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Idoso de 74 anos vive sozinho há mais de 30 anos em templo cravado num penhasco remoto em Guizhou, cuidando tudo quase sem ajuda diariamente

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 13/11/2025 às 23:13
Assista o vídeoHistória de um velho de 74 anos que vive em um templo cravado num penhasco remoto em Guizhou, guardando o Templo do Buda de Prata sobre o penhasco há décadas em total dedicação.
História de um velho de 74 anos que vive em um templo cravado num penhasco remoto em Guizhou, guardando o Templo do Buda de Prata sobre o penhasco há décadas em total dedicação.
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Idoso de 74 anos mantém um templo cravado num penhasco remoto a mais de 1.800 metros de altitude em Guizhou, vivendo recluso, autossuficiente e sustentado por doações de fiéis espalhados pelo país

Viver sozinho num templo cravado num penhasco remoto, sem vizinhos, sem rua, sem comércio por perto e com acesso difícil mesmo para quem está em boa forma física, parece mais roteiro de filme do que realidade diária. Em Guizhou, nas profundezas da montanha Tianlou, esse cenário é o endereço fixo de um idoso de 74 anos que, há mais de três décadas, decidiu dedicar a vida a cuidar de um complexo religioso pendurado na encosta, onde quase tudo depende exclusivamente das suas mãos.

Ali, a fé ocupa o lugar da infraestrutura. Não há rede elétrica convencional, o acesso é feito por uma estrada de montanha estreita e íngreme e o penhasco despenca por dezenas de metros até o vale. Ainda assim, visitantes seguem subindo para encontrar o ancião, agradecer, pedir bênçãos ou apenas ver de perto como alguém consegue transformar um eremitério em rotina. E, todos os dias, ele levanta, varre, reza, cozinha, carrega lenha e recebe quem chega, como se cada presença fosse parte do acordo silencioso que mantém o templo vivo.

Um templo cravado no penhasco, à margem do mundo

História de um velho de 74 anos que vive em um templo cravado num penhasco remoto em Guizhou, guardando o Templo do Buda de Prata sobre o penhasco há décadas em total dedicação.

O conjunto conhecido como Templo do Buda de Prata está literalmente encaixado na rocha, um templo cravado num penhasco remoto, diante de um desnível tão profundo que basta olhar para baixo para ter a sensação de vazio. O complexo é voltado para o vale, cercado por paredões, nuvens baixas e, em dias claros, pela visão de vilarejos espalhados nas encostas e, ao longe, da sede do condado de Zheng’an.

A altitude ultrapassa os 1.800 metros, com vento forte e frio intenso no inverno. A posição no penhasco não é apenas cênica, é estratégica: segundo o próprio ancião, ali já existia um templo desde a época do imperador Kangxi, no período da Dinastia Qing, quando uma praticante de sobrenome Liang teria escolhido justamente aquela parede de rocha para se dedicar à vida religiosa. Com o tempo, as construções de madeira foram substituídas, reformadas, demolidas e reconstruídas, mas o ponto permanece o mesmo: uma saliência no penhasco, difícil de alcançar e fácil de defender.

Hoje, parte do conjunto foi modernizado com concreto, novos telhados e reforços estruturais, mas ainda há elementos que denunciam a antiguidade do local, como monumentos de mérito com inscrições do século XIX e restos de muros antigos reutilizados como batentes de porta. É um templo vivo sobre os vestígios de um templo ainda mais antigo, num jogo constante entre ruína e preservação.

O acesso: horas de subida, poucos passos em falso

História de um velho de 74 anos que vive em um templo cravado num penhasco remoto em Guizhou, guardando o Templo do Buda de Prata sobre o penhasco há décadas em total dedicação.

Chegar ao templo cravado num penhasco remoto não é um passeio trivial. Há duas rotas principais: uma subida longa por trilhas de montanha, que pode levar de duas a três horas, e uma abordagem pela parte alta, seguindo uma estrada rústica e trechos de penhasco com proteção limitada.

O ancião lembra que, no passado, a trilha mal comportava um pé por vez. Em 2011, depois de anos convivendo com o risco, ele decidiu alargar e consolidar o caminho. Foram disparos de mais de 200 cargas de explosivo para abrir a passagem na rocha e, depois, um trabalho exaustivo de transporte manual de material: cimento, tijolos e outros insumos subiam às costas, em viagens de cerca de duas horas cada, com capacidade máxima de duas peças por vez, algo em torno de 40 quilos por carga.

