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Enquanto memórias eletrônicas convencionais falham em órbita baixa após 30 mil rads, pesquisadores do Georgia Tech apresentaram uma memória flash NAND ferroelétrica que continua estável até 1 milhão de rads, valor equivalente a 100 milhões de raios-X consecutivos

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 20/05/2026 às 11:00
Atualizado em 20/05/2026 às 11:04
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Enquanto memórias eletrônicas convencionais falham em órbita baixa após cerca de 30 mil rads de radiação acumulada, pesquisadores do Georgia Tech apresentaram uma memória flash NAND ferroelétrica que continua estável até 1 milhão de rads, conforme estudo publicado em 18 de maio de 2026 pelo grupo do Interesting Engineering.

O valor equivale a 100 milhões de raios-X médicos consecutivos sobre o mesmo chip. A barreira coloca pela primeira vez uma memória de armazenamento prática dentro da janela necessária para missões NASA além de Júpiter, como Europa Clipper e propostas seguintes.

O líder do trabalho é Asif Khan, professor associado da School of Electrical and Computer Engineering do Georgia Tech, com o doutorando Lance Fernandes como primeiro autor.

O artigo saiu na revista científica Nano Letters da American Chemical Society.

O que a memória ferroelétrica faz diferente da NAND comum

A memória NAND convencional armazena dados como cargas elétricas presas em transistores. Uma partícula carregada do espaço pode arrancar essa carga, alterando o bit gravado.

Acima de 100 mil rads, o erro de bit fica frequente.

Conforme detalha o paper de Asif Khan e Lance Fernandes na Nano Letters, a memória NAND ferroelétrica do Georgia Tech não usa cargas presas.

Os dados são armazenados como polarização em material de óxido de háfnio.

A polarização opera no nível atômico, com elétrons fixos em posição estrutural do material. Por isso resiste a radiação direta sem perder a informação, mesmo sob bombardeio de partículas ionizantes.

Em paralelo, o óxido de háfnio combina 2 vantagens. Já está integrado a processos comerciais de fabricação de chips desde 2007. E pode ser empilhado em estruturas tridimensionais como a NAND 3D moderna.

Os números que separam órbita baixa de missão a Júpiter

O ambiente de radiação varia dramaticamente conforme a órbita. Conforme dados de engenharia da NASA, satélites em órbita baixa terrestre acumulam entre 5.000 e 30.000 rads ao longo da vida útil, geralmente de 5 a 15 anos.

De acordo com a JPL da NASA, satélites geoestacionários a 36 mil km da Terra recebem de 100 mil a 300 mil rads.

A Europa Clipper, lançada em outubro de 2024 rumo à lua Europa de Júpiter, precisará operar acima de 1 milhão de rads.

O problema é estrutural. Júpiter tem o segundo campo magnético mais forte do Sistema Solar, depois do Sol. Os 4 cinturões de radiação do planeta criam dose mortal para eletrônicos sem blindagem específica.

Em paralelo, missões antigas mostraram o limite. A sonda Galileo, em órbita de Júpiter entre 1995 e 2003, perdeu progressivamente partes da memória.

A nave Cassini operou em Saturno de 2004 a 2017 com 9 instrumentos científicos, vários afetados por radiação.

Sonda espacial em órbita de Júpiter cercada por cinturões de radiação intensa visualizados em ilustração
Ambiente de radiação extrema em Júpiter exigia até agora cofres de alumínio espessos para proteger a eletrônica. Imagem: divulgação NASA/JPL.

Reveal técnico: como o óxido de háfnio guarda dados sob bombardeio

Em segundo plano, a memória do Georgia Tech opera sobre 3 princípios técnicos diferentes da NAND convencional.

O primeiro é o uso de filmes ultrafinos de óxido de háfnio. A espessura típica é de 10 nanômetros. Essa camada exibe propriedade ferroelétrica espontânea, descoberta em 2011 por pesquisadores alemães da NaMLab.

O segundo é o armazenamento por polarização. Diferentemente da NAND flash convencional, a célula ferroelétrica define o bit pela orientação do dipolo elétrico do material, não pela quantidade de cargas presas em uma camada flutuante.

O terceiro é a tolerância à radiação direta. Conforme o paper de Khan e Fernandes, exposições controladas até 1 milhão de rads em raios gama mantiveram a leitura correta dos chips testados.

O resultado supera em 10 vezes o melhor padrão comercial atualmente certificado para missões espaciais.

Sobretudo, a tecnologia é compatível com 2 pilares industriais. Os processos de fabricação de chips usam óxido de háfnio em transistores desde 2007, depois da transição da Intel para o nó de 45 nanômetros.

E a arquitetura 3D NAND, dominante hoje em discos SSD, pode ser adaptada para a versão ferroelétrica.

Como o setor espacial trabalhava antes

A indústria de eletrônicos espaciais usava até hoje uma combinação de 3 estratégias. A primeira era blindar fisicamente o equipamento com cofres de alumínio.

A Europa Clipper carrega 1 cofre de 6,5 milímetros de espessura ao redor da eletrônica crítica.

De acordo com a EE Times, a segunda estratégia é usar memória SLC NAND comum da Micron Technology pré-qualificada para radiação.

A Micron M73A entrega 256 Gbit por chip e tolera dezenas de milhares de rads.

