Especialistas alertam para riscos invisíveis no ambiente de trabalho e revelam como o quartzo, amplamente utilizado em bancadas, pode desencadear uma doença progressiva e sem cura após anos de exposição
Nos últimos anos, um material amplamente presente em cozinhas modernas passou a ocupar o centro de um debate internacional envolvendo saúde ocupacional, segurança no trabalho e responsabilidade industrial. Embora seja valorizado pela estética e durabilidade, o quartzo utilizado em bancadas tem sido associado ao aumento de casos de uma doença pulmonar grave e irreversível: a silicose.
A informação foi divulgada pelo “The New York Times”, que revelou um crescimento significativo no número de diagnósticos entre trabalhadores responsáveis por cortar, moldar e instalar esse tipo de material. Além disso, o tema ganhou proporções ainda maiores ao chegar ao Congresso dos Estados Unidos, onde já está em análise um projeto que pode alterar profundamente a responsabilidade jurídica sobre o produto.
O trabalho invisível por trás das bancadas modernas
Antes de chegar às residências, o quartzo passa por um processo industrial que exige precisão, esforço físico e, principalmente, exposição constante a riscos invisíveis. Inicialmente, grandes placas de pedra artificial são enviadas para oficinas especializadas, onde profissionais utilizam serras e lixadeiras para moldar o material conforme o projeto.
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Durante esse processo, são feitos cortes detalhados para encaixe de pias, torneiras e acabamentos personalizados. No entanto, ao mesmo tempo, uma poeira extremamente fina é liberada no ambiente. Essa poeira contém sílica — um mineral presente no quartzo — que, quando inalado, pode trazer consequências graves à saúde.
Com o passar do tempo, essas partículas microscópicas se alojam nos pulmões. Como resposta, o organismo tenta combatê-las, gerando um processo inflamatório contínuo. Consequentemente, o tecido pulmonar começa a desenvolver cicatrizes, reduzindo progressivamente a capacidade respiratória do trabalhador.
Esse processo silencioso resulta na silicose, uma doença progressiva, incapacitante e sem cura.
Casos reais expõem o impacto da doença entre trabalhadores
À medida que os diagnósticos aumentam, histórias reais começam a ilustrar a gravidade do problema. Um dos casos citados envolve Jeff Rose, de 55 anos, que trabalhou por anos esculpindo bancadas em Georgetown, no estado de Kentucky.
Ele descreveu o trabalho como algo que exigia criatividade e habilidade manual — características que sempre valorizou. No entanto, hoje convive com a silicose e não consegue mais exercer a profissão. “Adoro ser criativo com as minhas mãos. Não consigo mais fazer isso”, relatou.
Além disso, o impacto da doença atingiu também sua família. Seu filho, Skyler, de 30 anos, seguiu a mesma profissão e igualmente foi diagnosticado com silicose, evidenciando um padrão preocupante entre trabalhadores do setor.
Outro caso relevante é o de Wade Hanicker, de 39 anos, que começou a trabalhar com corte de bancadas na Flórida há cerca de 15 anos. Segundo ele, muitas oficinas funcionavam em condições precárias, frequentemente tomadas pela poeira.
“Muitas vezes cortávamos a seco”, afirmou, referindo-se ao processo realizado sem o uso de água — técnica que poderia reduzir significativamente a dispersão do pó.
Atualmente, Hanicker também convive com a doença, que comprometeu sua capacidade física e trouxe outras complicações de saúde.
Dados alarmantes e alerta de especialistas em saúde
Com base em dados do departamento de saúde pública da Califórnia, citados pela reportagem, já foram registrados 512 casos de silicose ligados à pedra artificial desde 2019, além de 29 mortes confirmadas.
Diante desse cenário, médicos passaram a identificar padrões entre os pacientes. A pneumologista Jane C. Fazio, do Olive View-UCLA Medical Center, percebeu que diversos atendimentos tinham algo em comum: o histórico profissional.
“Todos deram a mesma resposta: eles trabalham com bancadas”, afirmou.
Além disso, especialistas alertam que o número real de casos pode ser ainda maior. Isso porque a silicose pode levar anos para se manifestar após a exposição inicial, dificultando o diagnóstico precoce.
Consequentemente, o problema pode estar subestimado — o que aumenta a preocupação de autoridades e profissionais da saúde.
Disputa judicial, indenizações milionárias e debate no Congresso
Com o avanço dos diagnósticos, também houve um aumento expressivo nos processos judiciais contra fabricantes e distribuidores do material. Em 2024, por exemplo, um júri em Los Angeles determinou o pagamento de US$ 52,4 milhões a um ex-trabalhador afetado pela doença.
Por outro lado, a indústria defende que o material é seguro quando manipulado corretamente. Rebecca Shult, diretora jurídica da fabricante Cambria, afirmou em depoimento ao Congresso que o problema estaria nas condições de trabalho.
“O problema está no processo, não no produto”, declarou durante audiência legislativa.
Dessa forma, empresas do setor apoiam um projeto de lei que busca limitar processos contra fabricantes, transferindo a responsabilidade para oficinas e órgãos reguladores.
No entanto, especialistas em saúde ocupacional discordam dessa abordagem. O epidemiologista David Michaels, que liderou a Administração de Segurança e Saúde Ocupacional dos EUA entre 2009 e 2017, afirmou que os limites atuais de exposição à sílica podem estar desatualizados.
Segundo ele, a indústria deveria considerar alternativas mais seguras, como materiais produzidos a partir de vidro reciclado.
Um problema crescente que exige atenção urgente
Enquanto o debate avança em Washington, trabalhadores continuam enfrentando as consequências da exposição prolongada à poeira de sílica. Muitos deles vivem com limitações físicas severas e sem perspectiva de cura.
Ao mesmo tempo, cresce a pressão por regulamentações mais rígidas, melhores condições de trabalho e maior conscientização sobre os riscos envolvidos.
Dessa forma, o que antes era visto apenas como um material moderno e sofisticado para cozinhas agora se transforma em um tema de saúde pública global.
Fonte: G1
