Após anos de seca, Marrocos reorganiza sua política hídrica com usinas de dessalinização, transferência entre bacias e novas barragens, em uma estratégia que conecta água, energia e agricultura e reposiciona a infraestrutura como eixo permanente da gestão.
Marrocos ampliou investimentos em usinas de dessalinização, obras de transferência de água e novas barragens para tentar reduzir os efeitos da seca prolongada e garantir abastecimento a cidades e áreas agrícolas.
A estratégia ganhou força após vários anos de chuvas irregulares, queda no nível dos reservatórios e pressão crescente sobre rios, aquíferos e sistemas de distribuição.
Nos últimos anos, a escassez hídrica passou a afetar diferentes setores da economia marroquina.
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A redução da disponibilidade de água coincidiu com perdas no rebanho, alta de preços de alimentos e dificuldades no campo.
O ministro da Agricultura informou que o efetivo pecuário do país havia encolhido 38% em nove anos, num cenário marcado por estiagens consecutivas e menor volume armazenado nas barragens.
Diante desse quadro, o governo marroquino passou a tratar a infraestrutura hídrica como uma frente permanente de gestão.
O ministro da Água, Nizar Baraka, afirmou que o país operava 17 usinas de dessalinização, tinha outras quatro em construção e planejava mais nove.
A meta oficial é alcançar capacidade de 1,7 bilhão de metros cúbicos por ano até 2030.
Dessalinização no abastecimento de água em Marrocos
A dessalinização consiste na retirada de sais e outros minerais da água do mar para produção de água doce.
Em geral, esse processo é feito por meio de membranas, como na osmose reversa, tecnologia amplamente usada em países com baixa disponibilidade de água superficial e forte dependência de áreas costeiras.
No caso de Marrocos, a ampliação dessas usinas foi incorporada à política nacional de abastecimento.
Em dezembro de 2025, Baraka afirmou que cerca de 25% da água potável consumida no país já vinham da dessalinização e que a meta oficial é elevar essa participação para 60% até 2030.
Entre os projetos anunciados está uma unidade de grande porte na região de Tiznit, no sul marroquino, com capacidade prevista de 350 milhões de metros cúbicos por ano.
Outras instalações também foram previstas para cidades como Rabat e Tantan, dentro de um plano que busca reduzir a dependência das chuvas em centros urbanos e em áreas com alta demanda.
Ainda assim, o avanço dessa tecnologia não significa que toda a produção agrícola passará a usar água dessalinizada.
Segundo Baraka, esse recurso não será destinado ao cultivo de trigo, principalmente por causa do custo do processo e da extensão das áreas plantadas.
A opção do governo é direcionar essa água para abastecimento urbano e para segmentos específicos da agricultura, liberando mais volume das barragens para zonas agrícolas do interior.
Energia renovável e custo da água dessalinizada
O custo é um dos pontos centrais dessa estratégia.
A dessalinização exige grande consumo de energia, tanto no tratamento da água quanto no bombeamento e na distribuição.
Por isso, o governo marroquino também passou a vincular a política hídrica aos investimentos no setor elétrico, especialmente em fontes renováveis.
Em maio de 2025, Marrocos anunciou um acordo que inclui uma linha de transmissão de 1.400 quilômetros e capacidade de 3.000 megawatts para levar energia produzida no sul a diferentes regiões do país.
O pacote também prevê apoio a projetos de dessalinização.
Ao justificar essa integração, Baraka afirmou que “o uso de energia renovável ajudará significativamente a reduzir os custos da água”.
A relação entre energia e abastecimento é um dos elementos técnicos mais relevantes desse modelo.
Quanto maior o custo da eletricidade, maior tende a ser o custo final da água dessalinizada.
Por isso, a combinação entre geração renovável e tratamento da água passou a ser tratada como uma forma de reduzir despesas operacionais e ampliar a viabilidade econômica das usinas.
Transferência de água entre bacias e infraestrutura hídrica
Além da água produzida no litoral, o governo marroquino também aposta em sistemas de transferência entre bacias para redistribuir recursos hídricos pelo território.