A terceira estratégia é redundância. Cada cálculo crítico é feito em paralelo em 3 ou 4 processadores e o resultado vence por votação.

Esse esquema, chamado de “triple modular redundancy”, consome triplo do consumo elétrico e do peso.

Por outro lado, todas as 3 estratégias têm limites. A blindagem aumenta peso e custo de lançamento em milhares de dólares por quilo.

A redundância dobra o orçamento. A pré-qualificação não cobre o regime acima de 300 mil rads.

Pesquisadores em laboratório de eletrônica testam chip de memória sob equipamento de radiação
Equipe do Georgia Tech avalia comportamento da NAND ferroelétrica sob radiação. Imagem: divulgação Georgia Institute of Technology.

Reveal humano: Lance Fernandes e a pesquisa que virou capa de Nano Letters

A face humana da descoberta é Lance Fernandes, doutorando em Engenharia Elétrica e Computacional no Georgia Tech. Ele é primeiro autor do paper publicado em Nano Letters em maio de 2026.

Conforme citado pelo Interesting Engineering, Fernandes coordenou os ensaios em raios gama no acelerador da Universidade. O paper completo está em formato aberto no servidor da American Chemical Society sob DOI 10.1021/acs.nanolett.5c05947.

O líder do grupo é Asif Khan, professor associado com 12 anos de carreira no Georgia Tech. Sua área principal são materiais ferroelétricos para eletrônica de baixo consumo.

O laboratório tem cerca de 8 pesquisadores ativos em 2026.

Em paralelo, o trabalho conecta 3 instituições. Além do Georgia Tech, contou com colaboração técnica do NaMLab da Alemanha, pioneiro no uso ferroelétrico do óxido de háfnio, e do Goddard Space Flight Center da NASA, especialista em qualificação de eletrônica para espaço.

Comparação com Micron, Honeywell e 3D Plus

O mercado de memórias rad-hardened reúne hoje 4 fornecedores principais. A Micron Technology produz o M73A SLC NAND pré-qualificado, com 256 Gbit por chip e tolerância da ordem de algumas centenas de milhares de rads.

A Honeywell oferece memórias SOI e FPGAs rad-hard para satélites militares. A BAE Systems atua no segmento defesa. A 3D Plus, francesa, faz módulos integrados para a Agência Espacial Europeia.

De acordo com a EE Times, o segmento global de memória espacial movimenta cerca de US$ 1,2 bilhão em 2025. A NAND ferroelétrica do Georgia Tech pode redefinir esse mercado se o caminho até qualificação em voo for concluído nos próximos 5 anos.

Em paralelo, a Europa Clipper já voa em rota a Júpiter desde outubro de 2024. Ela chega em abril de 2030 e usa a tecnologia disponível em 2020.

A próxima missão a Júpiter, ainda em projeto pela NASA, pode ser candidata natural à memória ferroelétrica.

Visão técnica de um chip flash NAND com arquitetura tridimensional empilhada visualizado em corte
Arquitetura 3D NAND pode ser adaptada para a versão ferroelétrica desenvolvida pelo Georgia Tech. Imagem: divulgação Georgia Tech.

Reveal futuro: o caminho até o primeiro voo NASA em 2030

O próximo passo da equipe de Khan e Fernandes é qualificação industrial para voo espacial. O processo padrão exige 4 fases sucessivas.

Caracterização em laboratório, integração com controlador, testes em ambientes simulados e demonstração em órbita baixa.

Cada fase típica leva entre 18 e 24 meses. Considerando paper publicado em maio de 2026, a estimativa razoável é que a tecnologia esteja pronta para voo em missão NASA a partir de 2031 ou 2032.

Conforme análise da IEEE Spectrum, missões NASA típicas têm ciclo de design de 8 a 12 anos desde concepção até lançamento. A janela é compatível com Europa Lander ou Uranus Orbiter, ambas em estudo pela NASA para a década de 2030.

Vale lembrar a cobertura de plataformas digitais centralizadas como referência de outros saltos tecnológicos comparáveis.

  • Tolerância radiação: 1.000.000 rads (1 milhão)
  • Equivalência: 100 milhões de raios-X médicos
  • Material: filme de óxido de háfnio de 10 nm
  • Mecanismo: polarização ferroelétrica (não cargas presas)
  • Líder: Asif Khan, Georgia Tech (12 anos de carreira)
  • 1º autor: Lance Fernandes (doutorando)
  • Publicação: Nano Letters, DOI 10.1021/acs.nanolett.5c05947
  • Janela de voo NASA: 2031-2032 (estimativa razoável)
Visualização artística de sonda espacial NASA em rota a Júpiter com lua Europa visível ao fundo
Missões NASA além de Júpiter como Europa Clipper exigem memória capaz de resistir a 1 milhão de rads. Imagem: divulgação NASA/JPL.

Os pontos que ainda dependem de validação industrial

Apesar do salto científico, 3 frentes ainda dependem de validação industrial. A primeira é a fabricação em larga escala em fundições comerciais como TSMC, Samsung ou Micron.

Por outro lado, a integração com controladores convencionais SATA e PCIe exige adaptação de firmware. A terceira frente é o ciclo de qualificação para voo orbital, com simulações de ambiente espacial em câmara dedicada por meses seguidos.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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