1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Humanidade tentou bombardear um vulcão para salvar uma cidade e as bombas continuam lá até hoje: descoberta no Mauna Loa expõe o dia em que aviões de guerra atacaram a lava em uma batalha impossível contra o próprio planeta
Tempo de leitura 4 min de leitura Comentários 0 comentários

Humanidade tentou bombardear um vulcão para salvar uma cidade e as bombas continuam lá até hoje: descoberta no Mauna Loa expõe o dia em que aviões de guerra atacaram a lava em uma batalha impossível contra o próprio planeta

Publicado em 19/02/2026 às 11:56
Atualizado em 19/02/2026 às 11:58
Bombas no Mauna Loa tentaram parar a lava rumo a Hilo durante uma erupção histórica e os explosivos continuam lá até hoje.
Bombas no Mauna Loa tentaram parar a lava rumo a Hilo durante uma erupção histórica e os explosivos continuam lá até hoje.
  • Reação
  • Reação
  • Reação
4 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Em março de 2020, equipes no Mauna Loa acharam bombas não detonadas incrustadas em antigos canais de lava, lembrando missões de 1935 e 1942, quando aviões do Exército tentaram desviar o fluxo rumo a Hilo; o episódio expõe riscos, ceticismo científico, e choque cultural com Pele que ainda ecoam hoje

O encontro de bombas não detonadas nas encostas do Mauna Loa, em março de 2020, trouxe à superfície um detalhe desconfortável: explosivos lançados décadas atrás continuam presentes, preservados em canais antigos de lava, como se o tempo tivesse apenas desacelerado dentro da rocha.

Mais do que uma curiosidade, a redescoberta reabre uma discussão antiga sobre até onde a humanidade tenta impor controle quando o perigo se aproxima, especialmente quando a resposta envolve tecnologia militar aplicada a um fenômeno geológico que não negocia e não recua por intimidação.

A redescoberta de 2020 e o risco que permaneceu ativo

As bombas foram localizadas em uma área remota e de difícil acesso do Mauna Loa, o maior vulcão ativo da Terra. Elas apareceram incrustadas em canais de lava antigos, tendo resistido ao calor extremo e a décadas de exposição severa aos elementos.

O que chama atenção é que esses artefatos mantiveram grande parte da estrutura, o que amplia as preocupações de segurança: não se trata apenas de metal abandonado, mas de dispositivos lançados com intenção de detonar, que permaneceram como um passivo físico de uma emergência do passado. A cicatriz não ficou só na paisagem; ficou no risco.

1935: quando a ameaça a Hilo levou bombas ao céu

Para entender por que bombas foram lançadas contra a lava, é preciso voltar a 1935, quando o Mauna Loa entrou em erupção vigorosa. O fluxo avançava em direção a Hilo, a maior cidade da Ilha Grande, com potencial de atingir áreas críticas como o porto e o abastecimento de água.

A proposta mais radical veio do vulcanologista Thomas Jaggar, fundador do Observatório de Vulcões do Havaí (HVO).

A ideia era usar explosivos aéreos para romper tubos de lava e estruturas próximas à fonte da erupção, tentando obstruir o caminho ou provocar transbordamentos que dissipassem energia antes da chegada à cidade. Era ciência sob pressão, com método e desespero no mesmo pacote.

A operação militar: 20 bombas, 600 libras e uma aposta contra a escala do planeta

A coordenação da operação ficou com o então Tenente-Coronel George S. Patton, que depois se tornaria figura marcante na Segunda Guerra Mundial. Em 27 de dezembro de 1935, aviões Keystone B-6 do Exército dos EUA lançaram 20 bombas de 600 libras (cerca de 270 kg) sobre o Mauna Loa.

Cada unidade levava carga de TNT, planejada para detonar no impacto ou com atraso, buscando maximizar dano em estruturas geológicas específicas. Ainda assim, mesmo com precisão e potência, a lógica enfrentava um limite óbvio: explosivos são intensos, mas a dinâmica de um grande fluxo de lava é persistente, contínua, e pode não responder como um alvo convencional.

O “sucesso” que dividiu opiniões e a repetição em 1942

Poucos dias após o bombardeio de 1935, a erupção parou. Jaggar declarou vitória, defendendo que a intervenção humana havia sido decisiva para salvar Hilo, o que ajudou a cristalizar o episódio como um marco de ousadia técnica.

Com o tempo, porém, o ceticismo cresceu. Muitos especialistas passaram a considerar plausível que o fim da erupção tenha sido coincidência, já que o volume de lava e a escala do sistema vulcânico poderiam ser grandes demais para serem alterados por algumas toneladas de explosivos.

Em 1942, novas bombas foram lançadas, agora em um contexto de guerra: havia temor de que o brilho da lava funcionasse como referência noturna para submarinos japoneses, aumentando o risco de ataque. A lava virou também um problema estratégico, não só geológico.

Consequências, cultura e o que mudou na gestão do risco

Além da discussão sobre eficácia, existe o custo invisível de decisões desse tipo. A presença de bombas décadas depois ilustra como uma ação emergencial pode deixar um legado perigoso, exigindo avaliação, remoção ou neutralização segura muito tempo após a crise original ter passado.

Há também um choque cultural profundo: para nativos havaianos, erupções são associadas à divindade Pele, e bombardear o vulcão é visto como sacrilégio.

Hoje, a gestão de risco no Havaí se apoia em monitoramento avançado e planejamento urbano, em vez de tentar “forçar” uma mudança no comportamento do vulcão com explosivos. A tecnologia evoluiu, mas a lição central segue a mesma: natureza não se comanda.

A história das bombas no Mauna Loa não é apenas sobre um episódio excêntrico, e sim sobre limites: limites do poder humano diante de processos geológicos, limites éticos de intervenções rápidas e limites do que se considera aceitável quando uma cidade está sob ameaça.

Se você estivesse em Hilo em 1935, com lava avançando e infraestrutura em risco, você apoiaria lançar bombas como “último recurso”, mesmo sem garantia de efeito? E hoje, quando decisões técnicas esbarram em crenças culturais e em riscos de longo prazo, qual deveria pesar mais na balança: urgência, evidência científica ou respeito ao território e à tradição?

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Fonte
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

Compartilhar em aplicativos
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x