Em meio ao colapso bancário e à falta de notas na Faixa de Gaza, o trabalho manual de restauração de cédulas sustenta famílias e revela o impacto do bloqueio israelense
Em um mercado cheio de movimento na Cidade de Gaza, Baraa Abu al-Aoun montou uma pequena mesa para trabalhar com cuidado nas notas que chegam até ele. O jovem desamassa cédulas, reforça bordas frágeis e realça cores apagadas porque muitas delas estão quase inutilizadas. O serviço surgiu quando ele precisou abandonar a universidade durante a guerra.
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A atividade se tornou sua única renda. Ele usa apenas régua, lápis, lápis de cor e cola. O processo é simples, mas exige atenção. Cada detalhe importa porque o dinheiro disponível na região é escasso.
Falta de dinheiro vivo cria um novo mercado
O conserto de cédulas virou um negócio crescente na Faixa de Gaza. Isso ocorreu porque Israel interrompeu o envio de notas físicas depois do ataque do Hamas em 2023. Além disso, outros suprimentos também foram bloqueados.
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Sem reposição, o dinheiro começou a desaparecer. A circulação praticamente parou, deixando moradores sem o básico.
Bancos destruídos dificultam ainda mais o acesso
Grande parte da rede bancária de Gaza foi destruída pelos bombardeios israelenses. Agências foram saqueadas e estruturas essenciais deixaram de funcionar. Mesmo após sete semanas de cessar-fogo, nenhum caixa eletrônico foi reativado, segundo dados da BBC.
Alguns bancos reabriram, mas com serviços altamente limitados. As operações são poucas e lentas, o que amplia a crise financeira no território.
Sem cédulas suficientes, moradores passaram a recorrer a cambistas informais. Esses intermediários realizam conversões de transferências digitais em dinheiro vivo. As comissões chegaram a 50% e agora giram em torno de 20%.
A dificuldade de acesso ao dinheiro forçou o uso de aplicativos, carteiras digitais e métodos alternativos de troca.
Cada nota danificada vira um bem valioso
Com o dinheiro físico praticamente esgotado, qualquer cédula, mesmo rasgada, passou a ser valorizada.
Nesse cenário, o trabalho de Baraa se tornou indispensável. Ele afirma que o cessar-fogo não trouxe melhora financeira. Além disso, explica que seu serviço existe para manter as notas circulando.
A ONU informou que toda a população de Gaza foi empurrada para a pobreza. Mais de 2 milhões de pessoas enfrentam dificuldades severas. Segundo a UNCTAD, quatro em cada cinco moradores estão desempregados.
Até quem recebe salário enfrenta obstáculos para acessar fundos por causa da falência parcial do sistema financeiro.
Israel mantém bloqueio por questões de segurança
Segundo o artigo da BBC, Israel confirma que continua impedindo a entrada de dinheiro vivo. As autoridades afirmam que o Hamas depende de cédulas para financiar operações militares.
A Autoridade Monetária Palestina calcula que US$ 180 milhões foram roubados de cofres bancários durante saques no início da guerra.
Crise do dinheiro: Troco escasso e inflação crescente afetam o comércio
Com poucas notas disponíveis, comerciantes evitam aceitar cédulas rasgadas. A falta de troco se tornou severa. Moedas de 10 shekels quase desapareceram do mercado.
Vendedores relatam dificuldades até para troco de transporte, enquanto os preços sobem rapidamente.
Filas e viagens longas para tentar resolver problemas bancários
No Banco da Palestina, filas se formam diariamente. Os clientes conseguem apenas reativar contas congeladas, abrir novas contas ou acessar aplicativos bancários. Muitos serviços continuam indisponíveis.
Em cidades como Khan Younis, moradores precisam viajar até Gaza para tentar atendimento.
Muitas vezes voltam sem conseguir resolver nada.
Cambistas ajustam comissões conforme a chegada de mercadorias
Pequenos empresários que antes só faziam transferências eletrônicas passaram a converter valores digitais em papel.
- Eles cobram comissões altas.
- As taxas variam conforme o fluxo de mercadorias.
- Quando o transporte fecha, a comissão aumenta.
- Quando há entrada de bens, diminui.
Carteiras digitais viram alternativa para compras básicas
Para tentar reduzir o problema, a Autoridade Monetária Palestina lançou um sistema de pagamentos instantâneos. Ele funciona entre contas bancárias locais. O Banco da Palestina também distribuiu carteiras eletrônicas.
Mais de 500 mil moradores já usam o sistema. As transações funcionam até por SMS, sem internet, o que facilita a rotina em meio ao colapso.
Ajuda internacional também depende das carteiras digitais
Agências humanitárias utilizam essas carteiras para distribuir auxílios. O Unicef e o Programa Mundial de Alimentos enviam dinheiro diretamente para as famílias. Desde o ano passado, o Unicef afirma ter beneficiado cerca de um milhão de pessoas. Metade delas são crianças.
Segundo a agência, 99% dos recursos são usados primeiro para comida e água.
Preços de alimentos atingem níveis inacessíveis
Com a inflação elevada, famílias relatam preços muito altos. Dois quilos de tomates custam US$ 80. Cinco quilos de cebolas chegam a US$ 70.
Mesmo com ajuda, alimentos como carne, frutas e ovos continuam fora do alcance.
Baraa mantém o trabalho de concertar dinheiro enquanto espera a normalidade voltar
No mercado, Baraa atende clientes atraídos pela placa que promete reparos “com alto profissionalismo e sem fita adesiva”. Ele analisa cada nota contra a luz, identifica rachaduras e reforça bordas.
Depois devolve a cédula pronta para circular em um sistema quase inexistente.
Apesar do movimento intenso, ele deseja retomar os estudos. Baraa diz que todo o trabalho atual é apenas sobrevivência. Ele afirma que espera por alívio e uma vida normal.
Com informações de BBC.


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