Em termos estratégicos, os Estados Unidos têm sob seus pés o que pode ser o maior depósito de lítio do mundo: a Caldeira McDermitt, um supervulcão extinto há cerca de 16,4 milhões de anos, na fronteira entre Nevada e Oregon.
A estimativa atual de reservas no Thacker Pass, principal sítio do projeto, chega a 44,5 milhões de toneladas em equivalente a carbonato de lítio (LCE).
Conforme relatório oficial, o número foi confirmado em relatório oficial NI 43-101 da Lithium Americas Corporation, com data-base de 31 de dezembro de 2024.
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Para a caldeira inteira, o teto teórico calculado por Castor e Henry e citado em paper publicado na Science Advances em setembro de 2023 chega a 120 milhões de toneladas.
Já para comparação, a Bolívia, dona do Salar de Uyuni, declara 21 milhões de toneladas. Chile e Austrália juntos não somam 20 milhões.
Mesmo o lítio bruto recém-anunciado pelo USGS nos Apalaches, em 2026, fica em 2,3 milhões de toneladas.
Os números do projeto Thacker Pass, conforme Lithium Americas, General Motors e Department of Energy dos EUA, contam a história em cinco pontos:
- 44,5 milhões de toneladas LCE em recursos medidos e indicados em Thacker Pass
- 20 a 120 milhões de toneladas em estimativa potencial total da Caldeira McDermitt
- Até 2,4% de lítio em peso nas camadas de illita do Thacker Pass, contra <0,4% da média global
- US$ 2,26 bilhões em empréstimo do Departamento de Energia dos EUA para acelerar a produção
- 1,6 milhão de carros elétricos por ano em bateria com produção plena (Fases 1 e 2)
Como o supervulcão McDermitt guardou o maior depósito de lítio do mundo
Conforme dados do USGS, a Caldeira McDermitt é uma das primeiras estruturas vulcânicas do hotspot que hoje alimenta o supervulcão de Yellowstone.
Ela tem aproximadamente 45 quilômetros de norte a sul e 35 quilômetros de leste a oeste, formando uma bacia oval na paisagem semiárida da fronteira Nevada-Oregon.
Em termos geológicos, a caldeira foi formada quando um domo de lava riolítica colapsou catastroficamente entre 16,37 e 16,41 milhões de anos atrás.
O buraco resultante foi preenchido por água e virou um lago antigo cercado de paredes de cratera.
Esse cenário lacustre foi a chave para a concentração extrema de lítio. Por isso, fluidos hidrotermais quentes, com temperatura entre 200 e 300 graus Celsius, circularam dentro da bacia carregando lítio dissolvido em alta concentração.
Conforme o paper de 2023, esses fluidos transformaram os minerais primários de smectita-lítio em illita-lítio, mais estável e capaz de reter mais íons.
Em paralelo, a bacia fechada não tinha drenagem para rios ou riachos, então o lítio nunca escapou.
Em termos de mineração, isso significa que a rocha-mãe é argilosa e cinza esverdeada, não o sal úmido dos Andes nem o granito duro da Austrália.

O que torna o lítio do Thacker Pass até 6 vezes mais concentrado que o normal
Em depósitos sedimentares de lítio em todo o mundo, a concentração média na rocha total fica abaixo de 0,4% em peso.
No Thacker Pass, conforme medidas de cinco testemunhos publicadas na Science Advances, a illita carrega entre 1,3% e 2,4% de lítio em peso. Em ppm, a média no minério chega a 18 mil partes por milhão.
Conforme a geóloga Anouk Borst, da Universidade KU Leuven (Bélgica), uma das autoras do estudo, a explicação está em uma alteração hidrotermal secundária rica em flúor, lítio, potássio e rubídio.
O processo nunca havia sido descrito em literatura científica antes do trabalho do time de Borst e Thomas Benson, geólogo-chefe da Lithium Americas.
Em termos práticos, a faixa de alta concentração tem cerca de 30 metros de espessura. Por isso, a lavra a céu aberto consegue extrair o minério de altíssimo teor sem mover montanhas de rocha estéril.
Conforme Philipp Ruprecht, geólogo da Universidade de Nevada em Reno, “muitas bacias formadas por vulcanismo não são particularmente ricas em lítio”.
Já no caso de McDermitt, a combinação de domo ressurgente, lago fechado e fluidos hidrotermais persistentes durante milhões de anos criou um caso único no planeta.
O resultado é que, no mesmo volume de rocha, o Thacker Pass entrega cerca de seis vezes mais lítio do que um depósito argiloso comum.
Em economia de mina, isso é a diferença entre lucro confortável e prejuízo.

