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Material praticamente banido há quase 90 anos volta com força à construção: feito de cânhamo e cal, isola 15 vezes mais que concreto, absorve CO₂ ao longo dos séculos e desafia uma indústria que ajudou a tirá-lo do mercado

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 19/05/2026 às 00:36
Atualizado em 19/05/2026 às 00:39
Assista o vídeoHempcrete, biocompósito de cânhamo industrial e cal, isola mais que o concreto e avança na construção civil e na construção sustentável global.
Hempcrete, biocompósito de cânhamo industrial e cal, isola mais que o concreto e avança na construção civil e na construção sustentável global.
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O hempcrete, biocompósito feito de cânhamo industrial e cal, voltou ao centro do debate sobre construção sustentável após décadas em segundo plano. Inventado na França em 1986, o material agora figura em códigos oficiais de diversos países e desafia a construção civil tradicional ao reduzir emissões e cortar gastos com concreto.

Em novembro de 2024, Steve Allin, diretor da International Hemp Building Association (IHBA), visitou a comuna de Nogent-sur-Seine, na região de Aube, no nordeste da França, para reavaliar a Maison de la Turque, edifício antigo onde o hempcrete foi inventado em 1986 pelo artesão francês Charles Rasetti. Ao chegar ao imóvel, ele encontrou o biocompósito de cânhamo e cal em perfeito estado atrás da fachada de reboco de cal, 38 anos depois da aplicação original. A inspeção alimentou o debate atual sobre o avanço do hempcrete na construção civil em diversos países, reabrindo a discussão sobre por que um material de baixo carbono levou tantas décadas para retornar ao radar do setor.

A história, segundo a IHBA, começa em 1986, quando Rasetti foi contratado para restaurar a Maison de la Turque, casa famosa por aparecer em obras do escritor Gustave Flaubert no século XIX. Diante de uma estrutura de carvalho fragilizada e sem material adequado para preencher os vãos sem comprometer a respiração da parede, o artesão misturou o miolo lenhoso do cânhamo industrial com cal hidráulica e água. Nascia ali o que a literatura técnica reconhece como o primeiro uso documentado do hempcrete moderno na construção. A invenção, motivada pela necessidade prática de salvar um imóvel histórico, daria origem a uma técnica que hoje volta a despertar atenção em mercados como Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e, mais recentemente, Brasil.

Como o hempcrete nasceu em uma reforma rural na França

Hempcrete, biocompósito de cânhamo industrial e cal, isola mais que o concreto e avança na construção civil e na construção sustentável global.

A escolha de Rasetti em 1986 não foi acidental. A região de Champagne, onde fica Nogent-sur-Seine, é conhecida há séculos por construções com estruturas de madeira preenchidas por misturas de cal, palha e outros materiais leves. O artesão recuperou essa lógica regional ao substituir os elementos tradicionais pelo hurd do cânhamo, núcleo lenhoso da planta após a extração das fibras têxteis. O resultado se mostrou leve, isolante, respirável e compatível com a carpintaria antiga, virando referência inicial do que hoje se chama de construção sustentável.

A partir dali, o método foi sendo refinado por outros pesquisadores e construtores franceses ao longo dos anos 1990. Em 1989 foi erguida na França a primeira construção nova com hempcrete envolvendo uma estrutura de madeira, e logo depois, em 1990, Yves Kühn desenvolveu um processo construtivo que permitia erguer casas inteiras com hempcrete usando um sistema de fôrmas móveis. A técnica deixou de ser uma curiosidade artesanal e passou a ter normatização, fornecedores industriais e pesquisas acadêmicas dedicadas, abrindo caminho para a entrada do material no mercado regular de construção civil.

Por que o cânhamo industrial saiu da construção nos Estados Unidos

Hempcrete, biocompósito de cânhamo industrial e cal, isola mais que o concreto e avança na construção civil e na construção sustentável global.

O atraso do hempcrete no mundo anglo-saxão tem nome e data. A produção de cânhamo foi proibida nos Estados Unidos em 1937, quando o Marijuana Tax Act foi aprovado. A lei, embora voltada formalmente à cannabis psicoativa, alcançou também o cânhamo industrial, variedade da mesma espécie usada para fibras, alimentos e materiais de construção, mas com teor de THC desprezível. Em pouco tempo, a planta saiu das fazendas americanas e o conhecimento agrícola sobre seu cultivo foi sendo perdido.

No vácuo deixado pelo cânhamo industrial, materiais industrializados ocuparam o protagonismo da construção civil no século 20, com destaque para o cimento Portland e o concreto produzido a partir dele. Hoje, a escala do problema ambiental dessa hegemonia é amplamente documentada: o setor do cimento responde por uma parcela expressiva das emissões globais de gases de efeito estufa, o que tem motivado órgãos públicos e privados a buscar alternativas de menor pegada de carbono, inclusive o próprio hempcrete.

O que a ciência mostra sobre o desempenho do hempcrete

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Estudos conduzidos em universidades europeias, com destaque para a Universidade de Bath, no Reino Unido, e a Université de Picardie Jules Verne, na França, mediram propriedades térmicas, acústicas e de resistência ao fogo do hempcrete. Trata-se de um biocompósito formado pela mistura do miolo lenhoso do cânhamo industrial com aglomerante à base de cal, com boa capacidade de isolamento térmico e acústico, embora com desempenho mecânico baixo, sobretudo em compressão. Por essa razão, o material não substitui o concreto estrutural: ele atua como preenchimento e isolante, sempre apoiado em uma estrutura de madeira ou aço que sustenta o edifício.

