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Escassez de mão de obra: mesmo com bons salários, profissão enfrenta déficit de 5,8 milhões e faz hospitais disputarem enfermeiros no mundo

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 08/06/2026 às 22:52
Atualizado em 08/06/2026 às 23:09
Assista o vídeoDéficit global de enfermeiros chega a 5,8 milhões e amplia disputa de hospitais por profissionais qualificados no mundo.
Déficit global de enfermeiros chega a 5,8 milhões e amplia disputa de hospitais por profissionais qualificados no mundo.
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Déficit global de enfermeiros expõe uma disputa crescente por profissionais qualificados, enquanto sistemas de saúde lidam com envelhecimento populacional, aposentadorias, migração internacional e desigualdade na distribuição da força de trabalho, segundo dados da Organização Mundial da Saúde.

A falta de enfermeiros permanece entre os principais desafios dos sistemas de saúde no mundo, mesmo em uma profissão essencial, regulamentada e com demanda constante em hospitais, clínicas, serviços públicos e atendimento domiciliar.

O déficit global foi estimado em 5,8 milhões de profissionais em 2023, segundo o relatório State of the World’s Nursing 2025, divulgado em 12 de maio de 2025 pela Organização Mundial da Saúde, pelo Conselho Internacional de Enfermeiros e parceiros.

De acordo com o levantamento, a força de trabalho global de enfermagem passou de 27,9 milhões de pessoas em 2018 para 29,8 milhões em 2023, mas o aumento não eliminou as desigualdades na distribuição desses profissionais.

Esse cenário ajuda a explicar a disputa por mão de obra qualificada em hospitais, unidades de emergência, serviços de atenção primária e instituições de longa permanência, onde a necessidade de atendimento depende também da contratação e da permanência desses trabalhadores.

Em muitos países, o desafio não se limita à formação de novos enfermeiros, porque envolve financiamento, oferta de vagas, condições de trabalho e capacidade dos sistemas público e privado de absorver profissionais qualificados.

Distribuição de enfermeiros no mundo

A desigualdade na oferta de profissionais aparece de forma direta na concentração da mão de obra, segundo a OMS.

Cerca de 78% dos enfermeiros do mundo estão em países que reúnem apenas 49% da população global, o que indica que o total de trabalhadores formados não representa, sozinho, a disponibilidade real de atendimento.

Na prática, populações que vivem em regiões com menor presença desses profissionais podem enfrentar restrições no acesso a consultas, vacinação, cuidados pós-operatórios, acompanhamento de doenças crônicas, atendimento materno-infantil e resposta a emergências.

O relatório também mostra que países de baixa e média renda enfrentam dificuldades para transformar a formação de novos profissionais em atendimento efetivo, já que a graduação não garante, por si só, contratação e permanência no sistema de saúde.

Em várias nações, o aumento no número de formados não se converte automaticamente em mais enfermeiros disponíveis, porque faltam vagas sustentáveis, financiamento e capacidade institucional para incorporar esses trabalhadores aos serviços.

Déficit global de enfermeiros chega a 5,8 milhões e amplia disputa de hospitais por profissionais qualificados no mundo.
Déficit global de enfermeiros chega a 5,8 milhões e amplia disputa de hospitais por profissionais qualificados no mundo.

Nas economias de alta renda, por outro lado, a pressão aparece associada ao envelhecimento da força de trabalho, à aposentadoria de profissionais experientes e à dependência de enfermeiros formados no exterior.

Migração de enfermeiros e disputa internacional

A mobilidade internacional passou a ocupar papel relevante na resposta à falta de enfermeiros, especialmente em países que dependem de trabalhadores estrangeiros para manter serviços de saúde em funcionamento.

Segundo a OMS, 1 em cada 7 enfermeiros no mundo nasceu em país diferente daquele onde trabalha, proporção que chega a 23% nas economias de alta renda.

Esse movimento contribui para preencher vagas em sistemas capazes de atrair profissionais estrangeiros, mas também amplia a concorrência internacional por trabalhadores qualificados em uma área que já apresenta déficit global.

Quando a migração ocorre sem planejamento, países com menor disponibilidade de enfermeiros podem perder parte da força de trabalho necessária para atender suas próprias populações, conforme alertas presentes no relatório.

Por esse motivo, a OMS recomenda que países de alta renda revisem a dependência de profissionais formados no exterior e fortaleçam acordos bilaterais com as nações de origem desses trabalhadores.

A orientação busca equilibrar a contratação internacional com a proteção dos sistemas de saúde de países que já enfrentam escassez, evitando que a saída de profissionais agrave déficits locais.

A idade da força de trabalho acrescenta outro elemento à pressão sobre os serviços.

