Projeto ganense liderado por jovens ganhou projeção internacional ao conectar gestão de lixo, ar limpo e geração de renda em comunidades urbanas afetadas pela queima aberta de resíduos, com apoio milionário para ampliar um modelo de “resíduo zero” no continente africano.
Uma organização liderada por jovens em Gana venceu o Earthshot Prize 2024 com um modelo de gestão de resíduos voltado a reduzir a queima aberta de lixo, melhorar a qualidade do ar e ampliar fontes de renda em comunidades urbanas afetadas pelo descarte irregular.
A Green Africa Youth Organization, conhecida como GAYO, foi reconhecida na categoria Clean Our Air e recebeu £1 milhão para ampliar a iniciativa, segundo informações divulgadas pelo Earthshot Prize ao anunciar os vencedores da edição de 2024.
O anúncio ocorreu em 6 de novembro de 2024, durante a cerimônia do Earthshot Prize realizada na Cidade do Cabo, na África do Sul, com a escolha de cinco vencedores em diferentes categorias ligadas a soluções ambientais.
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Além do recurso financeiro, a premiação prevê apoio técnico, mentoria e conexões com uma rede internacional voltada a projetos ambientais com potencial de escala, de acordo com a descrição oficial do prêmio.
No caso da GAYO, o reconhecimento destacou o modelo de “resíduo zero”, que combina organização comunitária, mudança de comportamento, separação de materiais e reaproveitamento de resíduos em áreas urbanas.
A proposta busca reduzir o volume de lixo abandonado em ruas, aterros informais ou pontos de queima a céu aberto, prática associada à liberação de fumaça, partículas e gases na atmosfera.
Segundo o Earthshot Prize, a meta da organização é reduzir em Gana as emissões de gases de efeito estufa e a poluição por partículas em até 70%, na comparação com a queima aberta de resíduos.
A iniciativa também pretende desviar 50 toneladas de lixo por mês, o equivalente a 600 toneladas por ano, até alcançar 4.000 toneladas desviadas até 2030, conforme os dados apresentados pela premiação.
Lixo urbano vira estratégia de ar limpo em Gana

A queima de resíduos a céu aberto permanece presente em áreas urbanas onde a coleta formal não atende toda a população ou não acompanha o crescimento do volume de descarte.
Quando materiais orgânicos, plásticos e outros resíduos são queimados, eles podem liberar fumaça, partículas finas e gases que afetam a qualidade do ar, segundo organizações que atuam na agenda de ar limpo.
Nesse contexto, a GAYO trata a gestão do lixo como parte de uma política de saúde ambiental, além de uma questão de limpeza urbana e organização dos serviços públicos.
Em vez de concentrar a solução apenas no recolhimento final, o projeto começa pela separação dos materiais e pela mobilização de moradores em áreas onde o descarte irregular tem impacto direto.
A estrutura do modelo aproxima moradores, catadores, lideranças locais e iniciativas de reaproveitamento, com o objetivo de criar rotas para materiais que antes poderiam terminar queimados ou descartados sem tratamento.
A partir dessa rede, resíduos passam a ser encaminhados para reciclagem, compostagem ou outras cadeias produtivas ligadas à economia circular, conforme a descrição apresentada pelo Earthshot Prize.
A relação entre lixo mal gerido e ar poluído é um dos pontos centrais da iniciativa, já que a queima aberta de resíduos aparece como uma fonte evitável de poluição.
Com a redução da quantidade de lixo queimado, a organização busca cortar uma fonte direta de partículas liberadas no ambiente urbano e associadas à degradação da qualidade do ar.
Comunidades entram no centro da solução
A iniciativa se baseia na organização local do sistema de resíduos, com ações de educação ambiental, engajamento comunitário e criação de alternativas para materiais descartados.
O projeto prevê que resíduos tenham valor econômico antes de virarem descarte final, o que permite integrar moradores e trabalhadores informais a uma cadeia mais estruturada de reaproveitamento.
Em comunidades com infraestrutura limitada, soluções descentralizadas podem complementar os sistemas formais de coleta, especialmente em locais onde o serviço público não alcança todos os domicílios.
A separação de resíduos reduz o volume enviado a aterros e facilita o encaminhamento de materiais que podem ser reutilizados, reciclados ou convertidos em insumos para outras atividades.