Outro ponto que os estudos confirmam é a regulação natural de umidade. O hempcrete funciona como uma esponja que absorve umidade do ar quando o ambiente está úmido e a libera novamente quando fica seco, ajudando a estabilizar a temperatura percebida dentro do cômodo. Isso reduz a sensação de frio em climas úmidos e diminui a necessidade de aquecimento mecânico, o que se traduz em menor consumo de energia e ambientes internos mais saudáveis na construção sustentável residencial.

Sequestro de carbono e o papel do material na construção sustentável

O efeito climático do hempcrete vem sendo medido com cada vez mais precisão. Na construção sustentável, o cânhamo industrial é combinado com aglomerante à base de cal para formar o hempcrete, um biocompósito de carbono negativo capaz de sequestrar mais de 100 quilos de CO₂ por metro quadrado. O sequestro ocorre em duas frentes: o cânhamo absorve dióxido de carbono enquanto cresce, e a cal continua absorvendo CO₂ ao longo do tempo por meio da carbonatação, processo no qual ela volta lentamente a se tornar carbonato de cálcio.

Esse comportamento coloca o hempcrete em uma categoria rara dentro da construção civil: a de materiais que, em vez de emitir carbono ao longo do ciclo de vida, retiram mais carbono da atmosfera do que produzem em sua fabricação. Um hectare de cânhamo industrial captura cerca de 15 toneladas de CO₂, e o hempcrete pode continuar sequestrando dióxido de carbono por décadas após sua aplicação no edifício. Para arquitetos e engenheiros que buscam metas de carbono líquido zero, esse atributo é, em muitos casos, o principal argumento técnico do biocompósito frente ao concreto.

Os entraves regulatórios que ainda limitam o avanço

Apesar do desempenho documentado, o hempcrete enfrentou por anos um obstáculo central: a ausência de normas técnicas que permitissem seu uso em projetos formais de construção sustentável em diversos países. Sem padrões reconhecidos, arquitetos e engenheiros tinham dificuldade em incluir o material em projetos sujeitos a aprovação, e seguradoras não dispunham de dados para precificar o risco frente a opções tradicionais como o concreto.

Esse cenário começou a mudar nos últimos anos. Em 2022, a ASTM International publicou o primeiro padrão para isolamento em hempcrete, a norma ASTM D8280, e em 2023 o International Code Council aprovou sua inclusão na edição de 2024 do International Residential Code. A inclusão no IRC, na forma do “Apêndice BL Hemp Lime (Hempcrete) Construction”, deve impulsionar a expansão do uso e da legitimidade do hemp lime na construção nos Estados Unidos. Estados americanos como Montana, Washington e Califórnia já avançaram com programas e aprovações específicas, abrindo a porta para o setor privado.

O retorno do hempcrete aos códigos oficiais de construção

Na Europa, o avanço é ainda mais consolidado. No Reino Unido, o hemp lime foi usado pela primeira vez em 2000 para a construção de duas casas de teste em Haverhill, projetadas pela Modece Architects, com monitoramento pelo BRE para comparação com habitações convencionais. Pouco depois, em 2009, foi concluída a Renewable House, apontada como uma das estruturas tecnologicamente mais avançadas feitas com materiais à base de cânhamo industrial. A trajetória pavimentou o caminho regulatório britânico para o material na construção civil.

Na França, considerada o berço do hempcrete moderno, o material já é aceito como solução técnica reconhecida pelas Regras Profissionais do setor. A cidade de Croissy-Beaubourg, perto de Paris, recebeu em 2022 o Pierre Chevet, considerado o primeiro prédio público da França construído com hempcrete. O projeto, do escritório Lemoal Lemoal, combina estrutura de madeira com blocos de hempcrete e fachada protegida por painéis de fibrocimento, atendendo às normas técnicas francesas para edifícios públicos. Nos Estados Unidos, a primeira casa do país com o sistema foi concluída em 2010, em Asheville, na Carolina do Norte, e o número de projetos vem crescendo desde então em estados que permitiram seu uso.

O hempcrete não substitui o concreto em todas as funções e nem busca esse papel. Ele se apresenta como uma alternativa estratégica para paredes, isolamento e regulação ambiental dentro de uma estrutura portante de madeira ou aço, com baixa pegada de carbono, boa resposta térmica e desempenho comprovado em décadas de uso. A pergunta que move o setor agora é se ele vai escalar rápido o suficiente para impactar as metas climáticas da construção sustentável global.

Você acredita que o hempcrete tem espaço real para crescer no Brasil, considerando o nosso clima, a regulamentação do cânhamo industrial e a estrutura do setor de construção civil? Deixe seu comentário, conte o que já viu sobre o tema e compartilhe a matéria com quem está pensando em reformar ou construir de forma mais sustentável.

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Jorge
Jorge
25/05/2026 11:32

Acredito sim, tem tudo para uma nova alternativa.

Alcides R. S Anduze
Alcides R. S Anduze
21/05/2026 10:34

O cal é corrosivo para o aço, de que forma o hempconcrete trata disso?

helio
helio
20/05/2026 08:11

A pegada tem de ser imediatamente começando por legislações e regulação e normas para produção e uso prático na construção civil isso gera empregos e fixa o homem no campo na cidade especializações profissionais e renda de arrecadações aos cofres públicos. acelera também outros setores alternativos da construção civil.

Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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