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Luzes subaquáticas instaladas em redes de pesca afastam tubarões sem feri-los, reduzem drasticamente capturas acidentais e mostram que convivência entre pesca e predadores é possível

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 26/01/2026 às 18:20
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Luzes subaquáticas do projeto SharkGuard reduzem capturas acidentais de tubarões sem feri-los e mostram que pesca e conservação podem coexistir no oceano.

Durante décadas, a relação entre pesca comercial e tubarões foi marcada por um conflito silencioso e devastador. Redes de emalhe, usadas em larga escala em todo o mundo, capturam peixes-alvo com eficiência, mas também aprisionam tubarões, raias e outros grandes predadores de forma acidental. O resultado é conhecido: milhões de animais mortos todos os anos, impacto direto sobre ecossistemas marinhos e prejuízo econômico para pescadores que perdem equipamentos e tempo de trabalho.

Foi nesse cenário que surgiu o SharkGuard, um projeto que chamou a atenção da comunidade científica por uma razão simples e inesperada: ele não tenta afastar tubarões com força, dor ou exclusão física, mas com luz.

Como a luz virou aliada da conservação marinha

A ideia central do SharkGuard parte de uma característica pouco explorada da biologia dos tubarões. Esses animais possuem sensibilidade visual e eletrossensorial extremamente refinada, desenvolvida para detectar presas em ambientes de baixa luminosidade. Ao contrário de peixes ósseos comuns, muitos tubarões reagem de forma negativa a estímulos luminosos específicos, especialmente quando estes alteram padrões naturais de contraste no fundo do mar.

O projeto testou pequenas luzes LED verdes, alimentadas por baterias de longa duração, acopladas diretamente às redes de pesca. Essas luzes não criam uma barreira física nem machucam os animais. Elas apenas tornam a rede visível e desconfortável para o tubarão, levando-o a evitar o contato antes de ficar preso.

O detalhe crucial é que o peixe-alvo, em muitos casos, não reage da mesma forma, permitindo que a pesca continue acontecendo.

Testes em mar aberto e resultados consistentes

Os testes do SharkGuard foram realizados em condições reais de pesca, especialmente em águas europeias, onde a captura acidental de tubarões é um problema conhecido. Redes equipadas com as luzes foram comparadas a redes tradicionais, usadas lado a lado, durante períodos prolongados.

Os resultados chamaram atenção porque não foram marginais. As redes iluminadas apresentaram reduções significativas na captura acidental de tubarões e raias, enquanto a quantidade de peixes comerciais capturados se manteve praticamente estável.

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Em termos práticos, isso significa menos animais mortos, menos tempo gasto soltando capturas indesejadas e menor dano às redes, que frequentemente são destruídas quando grandes tubarões ficam presos.

Por que afastar sem ferir faz toda a diferença

Muitas tentativas anteriores de lidar com tubarões envolveram métodos agressivos: repulso elétrico intenso, sons de alta frequência ou até barreiras físicas. Embora alguns funcionem, eles costumam ser caros, difíceis de manter ou causar estresse severo aos animais.

O diferencial do SharkGuard está em não transformar o tubarão em inimigo, mas em sinalizar que aquele local não é interessante para ele. Não há choque, dor ou condicionamento negativo extremo. O animal simplesmente muda de rota.

Esse detalhe é fundamental porque evita um problema comum em tecnologias de dissuasão: a adaptação comportamental. Ao não associar o estímulo a uma ameaça direta, a chance de o tubarão “aprender a ignorar” o sistema ao longo do tempo é menor.

Benefícios diretos para pescadores

Embora o projeto tenha forte apelo ambiental, ele não foi pensado apenas para a conservação. Os pescadores envolvidos nos testes relataram vantagens práticas claras. Redes com menos capturas acidentais exigem menos tempo de limpeza, menos esforço físico e menos risco durante o manuseio no convés.

Além disso, a redução de grandes animais presos diminui significativamente o rompimento das redes, um dos custos mais altos da pesca artesanal e semi-industrial.

Do ponto de vista econômico, isso cria um raro alinhamento de interesses: proteger tubarões deixa de ser um “favor ao meio ambiente” e passa a ser uma vantagem operacional.

Um novo tipo de relação entre pesca e predadores

O caso do SharkGuard reforça uma mudança importante na forma como a conservação marinha vem sendo pensada. Em vez de excluir completamente a atividade humana ou tratar predadores como obstáculos, a estratégia passa a ser ajustar o comportamento, reduzindo o conflito sem eliminar nenhum dos lados.

Essa lógica já mostrou resultados em outros contextos terrestres, como cercas de colmeias contra elefantes ou luzes piscantes contra leões. No oceano, onde o controle é muito mais difícil, o sucesso do SharkGuard ganha ainda mais relevância.

Limitações e desafios do sistema

Apesar dos resultados promissores, os próprios pesquisadores reconhecem que o SharkGuard não é uma solução universal. O efeito pode variar conforme a espécie de tubarão, a profundidade, a turbidez da água e o tipo de pesca praticado.

Além disso, ainda há desafios relacionados ao custo inicial das luzes e à necessidade de manutenção periódica das baterias. Esses fatores são especialmente sensíveis para comunidades pesqueiras de baixa renda.

Mesmo assim, quando comparado a perdas recorrentes com redes danificadas e tempo improdutivo, o investimento tende a se justificar ao longo do tempo.

Potencial de expansão global

Com os resultados positivos, o SharkGuard passou a ser visto como um modelo replicável em outras regiões do mundo. Países com altos índices de captura acidental de tubarões, como aqueles com pesca de emalhe costeira intensa, são candidatos naturais à adoção da tecnologia.

O princípio também abre portas para novas adaptações, incluindo ajustes de cor, intensidade luminosa e padrões de distribuição das luzes ao longo das redes, ampliando ainda mais a eficácia sem comprometer a pesca.

Uma solução simples para um problema complexo

A história do SharkGuard mostra que nem sempre a solução para problemas ambientais complexos está em tecnologias gigantescas ou intervenções radicais. Às vezes, uma pequena mudança sensorial, aplicada no lugar certo, é suficiente para alterar um sistema inteiro.

Ao afastar tubarões sem feri-los, reduzir capturas acidentais e manter a atividade pesqueira viável, o projeto oferece algo raro: uma prova concreta de que convivência é possível, mesmo em um ambiente tão imprevisível quanto o oceano.

No fundo do mar, longe dos holofotes, pequenas luzes estão silenciosamente mostrando que preservar predadores não significa abrir mão da sobrevivência humana, significa repensar a forma como interagimos com eles.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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