No norte do Brasil, um conjunto de pedras organizado por povos antigos levanta novas perguntas sobre astronomia indígena, rituais e memória ancestral na Amazônia, revelando um sítio arqueológico ainda pouco conhecido pelo público.
Em Calçoene, no norte do Amapá, um conjunto de 127 blocos de granito organizados em círculo intriga pesquisadores, arqueólogos e visitantes. O local, conhecido popularmente como Stonehenge da Amazônia, fica no Parque Arqueológico do Solstício e chama atenção pela hipótese de ter funcionado como um possível calendário solar indígena pré-colonial.
Segundo o Portal Amazônia, as rochas formam uma estrutura circular com cerca de 30 metros de diâmetro. Algumas chegam a aproximadamente 4 metros de altura. O impacto visual é forte, mas o que torna o sítio ainda mais relevante é a possibilidade de que povos indígenas tenham usado aquele espaço para observar fenômenos solares, realizar cerimônias e lidar com práticas funerárias muito antes da colonização europeia.
Um círculo de pedra no meio da Amazônia

O sítio fica na região do Igarapé Rêgo Grande, na zona rural de Calçoene. Também é identificado em estudos como Sítio AP-CA-18 Rêgo Grande I. Embora o apelido Stonehenge da Amazônia ajude a popularizar o lugar, a comparação com o monumento inglês deve ser entendida como uma referência visual e jornalística, não como equivalência histórica.
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As pedras aparecem em posições verticais, inclinadas e horizontais. O conjunto, de acordo com as pesquisas citadas por Portal Amazônia, foi organizado por ação humana. O acesso ocorre por ramal que liga a sede do município à Vila do Cunani, o que ajuda a explicar por que o local ainda é pouco conhecido pelo grande público.
A distância também pesa. O Portal Amazônia menciona cerca de 374 km de Macapá até a região, enquanto estudos acadêmicos situam o sítio a aproximadamente 16 km ou 18 km da sede municipal de Calçoene. Não é um destino de passagem. É um lugar que exige deslocamento, preservação e estrutura adequada.
Hipótese solar colocou o sítio no centro das pesquisas

A parte mais conhecida da história envolve o alinhamento solar. O Portal Amazônia relata que, no solstício de inverno, em 21 ou 22 de dezembro, o sol pode se alinhar com as rochas do sítio. Em uma observação descrita pela publicação, por volta das 6h20, a luz atravessou a chamada pedra do furo, que possui uma abertura circular, seguindo em direção a outra rocha no lado oposto.
Esse tipo de cena reforça a hipótese de uso astronômico. O pesquisador Olavo Facundes, no estudo “Cartografia de técnicas arqueoastronômicas no cromlech equinocial de Calçoene”, analisou o conjunto com geotecnologias, mapas, medições e observação de menires. A pesquisa trabalha com a possibilidade de que o local tenha funcionado como um arqueobservatório.
A localização também chama atenção. O estudo destaca que o sítio está a apenas 2°37’12” N da linha do Equador, uma posição que favoreceria observações equinociais com grande precisão visual. Ainda assim, a leitura mais prudente é tratar o calendário solar como hipótese forte, não como certeza absoluta sobre todas as funções do local.
Pesquisas apontam rituais, urnas e cerâmica Aristé

O Stonehenge da Amazônia não se resume ao céu. As escavações indicam que o espaço também pode ter tido função cerimonial e funerária. O Iphan afirma que o sítio parece indicar preocupação astronômica, mas também registra a presença de poços com urnas funerárias.
Trabalhos de Mariana Cabral e João Saldanha mostram que o local reúne vestígios que sugerem usos múltiplos. Entre os achados citados nas pesquisas estão depósitos cerâmicos, vasilhas, oferendas e possíveis visitas rituais a ancestrais. Essa interpretação torna o sítio mais complexo e evita uma explicação única.
Estudos publicados no Caderno 4 Campos também relacionam o sítio à cerâmica Aristé, tradição arqueológica identificada no norte do Amapá. No Poço 3, as análises apontaram motivos pintados, incisos, abstratos e zoomorfos, elementos associados a uma dinâmica cerimonial ou ritualística.
Um patrimônio brasileiro ainda fora do radar nacional
Apesar da força arqueológica, o local ainda enfrenta desafios de reconhecimento, estruturação e preservação. Em 2024, segundo manifestação técnica do NuPArq/IEPA publicada em documento oficial do Governo do Amapá, houve veto a um projeto que pretendia declarar o local patrimônio estadual. A justificativa apontava que o sítio ainda não reunia todos os sistemas necessários de ordenamento, gestão, zoneamento e salvaguarda para ser formalmente definido como parque arqueológico estadual.
Ao mesmo tempo, o Iphan e o Governo do Amapá assinaram protocolo de intenções ligado ao Novo PAC para avançar no projeto Parque do Solstício de Calçoene. A proposta envolve musealização, preservação e turismo cultural e ambiental, sem perder de vista a necessidade de proteger um sítio sensível.
Esse ponto é decisivo. Transformar o local em atração turística sem planejamento pode colocar o patrimônio em risco. Mas mantê-lo invisível também significa deixar fora do debate público uma das evidências mais impressionantes da arqueologia amazônica.
Mais do que um apelido curioso
O apelido Stonehenge da Amazônia chama atenção, mas o valor real do sítio está em outro lugar. As 127 rochas de Calçoene mostram que a Amazônia pré-colonial não pode ser vista apenas como floresta intocada ou território sem grandes estruturas culturais. Ali, pedras, sol, cerimônias e memória parecem se encontrar em uma paisagem que ainda desafia respostas simples.
O caso vai além de um círculo de granito no Amapá. Ele revela um Brasil antigo, sofisticado e pouco conhecido, onde povos indígenas observavam o céu, construíam espaços simbólicos e deixavam marcas que ainda hoje obrigam pesquisadores a olhar para a Amazônia com mais cuidado, respeito e curiosidade.

