Pesquisadores do NIST quebram recorde global com um relógio atômico de íons de alumínio, capaz de medir o tempo com precisão de 19 casas decimais. Entenda como essa tecnologia pode revolucionar a ciência.
A busca pela precisão máxima no tempo acaba de atingir um novo patamar. Cientistas do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA (NIST) desenvolveram o relógio mais preciso do mundo, superando todas as versões anteriores — inclusive seus próprios recordes — com um avanço de 41% em precisão e 2,6 vezes mais estabilidade do que qualquer outro relógio iônico conhecido.
O segredo está em um único íon de alumínio aprisionado, cuidadosamente manipulado por lasers e sistemas de vácuo ultracontrolados. A nova máquina do tempo atômica consegue medir o tempo com precisão até a 19ª casa decimal, um feito tão minucioso que equivale a errar em apenas um segundo a cada 30 bilhões de anos — mais que o dobro da idade estimada do universo.
O que é um relógio atômico e por que ele é tão importante?
Relógios atômicos não têm ponteiros nem engrenagens. Eles medem o tempo contando as oscilações regulares de átomos — como o césio, tradicionalmente usado para definir o segundo. No entanto, os relógios atômicos ópticos, como o novo modelo com tecnologia de íons de alumínio, operam em frequências de luz muito mais altas, o que permite contar mais “tiques” por segundo, aumentando drasticamente a precisão.
-
Parque nacional dos EUA colocou pássaros robóticos perto de aeroporto para salvar espécie ameaçada: após 32 mortes por aviões, réplicas que dançam e emitem sons tentam atrair aves reais para área restaurada de 100 acres longe das pistas em Wyoming
-
Rússia e Índia içam um vaso de pressão de 320 toneladas para dentro do reator da usina nuclear de Kudankulam em uma operação de precisão, avançando um projeto que, segundo as empresas, já evitou 112 milhões de toneladas de emissões de CO2
-
Estudante de colégio militar de Manaus criou um método que usa ondas sonoras para mexer em genes ligados ao Alzheimer e levou prêmio mundial na maior feira de ciências do planeta, nos Estados Unidos
-
Bosch revoluciona com motor de cubo para bicicletas elétricas de apenas 2,3 kg, 45 Nm de torque e 400 Watts de potência; novidade elimina resistência acima de 25 km/h e marca uma mudança histórica da fabricante alemã

Esses instrumentos têm aplicações fundamentais em GPS, redes de telecomunicação, satélites meteorológicos, física fundamental, computação quântica e até mesmo medição da gravidade com altíssima precisão, ramo conhecido como geodésia relativística.
Por que o alumínio?
O íon de alumínio (Al⁺) é excepcionalmente estável e tique-taqueia com uma regularidade difícil de perturbar, mesmo em ambientes com variações de temperatura e campo magnético. Isso o torna mais preciso que o césio, mas há um problema: o alumínio é difícil de manipular com lasers.
A solução encontrada foi emparelhar o íon de alumínio com um íon de magnésio (Mg⁺) em uma técnica chamada espectroscopia de lógica quântica. O magnésio atua como um “intérprete” óptico, resfriando o alumínio e permitindo que seus estados sejam lidos indiretamente, sem perturbar sua estabilidade.
Engenharia extrema: da armadilha ao laser
Construir um relógio com tamanha precisão exigiu 20 anos de aprimoramentos contínuos. Entre os desafios, estava o micromovimento excessivo causado por imperfeições na armadilha que mantém os íons em posição. Pequenos desequilíbrios elétricos alteravam a frequência dos tiques. Para corrigi-los, os cientistas redesenharam a armadilha com pastilhas de diamante e eletrodos de ouro mais espessos, estabilizando o campo elétrico ao redor dos íons.

Outro obstáculo era o vácuo. Câmaras tradicionais de aço liberam pequenas quantidades de hidrogênio, que colidem com os íons e prejudicam a medição. O time trocou o material por titânio, o que reduziu a presença de gás residual em 150 vezes, permitindo que o relógio funcione por dias sem intervenção — antes, era necessário recarregar a armadilha a cada meia hora.
O laser mais estável do mundo entra em cena
Mesmo com o íon mais estável e a armadilha mais precisa, faltava ainda um laser de referência com ruído quântico mínimo. Para isso, o NIST recorreu a Jun Ye, do laboratório JILA (ligado ao NIST e à Universidade do Colorado), criador do anterior recordista mundial: o relógio de estrôncio óptico.
Por meio de fibras ópticas subterrâneas, a equipe conectou o laser ultraestável de Ye, a 3,6 km de distância, ao laboratório do relógio de alumínio. Um pente de frequência — uma espécie de régua óptica — permitiu transferir a estabilidade do laser de Ye para o novo relógio. Resultado: o tempo de medição para alcançar 19 casas decimais caiu de três semanas para apenas um dia e meio.
O que isso muda na prática?
Além de bater um recorde científico, o novo relógio atômico de íon de alumínio pode ter impactos profundos:
- Redefinição do segundo: o sistema internacional já discute atualizar a definição de segundo baseada em relógios ópticos mais precisos do que os de césio;
- Exploração da física fundamental: esse nível de precisão pode detectar variações nas constantes fundamentais da natureza, como a constante de estrutura fina, abrindo caminho para testar teorias além do Modelo Padrão da física;
- Geodésia relativística: o relógio pode sentir pequenas variações no campo gravitacional da Terra, permitindo mapear altitudes com precisão milimétrica — algo útil em monitoramento de mudanças climáticas, tectonismo e até exploração espacial;
- Tecnologia quântica: a lógica quântica utilizada pode ser adaptada para computadores quânticos e sensores de altíssima precisão.
O tempo como ferramenta de descoberta
“Estamos prontos para explorar novas arquiteturas de relógio — como entrelaçamento de múltiplos íons — que podem elevar ainda mais nossa capacidade de medição”, disse Willa Arthur-Dworschack, estudante de pós-graduação e coautora do estudo, publicado na Physical Review Letters.
Para além dos segundos e décimos, este relógio é uma janela para o invisível. Ao refinar a forma como medimos o tempo, os cientistas podem revelar sutilezas do universo que até agora escapavam à observação humana.