Bolívia, Chile, Austrália e Brasil ficam atrás do maior depósito de lítio do mundo
O Salar de Uyuni, na Bolívia, manteve por décadas o título de maior reserva conhecida de lítio.
Bolívia declara hoje 21 milhões de toneladas em equivalente metálico, mais do que dobro da estimativa anterior do país.
Já o deserto de Atacama, no Chile, fica entre 9 e 10 milhões de toneladas em recursos recuperáveis.
As duas operações sul-americanas funcionam por evaporação de salmoura em piscinas gigantes, processo que demanda muita água em região seca.
Em paralelo, a mina australiana de Greenbushes, hoje a maior operação hard-rock do mundo, produz cerca de 1,95 milhão de toneladas de espodumênio por ano.
Suas reservas atingem 6,8 milhões de toneladas LCE, base bem abaixo do Thacker Pass.
Conforme a USGS, o Brasil é o sexto maior produtor global de lítio. A produção nacional, concentrada no Vale do Jequitinhonha (Minas Gerais), bateu 51.694 toneladas LCE em 2025, com projeção de 63.757 toneladas em 2026.
Em termos estratégicos, há um detalhe constrangedor: cerca de 99% do lítio brasileiro de 2025 foi exportado para a China para processamento.
A Sigma Lithium responde por quase 70% do mercado de espodumênio brasileiro.
O CPG já cobriu o desafio brasileiro em outras matérias sobre dependência de cadeias produtivas em setores estratégicos como o militar e o energético.

GM, DOE e bateria para 1,6 milhão de carros elétricos por ano
A Lithium Americas Corporation tem 62% de participação no Thacker Pass e atua como gestora do projeto.
A General Motors entrou com 38% e investiu US$ 625 milhões em uma combinação de caixa e cartas de crédito, anúncio formalizado em 2024.
O Departamento de Energia dos EUA, via programa ATVM (Advanced Technology Vehicles Manufacturing), fechou em 2024 um empréstimo de US$ 2,26 bilhões para acelerar a Fase 1.
Conforme a Lithium Americas, o capex total da fase inicial fica entre US$ 1,3 e 1,6 bilhão.
A Fase 1 mira 40 mil toneladas anuais de carbonato de lítio em grau bateria, suficiente para abastecer cerca de 800 mil veículos elétricos por ano.
Já a Fase 2, em projeto, dobra essa capacidade para 80 mil toneladas, atendendo 1,6 milhão de carros.
Conforme Jonathan Evans, CEO da Lithium Americas, a produção comercial deve começar no fim de 2027. A engenharia detalhada estava em 93% e a procura de equipamentos em 60% no fim de 2025.
Em paralelo, o canteiro de obras já tem 950 pessoas, número que vai bater 1.800 no pico de construção em 2026.

O que a tribo Paiute Shoshone pensa do maior depósito de lítio do mundo
Conforme registros locais, o sítio do Thacker Pass tem outro nome para o povo originário da região: Peehee Mu’huh, que significa “podridão de lua” em paiute, em referência a um massacre de membros da tribo Northern Paiute por imigrantes europeus em setembro de 1865.
Conforme a tribo Fort McDermitt Paiute and Shoshone, o local é sagrado e abriga sepulturas. Em paralelo, a Reno-Sparks Indian Colony e a tribo Burns Paiute também se opõem ao projeto.
As tribos entraram com processos no tribunal federal questionando licenças ambientais e protocolos de consulta prévia.
Em paralelo, os tribunais autorizaram a continuidade da construção, mas a oposição segue ativa. Conforme líderes indígenas, o projeto pode contaminar lençóis freáticos sagrados e destruir um sítio funerário antigo.
Já a Lithium Americas afirma cumprir todos os protocolos federais de consulta e investiu em programas de mitigação ambiental.
Conforme Evans, a empresa “respeita a importância cultural do local e está em diálogo permanente”.
O que muda no jogo EUA vs China e onde o Brasil entra
Em termos estratégicos, a China processa hoje cerca de 67% do lítio mundial e detém apenas 8% das reservas globais.
Por isso, EUA dependem da China para mais de 70% do refino, mesmo quando a matéria-prima vem de outros países.
Conforme análises do setor, o Thacker Pass é a primeira tentativa séria americana de fechar a cadeia: extrair lítio em casa, processar em casa, montar bateria em casa, vender carro elétrico em casa.
O Inflation Reduction Act de 2022 já dá benefícios fiscais para projetos com cadeia doméstica, lógica também presente no esforço militar pra americanizar produção, conforme a cobertura do CPG sobre o laser LOCUST do US Navy.
Em paralelo, em maio de 2026, o USGS anunciou outro depósito relevante nos Apalaches, com 2,3 milhões de toneladas de óxido de lítio.
Esse achado, conforme cálculo da Fortune, equivale a 328 anos de importações americanas no ritmo de 2024.
Por isso, para o Brasil, a equação é desconfortável. O país tem reservas em Minas Gerais, mas exporta praticamente tudo bruto para a China.
Já os EUA estão criando um competidor direto que resolve o gargalo de matéria-prima e ainda controla o processamento.
Vale ressaltar, contudo, que o cronograma de produção comercial do Thacker Pass Phase 1 é fim de 2027 conforme guidance da Lithium Americas em fevereiro de 2026.
Esta matéria será atualizada com a confirmação de início efetivo da operação e com novos dados do USGS sobre reservas comparáveis.

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