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Tráfico e milícia criam um mercado paralelo no Rio, passam a controlar quem vende farinha, frango, água e gás, barram concorrentes e colocam padarias e mercados sob pressão constante

Escrito por Viviane Alves
Publicado em 08/06/2026 às 23:02
Atualizado em 08/06/2026 às 23:08
Caminhão realiza carregamento de sacos de farinha em galpão industrial no Rio de Janeiro, cenário que remete à investigação sobre controle de fornecedores por tráfico e milícias.
Movimentação de cargas em centro de distribuição ilustra a investigação que revelou o controle de fornecedores de alimentos por grupos criminosos em comunidades do Rio de Janeiro.
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Reportagem revela como grupos criminosos controlam fornecedores, impõem compras obrigatórias e influenciam os preços de produtos básicos consumidos diariamente pela população.

Centenas de comerciantes do Rio de Janeiro relatam viver sob o controle de traficantes e milicianos, que passaram a interferir diretamente na compra e distribuição de produtos essenciais. Mercados, padarias, barbearias e outros estabelecimentos afirmam ter perdido a liberdade de escolher seus fornecedores.

Investigação exibida pelo Fantástico, após dois meses de apuração, mostrou que empresas indicadas por organizações criminosas passaram a monopolizar a venda de diversos itens. Comerciantes ouvidos pela reportagem afirmam que a ordem é simples: comprar dos fornecedores determinados ou enfrentar consequências.

Controle avança sobre alimentos, gás e materiais de construção

Produtos básicos do cotidiano estão entre os principais alvos do esquema. Relatos apresentados na reportagem citam a comercialização de farinha, ovos, alho, cebola, carvão, água, gás e materiais de construção.

Cobranças paralelas também fazem parte da rotina dos comerciantes. Proprietários de estabelecimentos afirmam que precisam pagar taxas para manter as portas abertas. O resultado, segundo os depoimentos, é um cenário de prejuízo constante.

Monitoramento realizado durante a investigação acompanhou centros de distribuição e depósitos. Autoridades policiais informaram que algumas empresas investigadas são apontadas como ligadas a organizações criminosas que atuam em diferentes regiões da cidade.

Frangos assados giram em equipamento de rotisserie industrial, representando produtos alimentícios comercializados por comerciantes afetados pelo controle de fornecedores em comunidades do Rio de Janeiro.
Frango assado entra na lista de produtos impactados pelo controle de fornecedores em áreas dominadas por facções e milícias no Rio de Janeiro.

Fornecedores concorrentes enfrentam bloqueios e ameaças

Domínio territorial imposto por facções e milícias também afeta empresas que tentam atuar nas comunidades. Caminhões de fornecedores concorrentes são impedidos de acessar determinadas áreas.

Motoristas relatam ameaças de roubo e até incêndio dos veículos caso insistam em realizar entregas. Comerciantes afirmam que, muitas vezes, recebem apenas um aviso informando que, dali em diante, somente uma empresa específica poderá fornecer mercadorias.

Regiões da Zona Oeste registraram situações semelhantes envolvendo a venda de frango assado. Proprietários de estabelecimentos relataram que deixaram fornecedores tradicionais e passaram a comprar exclusivamente de distribuidores indicados pelos grupos criminosos.

Monopólio provoca aumento de preços para consumidores

Reflexos do esquema chegam diretamente ao bolso da população. Dados apresentados pela reportagem mostram que, em algumas localidades, o preço do frango assado saltou de R$ 10 para R$ 40 após a entrada dos grupos criminosos nesse mercado.

Especialistas entrevistados destacaram que a redução da concorrência favorece a cobrança de preços acima dos valores normalmente praticados. Consumidores acabam absorvendo parte dos custos impostos pelo monopólio ilegal.

Farinha de trigo aparece entre os principais focos das investigações. Equipes do Fantástico registraram movimentações nas empresas Evolução, localizada em Campo Grande, e Fênix, situada em Madureira.

Comerciantes afirmam que eram obrigados a adquirir farinha em quantidades superiores às necessárias. Relatos apontam que produtos vendidos normalmente por cerca de R$ 70 chegavam ao comércio por valores entre R$ 100 e R$ 110.

Impactos alcançam até mesmo o tradicional pão francês, cujo preço final acaba pressionado pelos custos adicionais enfrentados pelas padarias.

Empresas investigadas negam relação com facções criminosas

Representantes da empresa Evolução afirmaram ao Fantástico que não poderiam comentar as imagens registradas pela reportagem por não terem acesso ao material. A defesa classificou as acusações como especulações.

Posicionamento da empresa Fênix informou que não existe qualquer vínculo, participação ou associação com facções criminosas ou organizações ilícitas. A empresa também declarou permanecer à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.

Caminhão de carga estacionado para descarregamento de mercadorias em via urbana, com trabalhador próximo ao compartimento de carga e caixas armazenadas em primeiro plano, ilustrando a cadeia de distribuição de produtos básicos para comércios locais.
Caminhão de distribuição realiza entrega de mercadorias em área urbana, representando a logística de abastecimento que se tornou alvo de disputas entre fornecedores em comunidades do Rio de Janeiro.

Morte de comerciante e operação policial ampliam investigações

Caso investigado pela polícia ganhou repercussão após a morte do comerciante Rafael Oliveira Braga, ocorrida em março do ano passado. Investigações apontam que ele teria se recusado a comprar farinha de uma distribuidora ligada ao esquema.

Polícia Civil realizou, na última quarta-feira, o cumprimento de 14 mandados de busca e apreensão relacionados às empresas investigadas.

Fiscalizações encontraram produtos fora da validade em um dos depósitos vistoriados. Um homem foi preso em flagrante durante a operação.

Equipes policiais também identificaram condições inadequadas de armazenamento em outro local. Alimentos estavam próximos a fezes de animais, conforme registrado durante a ação.

Controle da distribuição fortalece caixa financeiro do crime

Investigações apontam que o controle sobre a venda de produtos representa uma importante fonte de arrecadação para facções e milícias.

Recursos obtidos por meio desse sistema abastecem o chamado caixa de guerra, utilizado para compra de armas e manutenção do domínio territorial em diversas regiões da cidade.

Sensação de impotência aparece em diversos relatos reunidos pela reportagem. Comerciantes afirmam que trabalham sob pressão constante e sem perspectivas de recuperar a autonomia de seus negócios.

Diante desse cenário, até onde o avanço do crime organizado sobre atividades econômicas essenciais pode impactar a rotina de comerciantes e consumidores no Rio de Janeiro?

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Viviane Alves

Redatora com foco na produção de conteúdos estratégicos voltados para macro e microeconomia, geopolítica, mercado energético, setor automotivo e comércio global.

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