A liberação de até R$ 30 bilhões fora do arcabouço fiscal abre uma janela inédita para o Exército Brasileiro ampliar investimentos, reorganizar programas estratégicos, acelerar o Sisfron, modernizar blindados e reforçar capacidades até 2031
O Exército Brasileiro projeta dobrar os investimentos em modernização após a entrada em vigor de lei complementar que deixa até R$ 30 bilhões fora do arcabouço fiscal, reorganizando projetos estratégicos e prevendo aportes anuais de R$ 3 bilhões entre 2026 e 2031.
Janela fiscal e mudança de patamar orçamentário
Segundo reportagem da CNN Brasil, a expectativa da força terrestre é sair de um orçamento anual que oscilou entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,4 bilhão, no PAC, para alcançar R$ 3 bilhões anuais no período 2026-2031.
Esse ciclo de seis anos é tratado internamente como uma janela de oportunidade para recuperar atrasos históricos e acelerar programas considerados estruturantes para a capacidade operacional do Exército Brasileiro.
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A nova margem fiscal, garantida fora do arcabouço, permite planejamento de médio prazo, previsibilidade de desembolsos e reavaliação completa da carteira de projetos estratégicos, hoje marcada por cronogramas alongados e restrições orçamentárias sucessivas.
Sisfron e o atraso no monitoramento de fronteiras
Um dos principais focos desse novo ciclo é o Sisfron, considerado essencial para o combate ao narcotráfico e ao contrabando ao longo das fronteiras terrestres brasileiras.
Até o momento, apenas duas das nove fases previstas foram efetivamente implantadas, uma em Dourados, no Mato Grosso do Sul, e outra na fronteira amazônica.
O prazo original de conclusão do Sisfron era 2021, mas sofreu adiamentos sucessivos ao longo da última década, reflexo direto da escassez de recursos e da complexidade tecnológica envolvida.
Atualmente, a previsão oficial é que o sistema esteja plenamente operacional apenas em 2039, caso não haja novas interrupções no fluxo de financiamento.
O Sisfron opera com fluxo contínuo de dados gerados por radares, sensores térmicos e óticos, aeronaves remotamente pilotadas, sensores eletromagnéticos, simuladores e estruturas de segurança cibernética.
Com os novos recursos, o Exército pretende implantar mais três fases em áreas críticas de fronteira, ampliando gradualmente a cobertura do sistema.
Uma dessas fases ficará sob responsabilidade da 1ª Brigada de Infantaria de Selva, na fronteira em Roraima, área considerada sensível pelo contexto geopolítico regional.
As outras duas fases estão previstas para as regiões da 13ª Brigada de Infantaria Motorizada e da 18ª Brigada de Infantaria do Pantanal, em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
A terceira nova implantação ocorrerá na área da 15ª Brigada de Infantaria Mecanizada, abrangendo territórios do Paraná e de Santa Catarina, reforçando o controle em faixas estratégicas do Sul.
Centauro II-BR e a modernização de blindados
Outro eixo central da modernização envolve o projeto Centauro, voltado à renovação da frota de blindados sobre rodas do Exército Brasileiro.
Após a incorporação de dois protótipos neste ano, está prevista a entrega de mais 96 veículos Centauro II-BR até 2033, consolidando o programa ao longo da próxima década.
O contrato com o consórcio Iveco-OTO Melara, estimado em R$ 5 bilhões, deve ser assinado entre fevereiro, na previsão mais otimista, e maio, no cenário considerado mais conservador.
O acordo inclui não apenas os veículos, mas também cláusulas de offset, compensação tecnológica e um pacote completo de logística integrada para sustentação operacional.
Os blindados são equipados com canhões de 120 mm, possuem tração 8×8 e desenvolvem 720 cavalos de potência, características que elevam significativamente a capacidade de combate da força.
A blindagem foi projetada para resistir a minas terrestres, explosivos improvisados e munições cinéticas de alta pressão, ampliando a sobrevivência em cenários assimétricos.
Doze desses veículos, descritos como os mais poderosos do gênero na América do Sul, serão posicionados em Roraima, próximos à fronteira com a Venezuela.
Reorganização dos programas estratégicos
Paralelamente aos novos investimentos, o Exército promove uma reorganização ampla de seus programas estratégicos, com fusões, reclassificações e redefinição de prioridades institucionais.
Uma das principais mudanças envolve o programa Astros, criado para dotar a força terrestre de um sistema de foguetes de longo alcance e elevada precisão.
Nos últimos anos, o Astros perdeu tração em razão da situação da Avibras, empresa sediada em Jacareí, em recuperação judicial, responsável por parte do desenvolvimento tecnológico.
A Avibras vinha trabalhando em um míssil tático de cruzeiro com alcance de 300 quilômetros e erro máximo de nove metros, cujo avanço depende de uma solução para o impasse financeiro.
Apesar disso, o programa será ampliado e rebatizado de Fogos, passando a integrar três verticais sob um único guarda-chuva organizacional.
O novo Fogos reunirá o antigo Astros, sistemas de artilharia de campanha e uma nova camada de defesa antiaérea, ampliando o escopo operacional do projeto.
Está prevista para 2026 uma encomenda de até R$ 3,4 bilhões destinada a um novo sistema de defesa antiaérea, com tecnologia inédita na América Latina.
Esse sistema permitirá a interceptação de drones e mísseis de cruzeiro inimigos, atendendo a ameaças emergentes observadas em conflitos recentes.
Programas setoriais e efeitos colaterais
Outros programas também passarão por redesenho institucional, como o Lucerna, voltado à inteligência militar, e o OCOP, focado na obtenção de capacidade operacional plena.
Ambos deixarão a classificação de estratégicos e passarão a ser considerados setoriais, mudança que fontes do Exército afirmam não representar rebaixamento funcional.
A distinção adotada indica que projetos estratégicos incorporam novas capacidades, enquanto os setoriais se concentram em modernizações correntes, com menor agregação tecnológica.
Um efeito colateral dessa mudança é que programas setoriais deixam o guarda-chuva do PAC e passam a depender do orçamento discricionário da própria força.
Os programas Amazônia Protegida e Sentinela da Pátria serão unificados, reunindo iniciativas de infraestrutura militar na região amazônica e em outras áreas do território nacional.
O programa de Defesa Cibernética será ampliado, passando a incluir também projetos relacionados à inteligência artificial, reforçando a proteção de sistemas críticos.
Já o programa de Aviação do Exército, que prevê a aquisição de 12 helicópteros Black Hawk, permanece inalterado, mantendo seu cronograma e escopo originais, apesar do novo ciclo orçamentário que se inicia.

Uma noticia dessa e nenhum comentário. Se fosse alguma coisa contra o governo, tava todo mundo comementando aqui e agora.