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Jovens deste país largam a cidade e migram para a roça em busca de maior renda; Mangassa, de 33 anos, lucra acima da média do país após fazer esse movimento com agricultura

Publicado em 03/01/2026 às 12:50
Atualizado em 03/01/2026 às 12:51
Jovens, Africa, Senegal, Agricultura
Imagem: Ilustração artística / IA
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Retorno de jovens ao campo no Senegal revela mudança econômica, com renda agrícola acima da média nacional, apoio institucional, urbanização acelerada, desemprego e agricultura surgindo como alternativa à migração irregular

Em uma tarde escaldante no Senegal, a agricultora Filly Mangassa, de 33 anos, voltou ao campo após uma década em Dakar, passando a lucrar cerca de 2 milhões de francos CFA por ano, em um movimento que ilustra como a agricultura começa a reter jovens diante do desemprego urbano.

Retorno ao campo após frustração urbana e formação acadêmica

Há dez anos, Mangassa deixou sua aldeia rumo a Dakar, buscando carreira docente, mas enfrentou alto custo de vida, poucas vagas e salários insuficientes.

A frustração aumentou após a COVID, quando empresas reduziram contratações e preços subiram, tornando inviável permanecer na capital mesmo com mestrado em criminologia.

Em grande parte da África, a agricultura foi associada a trabalho de baixo prestígio, estimulando jovens a migrar para cidades em busca de empregos administrativos.

Mangassa relata que familiares encararam seu retorno como retrocesso, refletindo uma visão social ainda comum em áreas rurais e urbanas.

Mudança de percepção impulsionada por renda e tecnologia

Essa percepção começa a mudar com preços mais altos dos alimentos, investimentos em irrigação e acesso ampliado a tecnologias produtivas no campo.

Governos e organizações sem fins lucrativos passaram a financiar programas com treinamento técnico, equipamentos, fertilizantes, pesticidas e sementes agrícolas.

Quando apresentou um plano de negócios estruturado, Mangassa recebeu apoio do pai, que auxiliou nos trâmites administrativos para aquisição do terreno.

Hoje, ele integra uma tendência de jovens que deixam centros urbanos para apostar na agriclutura como fonte de renda sustentável.

Ganhos superam média nacional e reforçam viabilidade

Mangassa afirma lucrar cerca de 2 milhões de francos CFA por ano, equivalente a US$ 3.500, acima da renda média anual do Senegal, em torno de US$ 2.500.

A diferença reforça a atratividade econômica do campo frente a empregos urbanos informais e instáveis.

A África é a região que mais se urbaniza no mundo, com cidades crescendo a uma taxa média anual de 3,5%.

Com a expansão urbana, aluguéis e alimentos encarecem, pressionando orçamentos familiares e ampliando a vulnerabilidade econômica dos jovens.

Segundo o Banco Mundial, preços em cidades como Dakar e Nairóbi se aproximam dos europeus, apesar de salários muito menores.

Mercado de trabalho não absorve jovens em ritmo suficiente

Entre 10 e 12 milhões de jovens africanos entram no mercado de trabalho anualmente, enquanto apenas cerca de 3 milhões de empregos formais surgem.

O dado é do Banco Africano de Desenvolvimento, indicando um déficit estrutural de oportunidades formais.

Mangassa relata que colegas formados trabalham como mototaxistas e mal conseguem sobreviver, apesar da qualificação educacional.

Mangassa possui hoje uma fazenda de 32 acres, cultivando amendoim, milho, vegetais e frutas com apoio institucional.

Ele acessou financiamento por meio do Programa Mundial de Alimentos, que auxilia jovens africanos a iniciar negócios agrícolas.

Lançado em 2023 e previsto até o início de 2027, o programa apoiou cerca de 380.000 pessoas na criação de empreendimentos rurais.

Desafios estruturais ainda limitam expansão agrícola

A organização atua com governos locais para permitir aquisição de terras, dificultada por sistemas fundiários complexos e crédito restrito.

No Senegal, mais de 61.000 pessoas foram apoiadas, com mais de 80% iniciando atividades agrícolas, segundo o PMA.

Pierre Lucas, diretor do PMA no país, aponta barreiras como acesso a terra, financiamento, insumos, habilidades práticas e mercado.

O Senegal enfrenta insegurança alimentar agravada por cortes de doadores e condições climáticas adversas recorrentes.

Ibrahima Hathie, do think tank Prospective Agricultural and Rural Initiative, destaca impactos persistentes do período colonial.

Segundo Hathie, agricultores foram pressionados a produzir amendoim para exportação à França, em detrimento de alimentos locais.

Tecnologia e culturas de maior valor ampliam produção

A escassez de terras aráveis e a degradação do solo ainda restringem a produção de alimentos no país.

Mesmo assim, jovens agricultores migram para culturas de maior valor agregado, usando tecnologia para elevar produtividade e renda.

Hathie prevê que maior oferta local pode reduzir preços de produtos básicos à medida que a produção cresce.

Agricultura como alternativa à migração irregular

O Senegal é ponto de partida para migrantes que tentam alcançar a Europa pela perigosa rota atlântica.

Autoridades veem a agricultura como ferramenta para gerar empregos e reduzir a saída de jovens das áreas rurais.

O ministro da Agricultura, Mabouba Diagne, afirmou que agricultura e pecuária podem criar centenas de milhares de empregos.

Histórias individuais reforçam impacto social da mudança

Adama Sane, de 24 anos, sonhava migrar para a Europa, mas sem recursos acabou retornando à agricultura.

Após dificuldades na construção civil em Dakar, ele conheceu a iniciativa do PMA e voltou à aldeia.

Hoje cria aves e cultiva pimentas em dois hectares, economizando mais dinheiro e vivendo com menos estresse.

Efeito multiplicador nas comunidades locais

Mangassa emprega atualmente três jovens que planejavam migrar para a Europa após fracassarem na tentativa.

Mamadou Camara, Issa Traoré e Madassa Kebe perderam dinheiro para um contrabandista antes de conhecerem o agricultor.

Segundo Mangassa, oferecer trabalho foi uma forma de mostrar oportunidades locais, mesmo em um contexto econômico difícil.

Com informações de AP News.

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Romário Pereira de Carvalho

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