Hoje, parte do trecho próximo ao templo está endurecido e equipado com corrimão financiado por donativos de fiéis e visitantes, o que reduz o risco imediato, mas não elimina a dificuldade. A estrada de acesso para veículos segue precária, com segmentos não pavimentados, íngremes e estreitos. Mesmo assim, o fluxo de pessoas aumentou: devotos de Zunyi, Guiyang, Zheng’an e até de outras províncias sobem para queimar incenso, fazer oferendas e conhecer o velho guardião.

Rotina solitária: fé, lenha e autossuficiência

História de um velho de 74 anos que vive em um templo cravado num penhasco remoto em Guizhou, guardando o Templo do Buda de Prata sobre o penhasco há décadas em total dedicação.

A vida diária no templo cravado num penhasco remoto é, essencialmente, um exercício de autossuficiência. Aos 74 anos, o homem vive sozinho no alto da montanha. Dorme num quarto simples ao lado dos salões de culto, cozinha num fogão abastecido com lenha que ele próprio corta e estoca, lava as próprias roupas e cuida da limpeza de todo o complexo, dos quartos de hóspedes às áreas de circulação.

A pilha de lenha empilhada sob o penhasco é também um indicador de planejamento: o inverno em Guizhou é rigoroso, e sem aquecimento elétrico a sobrevivência depende da madeira acumulada antes da chegada do frio. O idoso derruba a lenha no topo da montanha, seleciona, corta e organiza tudo, pensando em ter combustível suficiente para atravessar as estações mais duras.

Na cozinha, a alimentação é simples. Arroz, massa e vegetais chegam por meio de moradores e devotos que sobem para oferecer alimentos. Tofu fresco, couve, pimentões, rabanetes e abóboras chegam em remessas periódicas, complementados por conservas que podem ser armazenadas por mais tempo. Ele repete com naturalidade que não consegue consumir tudo o que recebe, o que revela uma rede discreta de solidariedade em torno do templo.

Água, luz e infraestrutura mínima

História de um velho de 74 anos que vive em um templo cravado num penhasco remoto em Guizhou, guardando o Templo do Buda de Prata sobre o penhasco há décadas em total dedicação.

Se há algo que mudou radicalmente a vida no alto da montanha, foi a água encanada e a energia solar. Durante muitos anos, o ancião precisava entrar em uma gruta próxima, buscar água diretamente na nascente e transportar baldes até o templo. Hoje, um sistema de tubulação conduz a água até um reservatório construído ao lado dos prédios religiosos, o que garante abastecimento constante para consumo, higiene e cozinha.

A eletricidade não veio pela rede pública, mas por painéis solares instalados em 2021 por voluntários de Chongqing. O sistema é limitado, sujeito à posição do sol e ao inverno com pouca luminosidade, mas suficiente para o que ele considera essencial: carregar o telemóvel e alimentar alguns pontos de iluminação básica. Não há eletrodomésticos pesados, aquecedores elétricos ou equipamentos de alto consumo. A lenha continua sendo o eixo energético da vida no penhasco.

Além dos painéis maiores sobre o telhado, há módulos menores destinados apenas à recarga de celulares, inclusive o aparelho básico do próprio guardião, que antes precisava ser levado semanalmente à cidade para carregar. Com isso, a comunicação com o exterior ficou mais simples, sem alterar a natureza isolada do lugar.

Os salões do templo e a continuação de uma tradição

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O complexo hoje inclui o Grande Salão do Buda, o Templo Guan Sheng, o Palácio do Imperador de Jade, o Palácio do Rei da Medicina, o Guanyin Hall e quartos para peregrinos. As imagens de Buda Sakyamuni, Namo Amitabha, Guan Gong, Skanda e Guanyin foram instaladas ao longo dos anos, com base em doações e no trabalho de artesãos que produzem as peças fora dos grandes circuitos de templos urbanos.

É um conjunto modesto, mas funcional. Diferente dos templos urbanos suntuosos, aqui o altar divide espaço com mochilas, varas de ombro, mesas simples e utensílios do dia a dia. O próprio ancião explica que, aos olhos do Buda, as imagens são apenas encarnações simbólicas; o que importa é a sinceridade de quem sobe para acender incenso ou fazer uma prece.

Além da função religiosa, o templo guarda a memória de um passado mais intenso. Monumentos de mérito registram nomes de doadores e valores em moedas, com datas que vão de 1989 e 1990 até o início dos anos 2000. Um marco mais antigo, reaproveitado como pedra de batente, remete ao período Daoguang da Dinastia Qing, reforçando a ideia de uma continuidade de pelo menos três a quatro séculos de devoção naquele penhasco. Muitas inscrições originais, porém, caíram montanha abaixo ou foram destruídas ao longo do tempo.