Embora 33% dos enfermeiros tenham menos de 35 anos, cerca de 19% devem se aposentar nos próximos dez anos, o que pode reduzir a presença de profissionais experientes em áreas assistenciais.

Em 20 países, a maioria de alta renda, as aposentadorias previstas podem superar a entrada de novos trabalhadores, segundo a OMS, o que eleva a necessidade de planejamento para formação, contratação e retenção.

Formação em enfermagem exige tempo e regulação

A enfermagem apresenta exigências que tornam a reposição de profissionais mais lenta do que em ocupações sem regulação específica.

O trabalho envolve procedimentos clínicos, administração de medicamentos, monitoramento de pacientes, coordenação de equipes, vacinação, cuidados intensivos e atuação direta na atenção primária, atividades que dependem de formação reconhecida e responsabilidade técnica.

Em muitos países, o exercício profissional também exige registro ativo, prática supervisionada e cumprimento de normas legais, o que limita respostas imediatas baseadas apenas na abertura de vagas ou no interesse de novos trabalhadores.

Essa barreira de entrada aproxima a enfermagem de outras carreiras reguladas da saúde, nas quais a formação leva tempo e a experiência prática tem papel relevante para a segurança do atendimento.

A saída de profissionais experientes também afeta a capacitação de equipes mais jovens, já que parte do aprendizado em ambientes clínicos ocorre no contato diário com trabalhadores que acumulam vivência assistencial.

A OMS afirma que os enfermeiros formam o maior grupo ocupacional da área da saúde e têm função relevante na redução de desigualdades no acesso a serviços essenciais.

O relatório de 2025 incluiu indicadores sobre capacidade de educação, prática avançada e remuneração, áreas consideradas pela entidade como estratégicas para orientar políticas públicas e dimensionar necessidades de força de trabalho.

Mulheres são maioria na enfermagem global

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A presença feminina é uma característica estrutural da enfermagem no mundo.

Mulheres representam 85% da força de trabalho global da profissão, segundo a OMS, dado que relaciona a valorização da carreira a debates sobre emprego, renda, segurança no trabalho e igualdade de oportunidades.

Esse perfil torna políticas de carreira, remuneração e liderança relevantes para hospitais, governos e famílias que dependem da renda gerada por esses empregos, especialmente em países onde a enfermagem concentra grande número de postos formais.

Quando há precarização, rotatividade elevada ou dificuldade de permanência, os efeitos podem alcançar tanto a organização dos serviços de saúde quanto a renda de trabalhadores e famílias vinculados ao setor.

O relatório também aponta avanço nas funções de prática avançada em enfermagem.

Cerca de 62% dos países relataram a existência desses papéis, percentual superior aos 53% registrados na edição anterior, publicada em 2020.

Essas funções permitem que enfermeiros assumam atividades mais complexas em determinados sistemas, desde que haja regulação, formação adequada e definição clara das responsabilidades profissionais.

Na avaliação da OMS, a expansão desses papéis pode contribuir para ampliar o acesso ao cuidado em contextos de escassez, especialmente quando integrada a políticas de formação e planejamento da força de trabalho.

Retenção de profissionais de enfermagem

A escassez de enfermeiros não está ligada apenas ao número de pessoas formadas.

A permanência na profissão depende de fatores como condições de trabalho, carga horária, segurança, apoio institucional, remuneração e saúde mental, elementos apontados pela OMS como relacionados à retenção desses trabalhadores.

A entidade informa que apenas 42% dos países respondentes relataram ter medidas de apoio à saúde mental dos enfermeiros, apesar do aumento da carga de trabalho e da exposição a situações de estresse nos serviços de saúde.

Esse dado ajuda a contextualizar por que a alta demanda por profissionais não elimina dificuldades associadas à carreira, incluindo pressão emocional, exigência técnica e necessidade de políticas de valorização.

A enfermagem pode oferecer presença em diferentes áreas da saúde e possibilidade de mobilidade internacional, mas as condições de permanência variam conforme o país, o tipo de serviço e a estrutura de apoio ao trabalhador.

Também aumenta a procura por enfermeiros fora do modelo tradicional de internação, em razão da ampliação da atenção domiciliar, do envelhecimento populacional e do acompanhamento contínuo de pessoas com doenças crônicas.

Com essa mudança, a demanda por profissionais alcança hospitais, serviços comunitários, instituições de longa permanência, unidades básicas e programas voltados à prevenção e ao cuidado continuado.

Para os sistemas de saúde, a resposta ao déficit passa por combinar formação, contratação, retenção e distribuição territorial.

Sem articulação entre essas frentes, o crescimento no número global de profissionais pode continuar insuficiente para reduzir desigualdades de acesso e aliviar a pressão sobre serviços essenciais.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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