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Manguezais escondem uma limpeza bilionária da água, removem 960 mil toneladas de nitrogênio por ano e revelam um poder ambiental que muita gente ainda nem imaginava existir

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 10/05/2026 às 00:51
Atualizado em 10/05/2026 às 01:45
Manguezais removem nitrogênio da água, reduzem poluição e prestam serviço ambiental estimado em US$ 8,7 bilhões por ano.
Manguezais removem nitrogênio da água, reduzem poluição e prestam serviço ambiental estimado em US$ 8,7 bilhões por ano.
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Manguezais removem cerca de 960 mil toneladas de nitrogênio dos sistemas hídricos todos os anos, prestando um serviço ambiental estimado em US$ 8,7 bilhões anuais e ainda pouco compreendido pela ciência, com potencial de ultrapassar 5,5 milhões de toneladas sob condições ideais

Manguezais removem 960 mil toneladas de nitrogênio dos sistemas hídricos todos os anos. As descobertas, publicadas em 29 de abril na revista Earth’s Future, estimam que esse serviço vale US$ 8,7 bilhões por ano.

A remoção ocorre em florestas costeiras tropicais e subtropicais, de plantas tolerantes ao sal que crescem entre as linhas da maré alta e da maré baixa. Suas raízes altas e emaranhadas retêm sedimentos ricos em micróbios, capazes de transformar parte do nitrogênio presente na água em gases que saem do ecossistema.

O estudo também calculou que, em condições ideais de temperatura, salinidade e disponibilidade de nitrogênio, os manguezais poderiam remover mais de 5,5 milhões de toneladas do nutriente por ano. Nesse cenário, o valor econômico do serviço chegaria a US$ 57 bilhões anuais.

Manguezais retiram nitrogênio da água

A poluição por nitrogênio está ligada ao excesso de nutrientes que chega aos sistemas hídricos por atividades humanas, como a agricultura. Entre 2002 e 2010, esse escoamento somou 35,9 milhões de toneladas de nitrogênio por ano em ecossistemas de água doce.

Esse excesso favorece o crescimento de algas e pode provocar proliferações que reduzem drasticamente a disponibilidade de oxigênio para outras espécies. A presença elevada de nutrientes também pode liberar toxinas na água, com risco de doenças.

A capacidade de remoção dos manguezais é pouco compreendida. Benoit Thibodeau, professor assistente do Departamento de Ciências da Terra e da Universidade Chinesa de Hong Kong, afirmou que a ciência ainda está nos estágios iniciais para entender o que impulsiona essa retirada.

O pesquisador explicou que o processo envolve retirar nitrogênio reativo e enviá-lo para a atmosfera como N₂, forma não reativa que pode permanecer por milhares de anos. Ziyan Wang, doutorando em ciências ambientais na mesma universidade, também participou da entrevista.

Estudo reuniu 51 pesquisas anteriores

Thibodeau e Wang analisaram resultados de 51 estudos anteriores e medições realizadas pelos próprios pesquisadores. O objetivo foi estimar as taxas globais de remoção de nitrogênio em manguezais, separando dados observados na natureza e valores possíveis sob condições ideais.

Taxas reais representam a remoção registrada nos ambientes naturais. Já as taxas potenciais indicam quanto nitrogênio poderia ser absorvido caso temperatura, salinidade e níveis do nutriente estivessem em patamares ideais.

Com essas médias e uma estimativa de área global de manguezais de 52.459 milhas quadradas, equivalentes a 135.869 quilômetros quadrados, os pesquisadores chegaram aos números globais. O resultado foi uma taxa real de 960 mil toneladas por ano e uma taxa potencial superior a 5,5 milhões de toneladas por ano.

A remoção atual equivale aproximadamente à massa de 650 sequoias-gigantes. No cenário potencial, a quantidade removida alcançaria o peso de mais de 4 mil sequoias-gigantes.

Micróbios fazem a limpeza natural

O processo depende dos microrganismos presentes nos sedimentos dos manguezais. Eles removem nitrogênio por duas vias principais: a desnitrificação e a oxidação anaeróbica de amônio, conhecida como anammox.

Na desnitrificação, o nitrato presente na água é transformado em nitrogênio gasoso e óxido nitroso. O óxido nitroso é um gás de efeito estufa, enquanto o nitrogênio gasoso deixa o ecossistema de forma não reativa.

No anammox, nitrito e amônio são convertidos em nitrogênio gasoso. Esse gás compõe 78% da atmosfera e não é considerado gás de efeito estufa.

Duas vias funcionam melhor quando há concentrações altas de nitrogênio. O estudo também aponta que existe um limite a partir do qual a capacidade de remoção diminui.

Esses processos não ocorrem apenas em manguezais. Pradarias marinhas e outros ambientes costeiros também apresentam vias semelhantes de remoção de nitrogênio.

Ainda assim, os manguezais são especialmente eficazes porque seus sedimentos têm pouco oxigênio. Essa condição favorece a atividade microbiana necessária para transformar compostos de nitrogênio e retirar o nutriente do sistema hídrico, explicou Wang.

Valor econômico chega a bilhões

Os autores usaram uma abordagem de crédito baseada no mercado para estimar o valor econômico desse serviço. O cálculo foi semelhante aos créditos de carbono usados para compensar emissões de atividades como voar.

A referência veio do que municípios de países como Austrália e Estados Unidos pagam para remover nitrogênio de seus sistemas hídricos. Com essa base, Thibodeau e Wang chegaram a pouco mais de US$ 10 mil por tonelada métrica removida.

Wang afirmou que o mercado de créditos de carbono já está bem consolidado, mas o de nitrogênio ainda não. A investigação avaliou inicialmente como diferentes mercados e setores lidam com esse tipo de poluição.

Na taxa atual de remoção, o serviço prestado pelos manguezais foi estimado em US$ 8,7 bilhões por ano. Caso a remoção alcançasse 5,5 milhões de toneladas anuais, o valor subiria para cerca de US$ 57 bilhões.

Os pesquisadores já reconheciam os manguezais como sumidouros de carbono e como áreas capazes de oferecer defesa costeira contra tempestades e proteção contra a erosão. O novo estudo acrescenta a retirada de nitrogênio, um serviço menos conhecido diante dos impactos causados pela poluição nos ecossistemas aquáticos.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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