunca ratificaram a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar. Por isso, operam sob legislação própria — o Deep Seabed Hard Mineral Resources Act (DSHMRA), de 1980.
Em janeiro de 2026, a NOAA publicou a regra final que moderniza o processo de licenciamento. A TMC foi a primeira empresa a submeter um pedido sob o novo formato.
A decisão gerou o que o Courthouse News chamou de “divisão profunda” na comunidade internacional. Países do Pacífico e ambientalistas acusam os EUA de ignorar o direito internacional.
O presidente Trump classificou a mineração do fundo do mar como “questão urgente de segurança nacional”, vinculando-a à corrida por minerais críticos contra a China.
O projeto vale a pena? Relatório diz que não
Um relatório independente publicado pela Oceanographic Magazine em março de 2026 concluiu que o projeto da TMC é economicamente inviável.
Segundo a análise, os custos de capital e operação superam as receitas projetadas. As reservas confirmadas sustentariam apenas 8 anos de mineração. Não existem mercados consolidados para os minerais extraídos nessas condições.
A TMC, por sua vez, argumenta que seus nódulos produzem minerais com menor pegada de carbono que a mineração terrestre — sem deslocar comunidades, sem desmatar florestas, sem contaminar rios.
O contra-argumento dos cientistas é direto: a mineração terrestre ao menos permite restauração. O fundo do oceano, uma vez destruído, não se recupera em escala humana.

O dilema que ninguém quer enfrentar
O mundo precisa de milhões de toneladas de cobalto, níquel e lítio para a transição energética. A mineração terrestre destrói florestas e contamina rios. A mineração oceânica destrói ecossistemas que nem conhecemos.
Ambas as opções têm custo ambiental alto. A diferença é que, em terra, vemos o estrago. No fundo do mar, a 4 mil metros de profundidade, na escuridão total, ninguém vê.
Com 619 milhões de toneladas de nódulos disponíveis e a tecnologia para coletá-los, a tentação é enorme. Mas a ciência alerta: 37% menos vida nas trilhas do aspirador é apenas o que mediram. O que não mediram pode ser pior.
Será que vale a pena destruir um ecossistema de milhões de anos para produzir baterias que duram uma década?

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