Ao envolver pessoas que já lidam com resíduos no dia a dia, a organização também cria oportunidades de renda em atividades relacionadas à reciclagem, ao reaproveitamento e à redução da poluição.
Catadores e agentes locais passam a integrar uma cadeia com funções definidas, em vez de aparecerem apenas como parte informal de um sistema urbano de descarte.
O Earthshot Prize descreve a GAYO como uma organização liderada por jovens e com equilíbrio de gênero, característica mencionada na apresentação oficial dos vencedores de 2024.
A atuação próxima às comunidades afetadas é apresentada pela premiação como parte do modelo, já que a iniciativa foi estruturada em áreas onde os efeitos do lixo urbano são sentidos no cotidiano.
Earthshot Prize amplia alcance da iniciativa
O reconhecimento internacional inseriu a experiência ganesa em uma rede global de iniciativas ambientais apoiadas pelo Earthshot Prize, prêmio criado para identificar e financiar soluções com potencial de expansão.
A GAYO foi indicada ao prêmio pelo Clean Air Fund, organização voltada ao enfrentamento da poluição do ar, e concorreu na categoria dedicada a projetos de melhoria da qualidade do ar.
Cada vencedor do Earthshot Prize recebe £1 milhão para desenvolver e ampliar sua solução ambiental, além de suporte oferecido pela rede de parceiros ligada à premiação.
Esse apoio inclui conexões institucionais e acompanhamento técnico para projetos que dependem de adaptação a diferentes cidades, comunidades e estruturas de gestão pública.
A organização pretende usar a visibilidade e os recursos do prêmio para fortalecer a expansão do modelo em Gana e em outros países africanos.
A proposta é replicar práticas de “resíduo zero” em áreas urbanas que enfrentam desafios semelhantes, como crescimento populacional, coleta insuficiente e pressão sobre locais de descarte.
Segundo o Earthshot Prize, o modelo da GAYO é considerado replicável e pode ser levado a outras regiões do continente africano caso avance conforme o plano de escala apresentado pela organização.
A ampliação, no entanto, depende da capacidade de adaptar a estrutura comunitária, as rotas de reaproveitamento e a participação de agentes locais a diferentes realidades urbanas.
Gestão de resíduos também pesa na saúde urbana
A poluição do ar costuma ser associada a fontes como trânsito, indústrias e poeira urbana, mas a queima de resíduos também contribui para a emissão de fumaça e partículas em muitos centros urbanos.
Em locais onde o lixo é queimado por falta de coleta regular ou de alternativas de descarte, a gestão de resíduos passa a ter relação direta com a qualidade do ar respirado pela população.
Ao conectar esses dois temas, a GAYO estrutura uma solução baseada em uma lógica operacional: reduzir o volume de lixo queimado para diminuir emissões geradas pelo descarte inadequado.
O efeito esperado não depende apenas da retirada dos resíduos das ruas, mas da criação de um sistema que evite o descarte irregular desde as primeiras etapas da cadeia.
Essa mudança exige participação contínua das comunidades, porque separar materiais, encaminhar resíduos orgânicos e identificar valor econômico em itens descartados depende de orientação e estrutura local.
Também são necessárias relações de confiança entre moradores, organizações comunitárias e agentes que operam as etapas de coleta, separação, reciclagem e reaproveitamento.
A experiência em Gana reúne objetivos climáticos, saúde pública e geração de renda em uma mesma estratégia de gestão de resíduos.
Nesse modelo, o descarte deixa de ser tratado apenas como custo urbano e passa a integrar uma cadeia ambiental e econômica vinculada à redução da poluição.
O desafio da GAYO, após a premiação, é ampliar o modelo sem perder a ligação com as comunidades que participaram da construção da solução.
Em cidades africanas onde o lixo ainda é queimado como alternativa à falta de coleta, a experiência ganesa indica que a melhoria da qualidade do ar também passa pelo destino dado aos resíduos descartados todos os dias.


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