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Maior açude do Brasil tem capacidade de 6,7 bilhões de metros cúbicos, ocupa áreas de quatro municípios e transformou o sertão ao submergir uma cidade inteira para existir

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Escrito por Fabio Lucas Carvalho Publicado em 15/11/2025 às 00:47 Atualizado em 15/11/2025 às 22:10
Maior açude do Brasil guarda 6,7 bilhões de metros cúbicos e mudou a história do sertão após submergir uma cidade inteira
Maior açude do Brasil guarda 6,7 bilhões de metros cúbicos e mudou a história do sertão após submergir uma cidade inteira
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Com quase sete bilhões de metros cúbicos de água, o maior açude do país mudou a geografia do Ceará, alagou a antiga sede de um município e redefiniu o abastecimento hídrico de toda a região

O Açude Castanhão, oficialmente chamado de Açude Público Padre Cícero, marca uma das maiores transformações na relação do sertanejo com a água.

A construção sobre o leito do rio Jaguaribe, no Ceará, coroa uma trajetória iniciada ainda no século XIX, quando as secas do Nordeste já apareciam como um grande desafio nacional.

As paisagens castigadas pela estiagem revelavam chão rachado, gado magro e estradas de poeira, elementos que definiam o cotidiano de um povo que buscava soluções duradouras para sobreviver.

A política de açudagem surgiu nesse cenário, quando Dom Pedro II decidiu enfrentar o fenômeno com a construção do Açude Cedro, em Quixadá.

O esforço se intensificou ao longo da República, multiplicando reservatórios de vários tamanhos.

Dentro desse movimento, começou a ganhar forma a ideia de erguer uma grande barragem no vale do Jaguaribe, capaz de regular cheias, enfrentar longas estiagens e garantir água para diversas atividades econômicas.

A escolha do Boqueirão do Cunha

Os primeiros estudos que apontaram a viabilidade da obra ocorreram por volta de 1910, conduzidos pelo então Inspetoria de Obras Contra as Secas.

A escolha do local não aconteceu por acaso. O engenheiro de Stanford Roderic Crandall identificou no Boqueirão do Cunha marcadores geológicos que mostravam ser aquela a melhor região para receber a barragem.

Ele chegou a viver em uma caverna da área, conhecida como Caverna do Doutor, que funcionava como residência e escritório.

Curiosamente, durante as escavações, Crandall encontrou um bloco de pedra com a frase enigmática: “Região São Salvador caverna do mistério, obra do fim dos tempos 1893”.

O registro ficou preservado como uma curiosidade histórica do lugar que, décadas depois, abrigaria a tomada d’água do Castanhão.

O protagonismo da família Cunha na concepção inicial

De acordo com a Prefeitura de Alto Santo, a família Cunha foi a primeira a idealizar o projeto do reservatório.

José Holanda Cunha, figura influente da região, comandava a oligarquia local e possuía as terras da fazenda Castanhão e do povoado Boqueirão do Cunha.

O açude recebeu esse nome justamente por ocupar quase toda a propriedade da família.

A concepção inicial ganhou força quando os estudos técnicos do governo apontaram a mesma área como ideal para a barragem.

O início da obra e o deslocamento de Jaguaribara

A construção do Castanhão começou oficialmente em 1995, durante o governo de Tasso Jereissati, em parceria entre o DNOCS e a Secretaria de Recursos Hídricos do Ceará.

O projeto foi concluído em 23 de dezembro de 2002, na gestão de Beni Veras.

Antes da execução, o DNOCS já havia elaborado, ao longo dos anos 1980, os projetos básicos e executivos, a partir de estudos preliminares da Transposição de Vazões do Rio São Francisco.

O avanço da obra trouxe uma consequência inescapável: o alagamento da antiga sede do município de Jaguaribara.

A área ficou submersa, o que levou à criação de Nova Jaguaribara, com réplicas da igreja matriz e da igreja do Poço Comprido, preservando parte da memória arquitetônica da cidade.

A engenharia que moveu montanhas

Entre maio de 1996 e agosto de 1997, equipes trabalharam nas escavações em rolo e rocha para a implantação do vertedouro.

Após a conclusão dessa etapa, em setembro de 1997, começou a concretagem da estrutura, que seguiu até outubro de 1999. A empresa Andrade Gutierrez executou a obra sob fiscalização direta do DNOCS.

A grandiosidade do Castanhão aparece nos números. Ele comporta 6,7 bilhões de metros cúbicos de água, o que o coloca como o maior açude de múltiplos usos da América Latina.

Sozinho, representa 37 por cento da capacidade de armazenamento de todos os mais de oito mil reservatórios cearenses. Antes dele, o título de maior açude pertencia ao Orós, que armazena pouco mais da metade dessa quantidade.

