A forma é quase sempre a mesma, redonda e enigmática, mas a história por trás de cada buraco pode ser completamente diferente. Em um lugar, é gás escapando do subsolo. Em outro, é um golfinho cavando a areia atrás do almoço. A descoberta obriga a ciência a desconfiar das explicações fáceis.
Milhares de crateras circulares espalhadas pelo fundo do mar sempre foram atribuídas, quase automaticamente, a vazamentos de metano que sobem pelo sedimento. Mas estudos recentes mostram que muitas dessas marcas têm origens bem diferentes, que vão de botos caçando peixes enterrados a deslizamentos lentos de sedimentos e ao degelo de antigas eras glaciais, derrubando uma explicação que parecia óbvia demais para ser questionada.
A nova leitura sobre essas formações, conhecidas tecnicamente como pockmarks, foi reunida em uma reportagem de maio de 2026 e se apoia em pesquisas publicadas em revistas científicas nos últimos anos. Antes de tudo, vale esclarecer que não se trata de descartar o metano, que segue sendo a explicação correta em muitos casos, mas de reconhecer que a mesma forma circular no fundo do oceano pode esconder histórias completamente distintas, algo que só a análise cuidadosa de cada região consegue revelar.
O que são essas crateras circulares

As chamadas pockmarks são depressões em formato circular que aparecem em enorme quantidade no leito dos oceanos, e por décadas a explicação mais repetida foi a liberação de metano ou outros fluidos que sobem pelo sedimento e deixam cavidades arredondadas ao escapar para a água.
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Essa interpretação continua válida em muitos lugares, e o gás realmente forma crateras em diversas regiões.
O problema é que os cientistas passaram a perceber que ela não dá conta de todos os casos.
Com mapas de alta resolução do fundo do mar, ficou claro que estruturas de aparência muito parecida podem ter nascido de processos bem menos óbvios do que vazamentos de gás, o que vinha levando a interpretações equivocadas.
Quando o “culpado” é um golfinho
A explicação mais surpreendente veio do Mar do Norte e envolve a vida animal.
Um estudo liderado pelo geocientista Jens Schneider von Deimling, da Universidade de Kiel, na Alemanha, publicado em 2023, concluiu que mais de 40 mil depressões rasas naquela região provavelmente não estavam ligadas ao metano, e sim ao comportamento dos botos-comuns, pequenos cetáceos parentes dos golfinhos, ao caçarem peixes enterrados na areia.
Segundo a pesquisa, publicada na revista Communications Earth & Environment, os botos mergulham até o fundo para caçar os lançãos, peixes finos que vivem escondidos no sedimento, e, ao revolver a areia, deixam pequenas marcas que as correntes de maré depois ampliam.
Vale notar que essa é uma hipótese forte, mas ainda não confirmada por imagens diretas, já que a água turva do Mar do Norte e a timidez dos animais dificultam o flagrante, segundo o próprio pesquisador.
Na Califórnia, a gravidade explica
Em outra ponta do mundo, um campo gigantesco de crateras teve explicação diferente.
Na costa de Big Sur, na Califórnia, pesquisadores do Instituto de Pesquisa do Aquário da Baía de Monterey, do Serviço Geológico dos Estados Unidos e da Universidade Stanford analisaram uma área de depressões comparável ao tamanho de Los Angeles e não encontraram evidência significativa de gás ou fluidos no local.
O estudo, publicado no Journal of Geophysical Research: Earth Surface, apontou para um mecanismo bem diferente: a gravidade.
O fundo do mar ali tem uma inclinação suave, e os sedimentos escorregam lentamente encosta abaixo há pelo menos 280 mil anos, com um evento mais recente há cerca de 14 mil anos.
Foi esse deslizamento gradual de material, e não o metano, que teria moldado as depressões ao longo de um tempo geológico imenso.
Quando o metano realmente é o responsável
Apesar das novas descobertas, o gás não foi tirado de cena.
No Mar de Barents, no Ártico, crateras gigantes foram associadas ao fim da última era glacial: há cerca de 12 mil anos, uma camada de gelo de até 2 quilômetros cobria o fundo do mar e aprisionava metano na forma de hidratos, um composto sólido parecido com gelo.
Com o aquecimento e o recuo das geleiras, esse gás se concentrou e foi liberado de forma abrupta, abrindo enormes depressões.
O mais interessante é que o processo continua ativo em algumas áreas: mais de 600 colunas de bolhas de gás ainda borbulham ao redor dessas formações no Ártico.
Esse caso mostra como clima, gelo antigo e gás se combinam para esculpir o fundo do mar, e reforça que cada cenário precisa ser analisado por si só, pois o mesmo formato pode ter sido criado por forças completamente diferentes.
Por que isso importa além da curiosidade
Essas crateras não são apenas um enigma bonito nos mapas oceânicos.
A correta interpretação dessas marcas afeta a forma como os cientistas calculam o ciclo global do carbono, porque depressões atribuídas erroneamente ao metano podem inflar estimativas de emissões de gás que, na verdade, nunca ocorreram em determinadas regiões, distorcendo dados ambientais importantes.
Há ainda um impacto bem prático e ligado à infraestrutura.
Cabos submarinos de internet, dutos de petróleo e gás e parques eólicos instalados no mar dependem de uma leitura precisa do relevo do fundo oceânico, da estabilidade dos sedimentos e dos riscos de movimentação do terreno.
Saber se uma cratera foi causada por gás ativo, por um deslizamento ou por um animal pode fazer toda a diferença na hora de planejar e instalar essas estruturas com segurança.
A história das crateras circulares do fundo do mar é uma bela lição de ciência: mostra como uma explicação que parecia óbvia, o metano, precisou ser revista diante de novas evidências, revelando um mundo submarino moldado por gás, gravidade, gelo antigo e até pela fome dos botos.
Mais do que decifrar buracos no oceano, essas pesquisas ensinam a desconfiar das respostas fáceis e a olhar cada detalhe com cuidado.
No fundo do mar, como na vida, formas parecidas podem esconder histórias surpreendentemente diferentes, à espera de quem se disponha a investigá-las.
E você, já tinha imaginado que buracos no fundo do oceano pudessem ser feitos por golfinhos caçando ou por geleiras de milhares de anos atrás? Qual dessas explicações mais te surpreendeu? Deixe seu comentário, conte o que achou desse mistério dos mares e compartilhe a matéria com quem ama ciência, oceanos e os enigmas da natureza.