Essa política busca responder a uma característica recorrente do país: a chuva não cai com a mesma intensidade em todas as regiões, e parte da demanda se concentra longe das áreas mais úmidas.
Um dos principais corredores de transferência já conecta o noroeste, mais abastecido, às regiões de Rabat e Casablanca.
Segundo Baraka, a intenção oficial é estender essa infraestrutura até 2030 para reforçar barragens que atendem áreas agrícolas de Doukkala e Tadla, regiões afetadas pela escassez.
Na prática, esse tipo de obra envolve barragens, canais, estações de bombeamento e sistemas de controle para deslocar água de uma região para outra.
O objetivo é compensar desequilíbrios regionais e criar margem de segurança em períodos de estiagem, sobretudo em áreas com forte pressão urbana ou agrícola.
Ao mesmo tempo, o governo reconheceu que a expansão da produção no campo ocorreu, em parte, sem coordenação suficiente com a disponibilidade hídrica.
Em junho de 2025, Baraka disse que houve “um descompasso entre o ritmo da política agrícola e o da política da água”, situação que, segundo ele, foi agravada pelas mudanças climáticas.
Agricultura irrigada, aquíferos e restrições no campo
O tema ganhou destaque porque, mesmo em anos de seca, a agricultura dependente de águas subterrâneas seguiu avançando em algumas áreas, ao lado do aumento das exportações de frutas e hortaliças para a Europa.
Isso levou o governo a adotar restrições em regiões mais vulneráveis.
Segundo Baraka, o cultivo de melões foi proibido em Tata e reduzido em 75% em Zagora, duas áreas desérticas conhecidas pela produção agrícola irrigada.
A decisão se concentrou em culturas de maior consumo de água e ocorreu num momento em que o país tentava conter a pressão sobre lençóis subterrâneos e reservatórios.
Essas medidas se somam ao esforço de reorganizar o uso da água no campo.
Em vez de ampliar indiscriminadamente a oferta, a política marroquina passou a combinar novas fontes hídricas com restrições localizadas, redirecionamento do abastecimento e tentativa de adequar a produção à disponibilidade real de água.
Chuvas, barragens e pressão hídrica em Marrocos
As chuvas do inverno de 2025 para 2026 trouxeram alívio ao sistema hídrico marroquino.
Em janeiro de 2026, Baraka informou ao Parlamento que a seca de sete anos havia sido encerrada depois de precipitações 95% maiores que as do ano anterior e 17% acima da média sazonal.
Naquele momento, a taxa média de enchimento das barragens havia alcançado 46%.
A melhora foi relevante, mas não alterou o diagnóstico estrutural.
Em fevereiro de 2026, após novos episódios de chuva intensa, dados oficiais citados pela Reuters indicaram que o enchimento médio das barragens se aproximava de 70%.
Mesmo assim, o histórico recente de estiagem e a irregularidade das precipitações mantiveram a segurança hídrica no centro da política pública.
Segundo o Banco Mundial, Marrocos está entre os países com maior pressão sobre recursos hídricos.
A instituição aponta disponibilidade em torno de 620 metros cúbicos por pessoa por ano e alerta para o risco de queda abaixo de 500 metros cúbicos até 2030, patamar associado à escassez severa.
Nesse contexto, o país passou a combinar expansão da oferta, redistribuição regional da água e revisão de parte do uso agrícola.
Em vez de tratar a seca apenas como resposta emergencial a um ciclo ruim de chuvas, o governo marroquino vem estruturando uma política de longo prazo para abastecimento.
A combinação entre dessalinização, transferência entre bacias, barragens e energia renovável ajuda a explicar por que a gestão da água se tornou um dos principais temas da infraestrutura no país.

Enquanto isto o TF (Tarcísio de Freitas, Governador de Sao Paulo.Entregou de mão beijada a Sabesp, uma das maiores empresas de Saneamento do Mundo. Aos mercenários do Saneamento básico.