Uma biografia mínima: estudo, caligrafia e disciplina

Apesar de ter apenas a segunda série do ensino básico, o guardião do templo cravado num penhasco remoto construiu, sozinho, uma rotina intelectual própria. Nos intervalos entre tarefas físicas, ele lê livros, estuda poemas levados pela administração local e pratica caligrafia, reforçando a ideia de que, para ele, o templo é tanto um espaço de trabalho quanto uma escola contínua.

A clareza com que fala contrasta com a falta de dentes e a idade avançada, algo que ele mesmo comenta com humor. Afirma que nunca deixou de aprender e repete o princípio de “estudar até ficar velho”, como se o aprendizado fizesse parte da mesma disciplina que o leva a carregar tijolos por duas horas encosta acima.

A história pessoal se mistura à do templo. Ele chegou ainda jovem à montanha, passou períodos em que precisou descer e ficar alguns anos em sua cidade natal e, depois, retornou para liderar as reconstruções da década de 2000. As obras, segundo relata, começaram em 2006 com a Torre do Imperador de Jade, e o andamento do complexo sempre dependeu de “bons homens e mulheres de todo o país”, que doam materiais, dinheiro ou trabalho.

A economia da fé: donativos, registros e gratidão pública

Um ponto que o ancião faz questão de enfatizar é a relação entre doações e transparência. Cada contribuição, por menor que seja, é tratada como gesto de mérito. Ele registra nomes, montantes e origens, planeja inscrever os doadores em futuras placas de mérito e considera isso a forma mais concreta de agradecer.

Quando alguém insiste em oferecer dinheiro, ele costuma dizer que não quer esquecer a generosidade de quem subiu a montanha, e que a melhor maneira de honrar esse gesto é eternizar o nome em pedra, visível para qualquer peregrino que chegar depois. Assim, a economia do templo não se organiza como um fluxo comercial, mas como um sistema de reciprocidade simbólica, no qual cada saco de arroz ou painel solar se transforma em um compromisso público de memória.

É essa lógica que mantém a infraestrutura mínima em funcionamento. O caminho reforçado, os corrimãos, os painéis solares e até parte das novas construções são fruto de pequenas contribuições acumuladas ao longo de décadas, organizadas por alguém que vive com pouco, mas se recusa a tratar a solidariedade como algo descartável.

Resiliência física e emocional num penhasco isolado

Viver 30 anos praticamente sozinho, num templo cravado num penhasco remoto, exige não apenas fé, mas também um nível considerável de resiliência física e emocional. O deslocamento até a cidade mais próxima pode levar horas, a subida diária em terreno íngreme cobra do corpo, e o frio da montanha torna indispensável o planejamento antecipado de cada inverno.

Apesar disso, o ancião mantém um humor constante, recebe pessoas com entusiasmo, oferece refeições simples a visitantes e repete que já está acostumado com a vida na montanha. Para ele, a solidão não é abandono, mas escolha e responsabilidade.

O contraste com o mundo externo é evidente: em uma época marcada por redes sociais, consumo rápido e mobilidade permanente, a permanência de um único homem em um penhasco, cuidando de um templo de 400 anos, funciona como lembrete incômodo de outras formas de medir o tempo e o sentido de uma vida inteira.

Um equilíbrio frágil entre tradição e futuro

O que será desse lugar depois dele é uma pergunta que aparece nas entrelinhas. O ancião cita um aprendiz, recebe visitas, vê gente jovem subir a montanha, mas também sabe que a maior parte das novas gerações migrou para as cidades em busca de trabalho, deixando vilas inteiras com poucas famílias idosas.

A manutenção do templo depende, ao mesmo tempo, da sua saúde, da continuidade das doações e da disposição de alguém assumir, no futuro, o mesmo tipo de rotina. Até lá, ele segue organizando o espaço, consolidando estruturas, registrando nomes e ensinando, com prática diária, que devotar a vida a um lugar também é uma forma de escrever história, ainda que longe dos holofotes.

O que esse penhasco diz sobre as nossas escolhas

A trajetória do guardião de 74 anos transforma o templo cravado num penhasco remoto em mais do que um ponto turístico exótico em Guizhou. É um laboratório vivo de resistência, fé e disciplina, mantido por alguém que troca conforto urbano por uma rotina de lenha, névoa, silêncio e orações.

Enquanto a casa de madeira, os salões e as escadas recortadas na rocha seguem firmes na encosta, a história desse velho morador lembra que, mesmo num mundo acelerado, ainda há quem escolha uma vida de poucas coisas, muitos rituais e quase nenhum espectador.

E você, se tivesse a chance de passar uma temporada nesse templo no penhasco, longe da cidade e da rotina digital, acha que conseguiria se adaptar ou a solidão e o isolamento seriam um limite intransponível para a sua vida?

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Bruno Teles

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