Descoberto por acaso por engenheiros do MIT em setembro de 2019, o material ultranegro de nanotubos de carbono nasceu de uma pesquisa sobre alumínio, e não da joalheria. O próprio instituto evitou cravar recorde absoluto, e a obra com o diamante foi uma colaboração entre arte e ciência.
O material ultranegro que ficou famoso por fazer um diamante desaparecer foi apresentado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, em 13 de setembro de 2019. Feito de nanotubos de carbono alinhados na vertical, ele captura ao menos 99,995% da luz que incide sobre sua superfície, o que o tornou, segundo o instituto, dez vezes mais escuro do que qualquer outro revestimento já reportado até então. O trabalho foi liderado por Brian Wardle, professor de Aeronáutica e Astronáutica do MIT e diretor do laboratório necstlab, ao lado da artista residente Diemut Strebe.
A descoberta, porém, foi um acidente de laboratório. A equipe não procurava o preto mais profundo do mundo, e sim formas de cultivar nanotubos de carbono sobre alumínio tratado com cloro para melhorar propriedades elétricas e térmicas. O resultado óptico surpreendeu os próprios pesquisadores e virou uma instalação artística chamada The Redemption of Vanity, ou A Redenção da Vaidade, na qual um diamante amarelo natural de 16,78 quilates, avaliado em US$ 2 milhões, cerca de R$ 10,3 milhões na cotação atual, foi coberto pelo material e exposto na Bolsa de Valores de Nova York.
Um acaso de laboratório que produziu o preto mais extremo
O ponto de partida do projeto não tinha relação alguma com cor.
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De acordo com o MIT, o grupo de Brian Wardle estudava maneiras de fazer crescer nanotubos de carbono sobre materiais condutores como o alumínio, com o objetivo de reforçar a condução de eletricidade e calor desses sistemas.
Foi ao preparar o alumínio com um tratamento à base de cloro e cultivar os nanotubos sobre ele que a equipe notou um escurecimento fora do comum.
Wardle classificou o resultado como inesperado, comparável a uma descoberta científica legítima.
Em material de divulgação do instituto, o pesquisador relatou que o objetivo era criar uma nova forma de crescer os nanotubos e que, ao se obter um material novo, suas propriedades podem revelar surpresas.
Ele observou ainda que seu grupo não costuma se dedicar às propriedades ópticas dos materiais, mas que a colaboração paralela com Diemut Strebe acabou aproximando arte e ciência naquele caso específico.
Como uma floresta de nanotubos engole quase toda a luz

Esses filamentos microscópicos crescem alinhados como uma floresta vertical de árvores minúsculas, e a estrutura resultante é composta por cerca de 99% de espaço vazio.
Quando um raio de luz entra nesse emaranhado, ele ricocheteia repetidas vezes entre os tubos e é progressivamente absorvido em forma de calor, em vez de voltar aos olhos do observador.
Para medir o efeito, a equipe avaliou a luz refletida não apenas de cima, mas de todos os ângulos possíveis.
O resultado mostrou uma capacidade de absorção superior a 99,995% qualquer que fosse a direção da observação.
Na prática, isso significa que relevos, curvas, cortes e texturas deixam de ser percebidos, porque a luz que normalmente revelaria esses contornos simplesmente não retorna.
Um objeto tridimensional coberto pelo material passa a parecer uma mancha plana recortada.
O diamante de US$ 2 milhões transformado em sombra

Na obra The Redemption of Vanity, a artista Diemut Strebe, residente no MIT pelo Center for Art, Science and Technology, cobriu um diamante amarelo natural de 16,78 quilates, avaliado em US$ 2 milhões e cedido pela joalheria L.J.
West Diamonds, de Nova York. A peça, normalmente valorizada justamente pelo brilho e pelas faces lapidadas, perdeu por completo seus contornos e virou uma silhueta escura sem volume aparente.
A instalação ficou em cartaz na Bolsa de Valores de Nova York entre 13 de setembro e 25 de novembro de 2019.
Segundo Strebe, a proposta era apresentar a desvalorização literal de um objeto de alto valor econômico e questionar os mecanismos do mercado de arte.
O projeto, realizado com Wardle e com os pesquisadores Luiz Acauan e Estelle Cohen, também foi descrito pelo MIT como uma resposta à compra, pelo artista britânico Anish Kapoor, dos direitos exclusivos de uso artístico do Vantablack.
A equipe fez questão de frisar que usou uma composição diferente de nanotubos, aberta a qualquer artista.
O que muda na comparação com o Vantablack
A comparação com o Vantablack precisa de contexto para não exagerar o feito.
O Vantablack, desenvolvido pela britânica Surrey NanoSystems, absorve cerca de 99,965% da luz visível.
O material do MIT absorve ao menos 99,995%.
Como a diferença está na pequena fração de luz que ainda escapa, reduzir esse resíduo de cerca de 0,035% para perto de 0,005% multiplica o efeito visual, e foi isso que sustentou a expressão dez vezes mais escuro usada na divulgação.
O próprio MIT, no entanto, foi cauteloso ao anunciar o resultado.
O instituto acompanhou a frase o mais escuro já registrado de um asterisco e evitou reivindicar um recorde permanente, justamente porque não existe um padrão único e universal para medir negrura.
Wardle chegou a comentar que o interesse científico estava menos na disputa por um título de mais escuro e mais nas propriedades elétricas e térmicas do material.
Em ciência dos materiais, rótulos como o mais escuro do mundo tendem a ser provisórios, já que novos revestimentos podem superá-los.
Das galerias aos telescópios, onde o material pode chegar
Apesar do impacto visual, o material não é uma tinta comum que se compra em lata ou spray.
Ele depende do crescimento controlado de nanotubos de carbono sobre uma superfície previamente preparada, em condições de laboratório, o que limita por ora o uso doméstico ou decorativo em larga escala.
Confundi-lo com uma tinta de parede seria ignorar a complexidade do processo que o gera.
O valor real do material está na engenharia da luz.
Revestimentos que eliminam quase toda a reflexão interessam a instrumentos ópticos de precisão, como telescópios, câmeras e sensores, nos quais a luz dispersa atrapalha as medições.
Ao mostrar que é possível aproximar a reflexão de zero, a malha de nanotubos abre caminho para aplicações em que enxergar melhor depende, paradoxalmente, de refletir menos.
A arte, nesse caso, serviu de vitrine para uma propriedade com utilidade científica concreta.
Mais do que um truque visual, o material ultranegro do MIT é um lembrete de como nossa percepção depende da luz que volta até nós.
Ao engolir quase toda a iluminação, ele faz o cérebro perder as pistas de profundidade e transforma até um diamante reluzente em uma sombra recortada.
A história também mostra que avanços marcantes às vezes nascem por acaso, no meio de uma pesquisa sobre outra coisa, e que superlativos como o mais escuro do mundo merecem ser lidos com a devida cautela.
E você, o que achou de um material capaz de apagar visualmente o brilho de um diamante de US$ 2 milhões? Acha que transformar uma joia em pura sombra é uma provocação artística válida ou um desperdício? Deixe sua opinião nos comentários, com respeito às diferentes visões, e compartilhe esta matéria com quem se encanta por ciência, tecnologia e arte.

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