Usos múltiplos e impacto regional

O Castanhão abastece o vale do Jaguaribe, sustenta projetos de agricultura irrigada, pesca, piscicultura e atividades de lazer náutico.

Suas águas também ajudam no abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza sempre que necessário.

Além disso, a partir do Canal da Integração, o reservatório tem papel estratégico para o Complexo Portuário do Pecém e para a instalação de um polo industrial, aumentando seu valor para todo o Ceará.

Apesar do tamanho, o Castanhão não tem uso hidroelétrico. Sua função se concentra no controle das secas e cheias sazonais, garantindo segurança hídrica ao estado.

A importância de Zita Timbó na condução da obra

A história do Castanhão guarda também o protagonismo de uma mulher que rompeu barreiras: a engenheira Maria Zita Timbó Araújo. Formada pela Universidade Federal do Ceará, ela ingressou no DNOCS em 1980 e, em 1995, recebeu o convite para presidir as obras da barragem.

Liderar uma equipe de 1.200 pessoas em um dos maiores projetos de infraestrutura do país não era tarefa comum para uma mulher nos anos 1990.

Zita conciliou a função com a maternidade, já que seu filho tinha apenas nove meses quando assumiu o posto. Sua trajetória inspira mulheres que enfrentam desafios múltiplos, unindo vida profissional e familiar enquanto ocupam espaços historicamente masculinos.

O Castanhão como marco do sertão

A seca sempre acompanhou o sertanejo ao longo dos séculos. Quando as chuvas falhavam, restava a luta pela sobrevivência. A antiga profecia que dizia “o sertão vai virar mar” ganhou um sentido simbólico quando o reservatório tomou forma.

Para muitos moradores, o Castanhão representou esse “mar” que veio com paredes, represando o curso natural da água para garantir vida e esperança.

O açude se tornou uma obra emblemática da engenharia moderna. Ele une estudos iniciados no século XIX, planejamentos do século XX e execução concluída no século XXI.

Resultado de décadas de esforços, debates, pesquisas e deslocamentos, o reservatório hoje integra a rotina e o sustento de milhares de cearenses.

Um patrimônio que atravessa gerações

A construção do Castanhão atravessou períodos políticos distintos, incorporou conhecimentos nacionais e estrangeiros e mobilizou comunidades inteiras.

A submersão de Jaguaribara, a criação de Nova Jaguaribara, o trabalho de milhares de pessoas e a liderança de uma engenheira em um momento histórico compõem um mosaico humano que vai além da engenharia.

As curiosidades do Boqueirão do Cunha, como a antiga caverna habitada por Crandall, ajudam a reforçar o quanto a história do Castanhão reúne camadas de simbolismo e esforço coletivo. O registro enigmático encontrado na pedra, as escolhas técnicas, os estudos geológicos e as mudanças territoriais ampliam a dimensão cultural da barragem.

A grande obra que redefiniu o abastecimento no Ceará

Com sua capacidade monumental e usos múltiplos, o Castanhão se tornou peça essencial da infraestrutura hídrica do estado.

Ele ajuda a enfrentar períodos de estiagem, viabiliza atividades econômicas e sustenta o abastecimento humano. Sua construção representa a continuidade de uma política iniciada no Império, ajustada ao longo do século XX e concretizada com força no fim do século passado.

A história do Castanhão é, sobretudo, uma história de resistência, engenharia, estratégia e transformação. Cada etapa revela a importância de um projeto que mudou o sertão e que segue essencial para o futuro do Ceará.

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Enyo
Enyo
17/11/2025 10:27

Pois é, e hoje em dia com tantos métodos de energias renováveis, sem agredir o meio ambiente, energia eólica, energia solar e ainda precisam lavar dinheiro com essas megas construções, mexendo em toda a fauna, flora, e devastando até cidades.

Reinaldo Costa
Reinaldo Costa
17/11/2025 09:42

Infelizmente hoje se encontra com nível crítico, o que não deveria esta acontecendo se tivesse chegando as águas do São Francisco, águas essa desligadas no dia 2 de janeiro de 23 pelo atual governo ao desligar as bombas do açude Jati. Era pra esta cheio e hoje se encontra quase seco.

Haroldo
Haroldo
16/11/2025 22:13

Um fenômeno o Castanhão, não sei porque a transposição do São Francisco demorou tanto para ser concluída, a qual deveria ter seguido o exemplo extraordinário do açude em questão, até padre fez greve de família me para q ninguém tocasse o Velho Chico e q suas águas se perdessem para sempre nas águas salgadas do mar e não fossem acumuladas nos açudes q fazem a felicidade dos nordestinos.

Helio Sampaio
Helio Sampaio
Em resposta a  Haroldo
17/11/2025 05:56

A demora não é surpresa,anos e anos de governos de esquerda,que tiraram e tiram do povo nordestino o direito a água,e a usando como moeda de troca.

Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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