Sem uma política pública consistente, que eleve o valor agregado dos minerais críticos, governo se limita a afirmar que a exploração mineral deve dar espaço à transferência de tecnologia. À mesa de negociações, está em jogo quem possui capacidade de processamento, refino e fabricação de componentes de alto valor agregado (midstream e downstream)
A acirrada disputa geopolítica por minerais críticos coloca a Vale do Rio Doce no epicentro da transição energética global, que corre o risco de se limitar ao papel de mera fornecedora de matérias-primas aos mercados mais estratégicos da atualidade, como Inteligência Artificial (IA); semicondutores (hardware); computação em nuvem; segurança cibernética e transição energética, que dominam a infraestrutura global e respondem pela soberania econômica e militar.
Palavra de ordem é acesso imediato a minerais críticos
O presente cenário, que muda em velocidade hipersônica, ao superar as ‘mazelas’ estruturais do ciclo do petróleo, agora opera sobre outra base, uma vez que a segurança energética dos países está condicionada ao acesso contínuo aos chamados minerais críticos (lítio, cobalto, níquel, grafita e terras raras), que passaram a ser a ‘cereja do bolo’ da cobiça internacional, voltada à fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas e painéis solares, entre outros itens.
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À mesa de negociações, está em jogo quem possui capacidade de processamento, refino e fabricação de componentes de alto valor agregado (midstream e downstream), em que o Brasil é uma peça vital no movimento empreendido pelos Estados Unidos e União Europeia, no sentido de quebrar a hegemonia chinesa sobre a cadeia de minerais críticos – conquistada à base de fortes subsídios estatais, tolerância a passivos ambientais – condição que serviu como instrumento de coerção geopolítica. A arremetida ocidental contra o gigante asiático marca a nova fase da transição energética.
Brasil tenta reverter papel secundário em setor estratégico
Detentor de 98% das reservas mundiais de nióbio e a segunda maior reserva de terras raras do planeta, o Brasil, todavia, se mantém na posição de mero exportador de minério bruto e importador de tecnologias acabadas, a preços muito maiores.
Na tentativa de reverter esse quadro ultrapassado, foi instituída a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PMMCE), de modo a condicionar a exploração mineral à transferência de tecnologia e à implantação de plantas industriais de beneficiamento. Ao mesmo, o país possui uma vantagem comparativa, ante seus concorrentes asiáticos, pois 90% de sua matriz elétrica provêm de fontes renováveis, o que permite processar minerais críticos com uma pegada de carbono muito inferior.
Para que avance, o acordo firmado com a Índia demanda capacidade do Estado brasileiro de superar a fragmentação institucional, por meio da instituição de um marco regulatório que ofereça segurança jurídica aos investidores, sem que isso implique concessões ao interesse nacional e do conceito inegociável de sustentabilidade socioambiental. Como saldo negativo, o país perde a perspectiva de vanguarda da transição energética.
Desaceleração da economia chinesa define estratégia da Vale
No caso específico da mineradora brasileira, seu grau de relevância no cenário externo está condicionado ao ritmo em que se dará a desaceleração da economia chinesa, seu principal mercado de destino.
Para explorar de modo mais consistente o potencial de alavancagem da miríade de negócios abertos para a Vale, no contexto atual, destacamos os seguintes tópicos:
Demanda ascendente: a ascensão da inteligência artificial e das tecnologias verdes aumentou drasticamente a demanda por cobre, níquel e terras raras. A Vale (via sua subsidiária Vale Base Metals) atua para expandir a produção desses insumos estratégicos.
Vantagem comparativa: matriz elétrica quase totalmente renovável, além da vantagem comparativa de possuir uma postura de ‘neutralidade geopolítica’ e estabilidade democrática do país, que servem de ‘blindagem’ da mineradora quanto a sanções ou bloqueios comerciais que atingem concorrentes.
Neutralidade geopolítica serve para ‘blindar’ mineradora
Dependência asiática: responsável pela aquisição de um volume entre 60% a 63% de todo o seu minério, a economia chinesa (com maior demanda pelo setor imobiliário e metas de descarbonização) é vital para assegurar da receita da mineradora.
Pressão: o ‘afã’ chinês pela centralização do poder de compra e controle logístico do setor de mineração constituem fatores de pressão sobre os preços das commodities e margens de lucro da Vale.
Mineradora prioriza fundo para transição energética
Superando a expectativa geral em torno dos minerais críticos (cobre, níquel, lítio e terras raras), a Vale investiu na criação do fundo Ore Régia FIP, em parceria com o BNDES, direcionado ao financiamento de projetos de pesquisa e desenvolvimento de minerais vitais para a transição energética.
Tal fundo, cuja meta é de atrair cerca de R$ 1 bilhão, deve conferir prioridade às pequenas e médias empresas, tendo em vista a implantação de novas minas e o fomento da cadeia de minerais estratégicos. Dando o tom da disposição da mineradora, o CEO Gustavo Pimenta acentuou, em entrevista à rede CNN, que os investimentos da empresa vão priorizar aqueles segmentos que oferecem escala operacional ou potencial de expansão.
“A gente tem avaliado se existiriam outras commodities em que deveríamos participar. Nosso foco hoje é naquilo em que temos escala e potencial minerário disponível. Nosso foco hoje é o minério de ferro de alto teor, que é fundamental para descarbonizar a cadeia siderúrgica, o cobre e o níquel”, afirmou o executivo.


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